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É advogado na Lopes & Marques advogados e Conselheiro Estadual da OAB/ES

JK: um passado que insiste em apontar o futuro

Revisitar a biografia do ex-presidente conhecido como “bossa nova” em tempos de radicalização política, intolerância ao dissenso e enfraquecimento do diálogo institucional provoca uma reflexão inevitável. Já tivemos grandes homens públicos

  • Alexandre Marques É advogado na Lopes & Marques advogados e Conselheiro Estadual da OAB/ES
Publicado em 06/02/2026 às 10h00

A recente disponibilização da minissérie JK na plataforma Globoplay é mais do que um convite à nostalgia. Produzida em 2006, a obra ressurge em um dos momentos mais delicados da vida política nacional como um espelho necessário daquilo que já fomos capazes de construir como país.

Com atuações memoráveis de Wagner Moura e Deborah Falabella, a minissérie ganha densidade e brilho especial com os já saudosos José Wilker e Marília Pêra, absolutamente magistrais nos papéis de Juscelino Kubitschek e Sara Kubitschek. Wilker entrega um JK humano, sedutor, contraditório e visionário. Marília, por sua vez, imprime à Sara a força silenciosa de quem sustentava um projeto de país tanto quanto o marido.

Wagner Moura interpretou o ex-presidente na minissérie JK, de 2006
Wagner Moura interpretou o ex-presidente na minissérie JK, de 2006. Crédito: Divulgação/Globoplay

A obra também reafirma a potência do audiovisual brasileiro, que historicamente soube contar grandes histórias nacionais com profundidade, cuidado estético e densidade humana. A minissérie JK se insere em uma tradição de produções que ajudam o país a se reconhecer e refletir sobre sua própria trajetória.

Nesse contexto, merecem destaque as atuações magistrais de Luís Melo e Cássia Kis, que conferem complexidade e intensidade dramática aos seus personagens, além de marcar o alto nível interpretativo da produção. Soma-se a isso a participação de Raul Cortez, em uma de suas últimas obras televisivas, trazendo à tela a elegância, a gravidade e a presença cênica que sempre marcaram sua carreira.

Revisitar a biografia do ex-presidente conhecido como “bossa nova” em tempos de radicalização política, intolerância ao dissenso e enfraquecimento do diálogo institucional provoca uma reflexão inevitável. Já tivemos grandes homens públicos. Não eram isentos de falhas, tampouco infalíveis, mas foram realizadores, inovadores e capazes de governar mesmo quando o autoritarismo rondava cada esquina.

JK governou em uma época de intensa instabilidade política, com ameaças constantes à democracia. Ainda assim, conseguiu algo hoje raro: conviver com o diferente. Um exemplo emblemático foi sua disputa ao governo de Minas Gerais contra o próprio cunhado, Gabriel Passos, liderança da UDN e seu adversário político direto. Em um cenário de embates duros, JK demonstrou que divergência não precisa significar inimizade pessoal.

Chama atenção, também, sua habilidade republicana para lidar com a oposição ferrenha de Carlos Lacerda. Ataques duros, acusações incessantes e tentativas de deslegitimação do governo não lhe eram estranhos. Ainda assim, soube preservar a institucionalidade e conduzir o mandato até o fim, algo que Getúlio Vargas, em contexto igualmente hostil, infelizmente não conseguiu, culminando em um desfecho trágico para a história nacional.

A minissérie JK merece ser vista, ou revista, não como uma idealização acrítica do passado, mas como um norte. Um lembrete de que é possível sonhar grande, realizar obras estruturantes, respeitar adversários e governar sem transformar o conflito político em guerra pessoal.

Juscelino é atemporal porque acreditava no futuro sem negar o presente. Porque compreendia que desenvolvimento não se faz apenas com concreto e aço, mas também com diálogo, tolerância e coragem política. Em tempos de descrédito generalizado, lembrar de JK é lembrar que o Brasil já foi capaz de mais e pode voltar a ser.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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