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Na pandemia, cidades avançaram 10 anos em tecnologia, diz especialista

Raquel Cardamone, especialista em Cidades Inteligentes, acredita que a tecnologia aliada à ciência de dados pode mudar o rumo de uma cidade

Vitória
Publicado em 24/11/2021 às 15h59
Raquel Cardamone, CEO e fundadora da Bright Cities
Raquel Cardamone, CEO e fundadora da Bright Cities. Crédito: Divulgação/Bright Cities

Começou nesta quarta-feira (24) e vai até à sexta-feira (26), o Vitória Summit 2021, evento que traz um olhar para o futuro próximo da política e da economia do país. A edição deste ano também aborda inovação, desafios e oportunidades para o ano de 2022. Espaço ideal para conhecer mais do trabalho de Raquel Cardamone, empreendedora, fundadora e CEO da Bright Cites, especialista em Cidades Inteligentes, ela palestra nesta quinta-feira (25).

Raquel, formada em administração de empresas, acredita que a tecnologia aliada à ciência de dados pode mudar o rumo de uma cidade, e destaca que os últimos dois anos contribuíram bastante para que barreiras fossem quebradas quando se fala da digitalização dos serviços. "Podemos dizer que nos últimos dois anos a gente avançou mais de 10 anos em quebrar barreiras da digitalização. A gente não imaginava o avanço que teríamos em educação e saúde, por exemplo."

Foi a partir de uma pesquisa a respeito de mobilidade urbana que Raquel identificou o conceito de Cidades Inteligentes, que engloba como as cidades absorvem a tecnologia para melhorar o serviço público, tornando ele mais eficiente, com menos custos. Pensar como a cidade pode absorver tecnologia e inovação para gerar mais dados para melhorar a gerência do espaço.

Foi daí que surgiu a ideia, em 2015, da Bright Cities, que três anos mais tarde seria fundada, trazendo marketplace para fazer o matchmaking entre soluções tecnológicas e os desafios das prefeituras usando o algoritmo para diagnosticar os problemas de cada cidade.

“Percebemos que é importante realizar diagnósticos das cidades para poder então priorizar as soluções disponíveis. Não adianta apenas mapear e apresentar tudo o que existe. É necessário ajudar o gestor público a priorizar.”

Hoje a Bright Cities conta com 40 fontes de dados públicos, para que isso seja muito mais rápido para o gestor público absorver ou para qualquer empresa ou cidadão que queira empreender na sua cidade. Os dados são analisados e cruzados para identificar os problemas de cada cidade e depois oferecer um mapeamento de soluções possíveis. O diagnóstico utiliza 160 indicadores padronizados para comparar cidades.

Confira a entrevista abaixo:

O que uma cidade precisa ter para ser considerada uma “cidade inteligente”?

Hoje a gente avalia 10 áreas na cidade: educação, segurança, governança, meio ambiente, energia, urbanismo, tecnologia, inovação, mobilidade e empreendedorismo. Existem vários conceitos de cidades inteligentes, o conceito que a gente acredita, que mais incentiva, é o conceito de absorção de tecnologia em mais de seis áreas. Então não adianta você ser bom em uma área, ter um desenvolvimento super eficiente na educação, mas não na área de segurança. Se o local tiver bem aplicado o conceito em mais de seis áreas é considerado uma cidade inteligente. Mas o conceito está sempre em evolução, pois a gente pode estar evoluindo no desenvolvimento das cidades. O conceito de cidades inteligentes hoje abrange o conceito de cidades sustentáveis. Não é cidade digital, não é ter a tecnologia pela tecnologia. Mas usar a tecnologia como um meio para no final você entregar uma cidade melhor, uma qualidade de vida melhor.

Quando se fala em cidades inteligentes, pensa-se logo no uso de aplicativos de celular e outros dispositivos digitais na solução de questões das cidades, como apps de transporte, ou para agendar consultas e vacinas ou fazer matrícula nas escolas, por exemplo. Contudo, ainda hoje há uma desigualdade muito grande de acesso a essas tecnologias por parte da população. Como implementar soluções inovadoras de modo a reduzir essa desigualdade em vez de reforça-las?

Hoje se fala bastante da questão da inclusão social, o ideal é usar essas ferramentas para incluir e não deixar ninguém de fora. Então, por exemplo, no coronavírus foram criados diversos aplicativos, mas tem gente que não tem acesso, um plano de banda larga. Temos exemplos de cidades que por conta da pandemia no ensino a distância distribuíram chips para o acesso à educação de muitas crianças que não tinham internet. É preciso estudar quais são as políticas públicas corretas para não deixar ninguém de fora. Como a gente cria infraestrutura para que se tenha bem distribuída a questão da internet, pontos de wi-fi gratuitos, para que você tenha a inclusão dessas pessoas. Outra ferramenta que foi utilizada também no durante a pandemia de coronavírus foi a comunicação via whatsapp, que muitas operadoras não cobram a questão do consumo, então foram criados robôs, chatbots para alimentar a população de informação, uma população que necessariamente não tenha um plano de internet, mas que usa o whatsapp. Então é pensar alternativas para que você não exclua, não aumente a questão da desigualdade e sim buscar soluções para que você possa também inclui-los. Outro ponto é a capacitação porque não é só dar acesso a internet, mas você também capacitar aquele cidadão, ele entender e saber utilizar aquelas ferramentas. E a terceira idade é um ponto que se discute bastante, como criamos aplicativos que sejam acessíveis para todas as idades, por exemplo.

O que impede hoje as cidades de pensar em soluções inteligentes e baseadas em dados para suas questões?

Cada vez mais temos a disponibilidade de geração de dados. Quando falamos em tecnologia, a gente está falando no desenvolvimento de sensores, de aplicativos e tudo isso está gerando dados. Então a oportunidade que hoje a gestão pública tem de obter um dado e tomar decisões melhores é muito maior. Sensores estão com um custo mais baixo e acessível. Temos aplicativos que são gratuitos e que disponibilizam a informação diretamente para a prefeitura, sem custos. Existe um mundo de oportunidades para a gestão pública, mas é claro que também existem barreiras. Barreiras de absorção dessa tecnologia e inovação, em termos de compras públicas, a preparação da gestão pública para esse momento tecnológico, em termos de cultura mesmo. De pensar e resolver problemas de formas diferentes do que a gente resolvia antes. Da transformação digital de como aplicar isso na vida real, nas cidades, então como transformar os serviços hoje que estão disponíveis digitais, mas não só digitais, eles também serem revisados, não adianta só eles digitalizarem um processo, mas também entenderem como melhorar esse processo. Como a gente pode atender melhor esse cidadão, é todo um processo de transformação digital que a gente tem que passar, mas que foi bastante incentivado pela questão da pandemia. A gente conseguiu acabar com algumas barreiras que existiam nessa questão de digitalização, viu como era importante, já se sabia mas agora intensificou ainda mais. O que não estava digitalizado parou no momento de pandemia, o que estava digitalizado continuou funcionando. Então o quanto importante é a gente ter essa movimentação, mas sempre visando o foco principal, que a gente reforça que não é a digitalização, a tecnologia, mas sim como eu posso resolver um problema de maneira mais eficiente ou atender aquele cidadão de maneira melhor do que eu fazia no passado.

Então é uma questão mais de cultura do que de tecnologia disponível? E como a pandemia fez com que acelerasse essa questão?

São as duas coisas, tanto tecnologia quanto cultura. A cultura de você pensar como resolver de maneira diferente usando a questão de dados. A cultura de você utilizar muito mais dados, não ter somente a decisão do plano estratégico e muito mais fundamentado em informações. Quando falamos de dados, são os indicadores das cidades. Então podemos ver a performance de uma cidade em número de homicídios, como ela está em relação à reciclagem, transporte público, etc. Já existem hoje indicadores padronizados para comparar as cidades, com muitos dados públicos para fazer essa análise. Hoje a Bright Cities consolida mais de 40 fontes de dados públicos, para isso ser muito mais rápido para o gestor público absorver ou para qualquer empresa ou cidadão que queira empreender na sua cidade. Ela entra na plataforma e de maneira gratuita consegue entender como a cidade dela está em relação às dez áreas, a gente reúne 160 indicadores padronizados para comparar cidades. E, sim, a pandemia acelerou os processos de digitalização. Antes tínhamos que agendar com antecedência uma reunião, ter um técnico na sala, etc. Agora a gente faz reuniões com servidores públicos na casa deles. Então isso fez com que essa barreira do virtual mostrasse que é acessível, que é possível, e isso fez com que a gente avançasse muito. Podemos dizer que nos últimos 2 anos a gente avançou mais de 10 anos em quebrar barreiras da digitalização. A gente não imaginava o avanço que teríamos em educação e saúde, por exemplo. Um dado importante é que serviços digitalizados no meio público podem gerar até 97% de redução de custos, é uma eficiência muito grande. E esse dinheiro que deixa de ser gasto pode ser realocado para outras áreas.

Encontrar soluções inteligentes para as cidades demanda inovação. A configuração dos órgãos públicos - seja internamente ou por meio de licitações - são um entrave para que sejam aplicadas novas soluções?

É um entrave, é um dos principais entraves no Brasil. Aqui a questão da inovação, você ter uma venda, para uma organização que seja uma prefeitura ou Estado, você precisa ter histórico, e tem muitas inovações que são feitas por startups, por um grupo de um cidadão que quer resolver um problema e cria uma nova empresa. Isso é muito bom, fomenta o desenvolvimento, o empreendedorismo, mas ao mesmo tempo as leis não acompanham a absorção disso. Existe muita discussão a respeito disso. Foi criada a lei de startup que veio ajudar essa absorção, teve a mudança da lei de licitação que também foi recentemente renovada para poder dar mais acessibilidade a isso. As leis de inovação existem, só que elas não são aplicadas. Quando você vai vender para uma prefeitura, ela ainda tem muito receio, existem muitos entraves ainda nessa questão. Outro entrave que a gente tem no Brasil é a falta de continuidade dos planos estratégicos das cidades, pois muda um governo, uma gestão, e a gente vê isso acontecendo muito na gestão pública, e não tem continuidade. Muda o governo e todas as atividades que existiam param, não tem continuidade da forma que a gente gostaria e deveria ser.

Imagino que seja bem difícil uma startup apresentar por exemplo laudo de capacidade técnica de um produto que nem existe ainda ou que ninguém nunca fez?

Exatamente, é desafiador, porque você não tem muito histórico, é algo novo. Nós mesmo da Bright Cities no início do estudo e da pesquisa da plataforma em 2015, quando a gente começou a fazer as visitas junto com prefeitos, entendendo como a gente poderia acelerar esse processo, a gente ficou três anos desenvolvendo o protótipo e lançou a plataforma em 2018. No mesmo ano já tínhamos cidades interessadas para comprar e iniciamos o processo. Só que a primeira cidade levou 1 ano para fechar por causa da burocracia. Foi Aracaju, que a gente agradece sempre pela coragem. Então, Aracaju foi a primeira cidade, hoje temos mais de 70 municípios. Atendemos diversos Estados, acabamos de fechar com Campina Grande e Petrolina. Temos cidades grandes como Campinas e Curitiba. Em cidades menores como São Félix do Tocantins, temos um grupo de cidades bem diversas.

De que modo uma cidade mais inteligente pode contribuir para um avanço econômico, seja na atração de novos negócios ou na melhoria dos serviços básicos para a população?

Temos o exemplo da mobilidade: eu deixo as pessoas menos tempo no trânsito e elas têm mais tempo para produzir. Isso tem impacto tanto na qualidade de vida do cidadão que pode passar mais tempo com a família quanto na produtividade do trabalho. Buscar cidades sustentáveis tem muito a ver com o que a gente faz para desenvolver cidades também mais sustentáveis não só na área do meio ambiente, mas também economicamente sustentáveis. É pensar em como a gente faz para encontrar as soluções para os problemas que a gente vem vivendo na cidade. Incentivando a criação de novas empresas de empreendedorismo. Esse tema está muito relacionado a hubs de inovação, ecossistemas de inovação, como eu crio na cidade uma forma de incentivar novos empreendedores. Essa área de empreendedorismo, até uma das áreas que a gente incluiu na nossa análise, é uma área que a gente avalia quanto de emprego, quantas novas empresas são criadas, quanto que eu fomento em incentivos de pesquisa de desenvolvimento e quantas patentes são geradas em cada uma das cidades. Exatamente para fomentar a questão da inovação. A inovação é o funil do desenvolvimento, é aonde vai gerar novas soluções, novas empresas, que faz com que a cidade continue se desenvolvendo.

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