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Covid-19 impõe ao Ocidente regimes de exceção conhecidos apenas em guerras

Não surpreende, portanto, que, diante de uma segunda onda de contágio, Estados europeus e sul-americanos adotem o toque de recolher, uma medida excepcional

Publicado em 28/10/2020 às 10h00
Em meio à pandemia de coronavírus e o isolamento social em casa
Isolamento social: em alguns países, segunda onda está sendo tratada com toque de recolher. Crédito: iStock/Divulgação

Em seu novo livro, "Brutalisme" (La Découverte), o filósofo camaronês Achille Mbembe ressalta a inoperância dos binarismos para significar o mundo atual. Desenvolvido/subdesenvolvido, pobre/rico, humano/não humano, fim/meio, material/imaterial, natural/artificial; a lógica das dicotomias foi substituída pela lógica das permutações. A crise da Covid-19 instaurou no Ocidente uma nova realidade, que confronta suas populações a regimes de exceção conhecidos apenas pelas gerações que vivenciaram a Segunda Guerra Mundial.

A segunda onda de contágio da Covid-19 na Europa obrigou certos Estados a adotarem o toque de recolher como medida de contenção da transmissão do vírus. Trata-se de uma medida excepcional, recorrente em países em situação de guerra ou em crise grave de segurança. Poucas vezes se viu, no século 20, a adoção de tal medida em tempos de paz. Nas minhas memórias, lembro de o Estado congolês decretar o toque de recolher para efetuar buscas de armas de fogo em todas as residências. Eram tempos de guerra.

A tese de Mbembe em "Brutalisme" é a universalização do "devir-negro do mundo"; ou, se preferirem, o "devir-africano do mundo". Em outras palavras, Mbembe diagnostica o Estado de um mundo em combustão, onde, em diferentes latitudes e hemisférios, Estado de exceção e Estado de emergência se tornam cada vez mais presentes e recorrentes.

Desde o início da crise global da Covid-19, os governantes adotaram um discurso bélico para nomear a natureza do perigo que o mundo enfrentava. "Estamos em guerra", "É o maior desafio da nossa geração desde a Segunda Guerra Mundial". Frases como essas foram pronunciadas por governantes e autoridades militares. Não surpreende, portanto, que, diante de uma segunda onda de contágio, Estados europeus e sul-americanos adotem o toque de recolher, uma medida excepcional como método de prevenção.

A permutação da realidade consiste no fato de que, em tempos de paz, o Ocidente se vê obrigado a confinar suas populações e a restringir e limitar drasticamente sua mobilidade, ao passo que nos países africanos, onde o Estado é, em grande medida, falido, nem o confinamento nem o toque de recolher parecem ser medidas factíveis.

O Estado moderno Ocidental se tornou um Estado-Golem, o Estado-Frankenstein que devora seus criadores e as liberdades. O Estado falido africano, paradoxalmente, por sua característica inoperância, configura-se como uma ilha de preservação da liberdade. No entanto, uma liberdade de caráter excepcional.

O autor é doutorando em sociologia na UFPB, estuda as tecnologias da informação na democratização da África francófona

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