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É professora de Língua Portuguesa na rede particular de ensino

Caso Amber Heard: para uma mulher, meias verdades são completas mentiras

É importante frisar que sim, denúncias falsas contra homens existem. Entretanto, não podemos usar tal fato com álibi para relativizar casos que acompanhamos no nosso dia a dia

Publicado em 14/06/2022 às 14h03
Julgamento
Amber Heard e Johnny Depp durante o relacionamento. Crédito: AFP

Durante seis anos, o mundo vem acompanhando os conflitos da vida pós-casamento dos atores Johnny Depp e Amber Heard. Ela, desde o início da separação, que ocorreu em 2016, ganhou uma medida protetiva contra o ex-marido, divulgou fotos de seu rosto machucado – acusando-o dessa agressão física – e publicou um editorial para o popular jornal “The Washington Post”, no qual relata que sofria abusos em um relacionamento antigo e, apesar de não citar o nome de Depp, disse que não poderia restar dúvidas sobre de quem ela falava.

De fato, Amber Heard divulgou vídeos do ator do “Piratas do Caribe” visivelmente alterado, agressivo e batendo portas de armários de sua casa, mas nada que comprovasse sua versão sobre as agressões físicas – o que não deixaria de ser algo grave. Depois de o mundo testemunhar tal atitude do ator, que aparentemente corroborava as acumuladas narrativas de Heard, ele perdeu trabalhos importantes, como a continuação da franquia “Piratas do Caribe” e outros contratos de estúdio, segundo seu agente Jack Whigham. Ele admitiu ter problemas com drogas ilícitas desde sua adolescência e, em 2017, os ex-empresários do ator confirmaram que ele a agredia constantemente.

Em 2022, há poucas semanas, tudo foi acompanhado mais de perto. Ambos se acusaram de difamações. Johnny Depp negou veementemente as práticas de violência doméstica relatadas ao “The Washington Post” e sua advogada conseguiu provar que Amber mentiu sobre os ferimentos das agressões. Em contrapartida, áudios com conteúdos violentos de Depp falando sobre sua ex-esposa com terceiros foram divulgados, além de ofensas dirigidas diretamente a Amber, mas ele alegou que foram apenas desabafos utilizando um tipo de humor ácido. Ou seja: houve atos violência de ambas as partes.

Porém, para concretizar a opinião pública e a do júri, um áudio vindo da parte de Depp, em que a atriz confessava que bateu no ator, virou o jogo de forma que ninguém esperava. A atriz, o tribunal e todo o mundo ouviram suas palavras: “Diga ao mundo, Johnny. Diga a eles que ‘eu, Johnny Depp, um homem, também sou vítima de violência doméstica’”. Assim, com as provas de que os hematomas eram falsos, a falta de provas vindas da atriz e sua confissão em agredi-lo, Depp ganhou o júri – composto por cinco homens e duas mulheres, diga-se de passagem. Algo inquietante quando está em xeque um caso de violência contra mulher – e conseguiu ficar com a maior parte da indenização milionária.

Logo, algo incomum repercutiu no mundo: um homem sofreu violência doméstica e uma mulher mentiu sobre as agressões físicas que sofria. Um dos casos de divórcio de maior notoriedade teve a figura feminina como vilã e o homem saiu como vítima física e material. A mídia internacional focou naquilo que traria mais visibilidade: apesar de haver abusos de ambas as partes do relacionamento, o homem sofrer violência de uma mulher parece chocar bem mais a sociedade.

Casos como o de Amber, infelizmente, deslegitimam parte de uma luta feminina milenar. Há muito tempo somos silenciadas e descredibilizadas pelas agressões que sofremos, e a difusão e protagonismo de casos que são exceções, como esse, só reforçam discursos em que a sociedade desconfia da veracidade dos fatos das mulheres agredidas.

É importante frisar que sim, denúncias falsas contra homens existem. É ilógico pensar que não existem mulheres que mentem ou que tentam se privilegiar de um direito conquistado. Não somos apenas vítimas. É relativamente natural que casos de falsas acusações sejam notadas ao passo que a manutenção e aprimoramento de leis protetivas a favor das mulheres progridem; entretanto, não podemos usar tal fato com álibi para relativizar casos que acompanhamos no nosso dia a dia. Mas casos que, infelizmente, são regras – em que a há uma persistência da violência contra a mulher – não ganharam tanta repercussão midiática quanto essa no cenário internacional.

No Espírito Santo, em 2021, por exemplo, o número de feminicídios superou as porcentagens de 2020 e a expectativa deste ano não deve ser diferente. Foi comemorado por autoridades que o número de violência geral no Estado caiu, mas não repercutiu, por exemplo, que a taxa de violência contra mulher resultada em morte subiu 57,1% no primeiro bimestre. Diariamente, temos casos de mulheres sendo agredidas pelos familiares e companheiros, porém, nenhuma popularidade relevante para que esse debate ascenda a fim de extingui-lo.

Por fim, a ida e a volta de notoriedade da luta das mulheres são constantes, e a passos lentos caminharemos para uma equidade de direitos e o respeito, mesmo que enfrentando episódios como esses que não são ao nosso favor e reforçando discursos que sempre nos relativizaram. As meias verdades de Amber Heard anularam todas as provas de violência verbal e psicológica que ela, de fato, sofreu e comprovou. Para uma mulher, aparentemente, meias verdades são completas mentiras. E todo dano psicológico se reduziu ao nada quando ela adulterou algumas cenas. E ele, parcialmente inocente, se passou aos olhos de todos como alguém completamente injustiçado e anistiado de tudo que também errou.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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