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A pandemia é o jogo para o qual nós, médicos, treinamos a vida inteira

Médica capixaba que atua nos Estados Unidos faz um relato sobre como é lidar diariamente com a doença que assusta o mundo

Publicado em 07/04/2020 às 10h00
Atualizado em 07/04/2020 às 10h00
Coronavírus - Hospital
Coronavírus  mata o paciente e também o doutor e a enfermeira. Crédito: Pixabay

Treinamos a vida toda para enfrentar a morte. Não a nossa. A dos outros. Examinamos, damos diagnósticos difíceis. Usamos tratamentos tóxicos que muitas vezes causam mais sintomas do que a própria doença. Acordamos todos os dias, nos preparamos e cuidamos de pacientes. Alguns, com o passar do tempo, tornam-se amigos.

Uma morte de cada vez. Uma doença terminal de cada vez. Acabam se tornando parte da paisagem. Duras, mas palatáveis. Sobre pandemias, só aprendi na faculdade. Nunca vivi uma enorme, desta monta. Até o H1N1 de 2009, que afinal tinha algum tratamento, não foi tão sombrio assim. Não trouxe isolamento social, não fechou o comércio, nem escolas. Não trouxe fome e insegurança financeira. Não impôs que frotas inteiras de aviões parassem de voar.

Ah, esse coronavírus que pulou de espécies tão rapidamente, do morcego para um pangolim - que até quatro semanas atrás nunca ouvira falar... Que encontrou um receptor perfeito nos pulmões e se instalou. E agora bate à nossa porta. E chega causando uma morte quase que por asfixia, em termos leigos.

Ah, esse vírus que mata o paciente e também o doutor e a enfermeira.

Esse vírus de que tem causado a tempestade perfeita.

Morrer é orgânico. Mas morrer aos montes, morrer sem ar, morrer sem um afago ou um adeus. Morrer sozinho entre estranhos mascarados. É muito triste.

Treinados a vida inteira para o combate. Hoje é o dia do jogo. Dia de encarar este adversário fortíssimo. Usamos toda a nossa coragem para levantar pela manhã e dirigir para o hospital para encará-lo. Enfim. É fim de campeonato. Foi para isso que treinamos.

Que a bondade e a misericórdia de Deus esteja conosco e a compaixão seja minha companheira. O amor é mais forte do que a morte. “Onde está, ó Morte, a tua vitória? Onde está, ó Morte, o teu aguilhão?” Um só homem te venceu. E Nele eu coloco a minha esperança.

A autora é uma médica capixaba que atua nos Estados Unidos

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