Até quando doutor, esta agonia? Todo dia ouvimos a mesma pergunta, a mesmo lamúria de capixabas exauridos pelo confinamento, avós sentindo falta de netos, famílias que não se encontram, pessoas inúmeras cansadas de notícias ruins, com o mesmo cenário de doentes, hospitais, mortes. Todos têm a sensação que a vida parou, presos que estamos a um pesadelo que parece não ter fim.
Estamos, aqui no Espírito Santo, desde a segunda quinzena de março, com escolas paradas, com o desafio de muitas instituições privadas em manter ensino à distância, mas com a virtual impossibilidade da maioria das escolas públicas de manter atividades, em razão da imensa desigualdade no acesso à internet de boa velocidade em nosso país.
Empregos desaparecem, empresas quebram ou enfrentam enorme dificuldade em honrar seus compromissos. Vários setores da economia foram intensamente afetados. Turismo simplesmente nocauteado. Empresas aéreas tradicionais podem desaparecer. Aliás, o ronco dos motores de aviões tem sido dolorosamente substituído pela sirene das ambulâncias. Comércio foi ao desespero, restaurantes e bares fechando, muitos trabalhadores enfrentando fome e desamparo. Por que não funcionou? Quando acaba essa agonia? E agora?
Para conhecer e entender os desafios que temos pela frente, precisamos fazer as perguntas certas e respeitar as respostas. Em primeiro lugar, é necessário reconhecer que essa é uma doença nova e diferente do que conhecemos até então. A COVID 19 é uma doença que tem TODA a nossa espécie suscetível.
É verdade (felizmente) que na grande maioria das pessoas, em especial nas mais jovens, se comporta como uma infecção banal. Mas, em pessoas com mais idade e ou muito obesas, diabéticas, com doenças cardíacas ou outras comorbidades, pode ser mortal. Estima-se que a taxa de hospitalização entre pessoas de 50 a 59 anos seja de 5,5%; entre 60 e 69 anos, de 15%, entre 70 e 79 anos de 33% e acima de 80 anos de 62%! Em pessoas jovens de 40 a 49 anos, 2 % podem necessitar ir ao hospital.
Enfim, NÃO EXISTE em nenhum lugar do mundo leitos hospitalares em quantidade suficiente para atender a todo mundo ao mesmo tempo, e milhares de mortes ocorreriam se continuássemos vida normal.
Em segundo lugar, é necessário ter a humildade de reconhecer que hoje, 4 de junho, com 5 meses de COVID 19, ainda NÃO EXISTE um medicamento que comprovadamente impeça evolução da doença nos casos graves. Como felizmente a grande maioria dos casos é leve a moderado, suco de laranja, chá de cidreira, vitaminas as mais variadas, água, qualquer coisa tentada, vai funcionar, porque simplesmente as pessoas melhoram com ou sem remédio.
Os dedicados profissionais da linha de frente, nas emergências e UTIs, estão aprendendo a duras penas a manejar pacientes graves, salvando vidas e nos ensinando a conhecer exames e algoritmos que ajudam a identificar os quadros de maior risco.
Como não há remédio eficaz ou vacina disponível, hoje a única forma de proteger a vida dos capixabas é quebrar as cadeias de transmissão! A primeira forma e menos custosa seria testar agressivamente os doentes, com testes moleculares (swab nasal/oral) e isolar seus contatos.
O Estado até tentou, está melhor que todo o Brasil (que está horrível, péssimo em número de testes swab/população), mas hoje estamos demorando vários dias para confirmar um diagnostico. Portugal, um exemplo de sucesso no controle da COVI19, tem resultados de swab em seis horas na imensa maioria dos casos. Entre nós, hoje, passa de seis dias.
A segunda forma, muito mais onerosa, envolve distanciamento social rigoroso de 1 a 2 metros entre pessoas, porque o vírus é transmitido por gotículas eliminadas quando as pessoas falam, tossem, espirram ou cantam, MESMO ANTES de terem sintomas da doença. Também pode ser transmitido por objetos (celular, chaves, dinheiro etc..), tudo o que for tocado por uma pessoa com o vírus, daí a importância de lavar as mãos) e sempre em conflito, com discussões ideológicas polarizadas e inúteis nas redes sociais.
Não adianta borrifar as ruas, túneis de desinfecção, mirabolantes formas de esterilização, porque o vírus está nas pessoas e não no ambiente. Os países/cidades que foram bem sucedidos no combate ao COVID tiveram UNIDADE entre governo e oposição, um discurso só, na defesa de medidas duras e necessárias para sair com mais rapidez da pandemia. Em nosso país, de um lado, tivemos negação da gravidade da doença e estímulo ao contágio e aglomerações, e, de outro, uma parada sistemática conjunta de várias cidades do país em situações epidemiológicas distintas. Suspendemos atividades em várias cidades antes da hora.
A imprensa também mostrou inúmeras imagens de transportes públicos lotados no país inteiro. Experiências de outros locais, como Florianópolis, evidenciaram menor número de casos onde o transporte público foi suspenso ou liberado apenas em rígidas situações de afastamento entre pessoas. O fato é que fizemos um isolamento à brasileira, heterogêneo, muitas vezes confuso, desordenado, que achatou a curva de contágio, mas não conseguiu reverter a taxa de novos doentes, a R0 para menos de 1, necessária para controle da COVID.
O cansaço com o confinamento, a necessidade de retomar a economia, o enorme contingente de informais que precisa trabalhar, tudo está nos levando (aos capixabas e diversos Estados da federação) a reabrir em plena curva ascendente da COVID19. Iremos conseguir disciplina rigorosa de 1 a 2 metros em qualquer atividade, com uso correto de máscaras, e distanciamento que não logramos até agora? Já desperdiçamos o momento ideal de isolamento mais rigoroso. Estamos assumindo riscos de sobrecarga e colapso da rede de leitos disponíveis nas áreas pública e privada.
Estamos assumindo riscos de mortes de muitas vidas capixabas, especialmente da população mais pobre. Sim, porque a COVID é extremamente desigual na mortalidade, já que a população mais carente está mais aglomerada e tem mais co-morbidades não controladas pela desigualdade do acesso à saúde. Pior, tenho a certeza de que este caminho tortuoso de isolamento mal feito e longo vai trazer mais recessão e destruição de empregos do que se tivéssemos optado por soluções rápidas duras e mais curtas. Está aí de novo o exemplo de Portugal.
*O autor é infectologista e professor da Emescam