O título deste artigo não é retórica nem é recente. Ele revela um traço persistente da sociedade brasileira: o acesso à educação e às oportunidades profissionais segue profundamente condicionado à raça.
Os dados reiteram esse cenário. Das 9 milhões de pessoas que não completaram o ensino médio, 71,6% são pretas e pardas (IBGE / 2023) contra 27,4% de brancos. Esses números indicam que jovens negros enfrentam maiores obstáculos para permanecer na escola, acessar o ensino superior e alcançar inserções qualificadas no mercado de trabalho.
Essas trajetórias não podem ser explicadas como resultado de escolhas individuais ou falhas pontuais. Elas expressam um arranjo estrutural que naturaliza desigualdades e transforma exclusões em rotina.
No mundo do trabalho, essa lógica se reproduz. O acesso ocorre, muitas vezes, de forma tardia e precária; a permanência é instável; e a ascensão permanece restrita. Quando analisamos renda média, segundo dados do Dieese (2024), o rendimento médio dos negros é 40% inferior ao dos não negros.
A baixa representatividade negra em posições de liderança, combinada a diferenças salariais persistentes, evidencia que mérito e desempenho não operam em condições equivalentes para todos.
Assim, quando a evasão escolar, a subocupação e a menor renda se concentram sistematicamente sobre o mesmo grupo social, o problema deixa de ser episódico e passa a ser sistêmico.
Esse cenário se torna ainda mais evidente quando incorporamos o recorte de gênero. As mulheres negras ocupam, de forma recorrente, a posição mais vulnerável na hierarquia educacional e laboral do país.
No mercado de trabalho, elas enfrentam taxas mais elevadas de desemprego e subutilização da força de trabalho, maior concentração em ocupações desprotegidas e rendimentos inferiores — inclusive quando comparadas a homens negros e a mulheres não negras.
Uma parcela muito reduzida das mulheres negras alcança cargos de direção e gerência, enquanto 1 em cada 6 permanece no trabalho doméstico, uma das atividades historicamente mais precarizada e desvalorizada no Brasil.
A desigualdade, portanto, não opera apenas no acesso inicial ao trabalho, mas se aprofunda ao longo da trajetória profissional. Mesmo quando escolarizadas e inseridas formalmente, mulheres negras seguem recebendo menos e encontrando maiores barreiras à progressão na carreira.
Trata-se de um acúmulo de desvantagens que combina discriminação racial e de gênero, produzindo efeitos persistentes e difíceis de serem superados só com o esforço individual.
Promover equidade, diante desse contexto, exige mais do que reconhecimento do problema. Requer ação coordenada e consistente.
Estratégias como o empoderamento econômico da população negra — por meio de acesso ao crédito, incentivo ao empreendedorismo e políticas de geração de renda — precisam caminhar junto ao fortalecimento do protagonismo e da autoestima, ampliando referências positivas e rompendo narrativas historicamente limitadoras.
Do mesmo modo, uma educação efetivamente transformadora demanda práticas pedagógicas antirracistas, revisão curricular e políticas de permanência que tratem a educação como direito, e não como privilégio.
O desafio que se impõe não é apenas ampliar oportunidades, mas construir pontes sustentáveis entre formação, trabalho e pertencimento.
Afinal, sociedades mais justas não se constroem só com discursos bem formulados, mas com escolhas consistentes sobre quem, de fato, participa do futuro que insistimos em projetar.
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