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É oncologista clínica

Da prevenção à fila: os desafios reais do combate ao câncer

Combater o câncer exige uma visão integrada da saúde, que respeite todas as etapas do cuidado: prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação. Mas é na prevenção que está o maior impacto coletivo

  • Kitia Perciano É oncologista clínica
Publicado em 04/02/2026 às 13h00

O Dia Mundial de Combate ao Câncer é uma oportunidade fundamental para ampliar a conscientização da sociedade, mas também para qualificar esse debate. Falar sobre câncer exige clareza conceitual, responsabilidade e, sobretudo, compromisso com a prevenção como primeiro e mais eficaz caminho.

É importante diferenciar dois conceitos que frequentemente são confundidos. Prevenção significa não desenvolver a doença. Diagnóstico precoce, por sua vez, ocorre quando o câncer já existe, mas é identificado em fases iniciais, aumentando significativamente as chances de cura e permitindo tratamentos menos agressivos. Ambos são importantes, mas a prevenção deve ser sempre a primeira abordagem quando se fala em saúde.

Os avanços científicos no tratamento do câncer são inegáveis. A medicina evoluiu com terapias mais eficazes, tratamentos personalizados, imunoterapia, cirurgias menos invasivas e protocolos cada vez mais precisos. No entanto, nenhum avanço terapêutico é mais poderoso do que evitar que a doença se instale.

A prevenção passa por ações comprovadas e acessíveis, como a vacinação contra o HPV, que reduz de forma expressiva a incidência de câncer de colo do útero e outros tumores associados ao vírus. Passa também por hábitos de vida saudáveis, como alimentação equilibrada, controle do peso, prática regular de atividade física, combate ao tabagismo, redução do consumo de álcool e acompanhamento médico regular. O controle de condições como obesidade, pré-diabetes e diabetes é, inclusive, uma estratégia indireta, mas extremamente relevante, na redução do risco de vários tipos de câncer.

Quando falamos de saúde pública, é preciso dar nome aos problemas. Os serviços existem e, em muitos casos, têm capacidade técnica instalada. O grande gargalo não está apenas na estrutura física, mas na ausência de uma política efetiva de medicina preventiva e de orientação em saúde.

A população não recebe, de forma sistemática, acompanhamento nutricional, orientação para mudanças de estilo de vida, programas de prevenção de doenças crônicas ou ações contínuas de educação em saúde. Isso simplesmente não acontece de maneira estruturada no sistema público.

Outro ponto crítico ocorre após a suspeita da doença. Entre a suspeita clínica, a realização dos exames, a obtenção de uma biópsia e o encaminhamento para um serviço especializado, o tempo costuma ser excessivo. Ao chegar ao atendimento especializado, o paciente enfrenta novos entraves burocráticos, passando por múltiplas consultas até conseguir marcar uma cirurgia ou iniciar o tratamento. Esse atraso compromete prognósticos e aumenta o sofrimento físico e emocional.

A prevenção é a melhor forma de combater o câncer de próstata, assim como a realização de exames periódicos e preventivos
Exames periódicos e preventivos. Crédito: Shutterstock

O problema não é apenas a existência dos serviços, mas a falta de agilidade, de fluxo eficiente e de profissionais em número suficiente. A baixa remuneração e as condições de trabalho pouco atrativas dificultam a fixação de especialistas e equipes completas, criando filas e atrasos em áreas decisivas como diagnóstico e cirurgia oncológica.

Combater o câncer exige uma visão integrada da saúde, que respeite todas as etapas do cuidado: prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação. Mas é na prevenção que está o maior impacto coletivo. Investir em educação em saúde, orientação contínua, medicina preventiva e acesso real à informação de qualidade é reduzir adoecimento, sofrimento e custos futuros.

Neste Dia Mundial de Combate ao Câncer, a reflexão precisa ir além da conscientização. É necessário transformar conhecimento em ação, fortalecer políticas públicas efetivas e colocar a prevenção no centro das decisões. Prevenir é cuidar antes. E cuidar antes salva vidas.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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