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Crime contra as mulheres

PL da Misoginia tem aval de Lula, ressalvas de Flávio, oposição de Zema e silêncio de Caiado

O texto especifica como discriminatória qualquer atitude ou tratamento que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida, de forma que não ocorreria com homens

Publicado em 19 de Abril de 2026 às 16:22

Agência FolhaPress

Publicado em 

19 abr 2026 às 16:22

SÃO PAULO - Embora o combate à violência contra a mulher esteja presente nos discursos dos principais pré-candidatos à Presidência da República, o projeto para criminalizar a misoginia, aprovado no mês passado pelo Senado Federal, divide opiniões entre eles.


A Folha de S.Paulo procurou as pré-campanhas do presidente Lula (PT), do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e dos ex-governadores Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (PSD-GO) para saber o posicionamento deles a respeito do projeto, que prevê incluir a misoginia entre os crimes de preconceito previstos na Lei do Racismo.


Lula, por meio do PT, manifestou apoio ao projeto de lei proposto pela senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), que integra a base governista. Flávio disse ser necessário aprimorar o texto --ainda que ele próprio tenha votado a favor de sua aprovação no Senado--, enquanto Zema se manifestou contra a proposta por, segundo ele, atentar contra a liberdade de expressão. A equipe de Caiado, alegando ainda estar estruturando a pré-campanha do goiano, não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.


O texto especifica como discriminatória qualquer atitude ou tratamento que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida, de forma que não ocorreria com homens. A pena prevista é de dois a cinco anos de prisão. Se o crime for cometido no contexto de violência doméstica e familiar, a pena será aplicada em dobro.

Em nota, o PT classificou a proposta como um avanço no combate à violência de gênero e mencionou o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, lançado pelo presidente em fevereiro após a repercussão de uma série de feminicídios no país.

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Proposta quer tornar crime qualquer ato de discriminação contra as mulheres
Crédito: JULIANA ARREGUY

Lula acumula declarações machistas em sua trajetória. Em abril de 2025, por exemplo, chamou a diretora-geral do FMI (Fundo Monetário Internacional), Kristalina Georgieva, de "mulherzinha" e, no mês anterior, disse ter nomeado uma "mulher bonita" (Gleisi Hoffmann) no ministério para "melhorar a relação" com o Congresso.


Ao mesmo tempo, o petista tem incorporado aos seus discursos públicos falas em prol da igualdade de gênero. "É por isso que a gente gosta de dar a chave na mão da mulher. Se o cara ficar bravo, tranca ele do lado de fora. Aí ele vai aprender a não ser bravo mais com a companheira mulher", disse o presidente em março durante cerimônia de entrega de chaves do Minha Casa, Minha Vida no Palácio do Planalto.


"A criminalização da misoginia é um passo fundamental e deve estar articulada a ações estruturais, como educação para a igualdade, fortalecimento da rede de proteção e enfrentamento ao discurso de ódio, inclusive nos ambientes digitais", diz o PT na nota enviada.

Flávio Bolsonaro também tem adotado discursos pró-mulheres de olho em uma fatia do eleitorado que tem histórico de rejeição ao pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), cujo longo histórico de declarações machistas já incluíram ataques a jornalistas mulheres e uma declaração de 2014, de que só não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT-RS) porque ela não merecia.


"Eu sou casado com a Fernanda, sou pai de duas princesinhas que são a razão do meu viver e imagino a dor dessas famílias que tem uma mulher agredida ou uma mulher assassinada por um covarde. E a gente não vai mais tolerar isso nesse país", disse o senador durante um protesto na avenida Paulista, em março.

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A equipe de Flávio, por meio de nota, disse à reportagem que, no plano de governo, "a temática da segurança e da proteção à mulher será tratada com prioridade". Ele votou pela criminalização da misoginia, mas afirmou que o texto que seguirá para ser votado na Câmara dos Deputados "apresenta lacunas e pontos que ainda precisam ser aprimorados".


Em outubro de 2025, Flávio e outros dez senadores de direita apresentaram um recurso para que o texto fosse votado em plenário, e não só aprovado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, que avalia a constitucionalidade dos projetos. Na ocasião, ele já defendia a necessidade de alterar a proposta.


"O texto aprovado carece de aperfeiçoamento técnico, pois a definição de misoginia adotada é ampla e imprecisa, abrindo espaço para interpretações excessivas e para a eventual criminalização de condutas que não configuram ódio ou aversão real às mulheres", diz o parecer.


O projeto descreve a misoginia como conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres.

O argumento de que a definição carece de maior precisão também é utilizado por Romeu Zema, que se disse contrário ao PL da Misoginia, como ficou conhecido o projeto aprovado pelo Senado.


"Sou contra esse projeto. O texto tem uma definição vaga sobre o que é misoginia e abre um precedente perigoso, colocando em risco a liberdade de expressão. A violência contra a mulher é inaceitável e deve ser combatida com o maior rigor. Só que tornar crime opiniões alheias, por mais reprováveis que sejam, não protege as mulheres, apenas amplia o poder do Estado sobre o que as pessoas podem ou não dizer", afirmou o ex-governador em nota.


Em 2020, durante o lançamento de um programa de combate à violência de gênero, o mineiro afirmou que a opressão contra a mulher é "meio que instinto natural do ser humano".


No texto enviado por sua equipe à Folha, Zema disse defender o aumento de penas contra agressores, estupradores e feminicidas. "Que tipo de homem acha que é normal partir para a agressão quando uma mulher diz não e ainda posta nas redes? Sou pai, tenho uma filha e tenho também um filho e me recuso a aceitar um país onde mulheres vivem com medo de sair na rua", afirmou ele em vídeo publicado no seu canal do YouTube em março.


Sem ter retornado à reportagem sobre o PL da Misoginia, Ronaldo Caiado também tem explorado o combate à violência de gênero em discursos de pré-campanha. "Tenho mão firme contra criminosos. Quando são agressores de mulheres, aí é que sou mais mão pesada", disse ele em vídeos gravados por sua equipe em março.

O QUE É O PL DA MISOGINIA?

Prevê incluir a misoginia entre os crimes de preconceito da Lei do Racismo Seria considerado crime qualquer atitude ou tratamento que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida a uma mulher, de forma que não ocorreria com homens Define misoginia como conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres Pena prevista de 2 a 5 anos de prisão Se o crime for cometido no contexto de violência doméstica e familiar, a pena é aplicada em dobro.


QUAIS SÃO OS PRÓXIMOS PASSOS?

Já aprovado pelo Senado, o projeto foi enviado à Câmara dos Deputados, onde precisa ser votado Se aprovado na Câmara, o texto segue para sanção presidencial O presidente pode sancionar o projeto integralmente, vetá-lo por completo ou vetar apenas trechos O Congresso Nacional pode derrubar eventuais vetos presidenciais

  

O QUE DIZ CADA PRÉ-CANDIDATO?

Lula (PT) -- favorável: O PT classificou o PL como um avanço no combate à violência de gênero e defende que a criminalização da misoginia seja articulada a ações estruturais Flávio Bolsonaro (PL) --favorável com ressalvas: Votou a favor da aprovação no Senado, mas defende que o texto precisa de aprimoramentos, criticando a definição de misoginia como ampla e imprecisa Romeu Zema (Novo) -contrário: É contra o projeto e afirma que a definição vaga de misoginia representa um risco à liberdade de expressão; defende o aumento de penas para agressores, estupradores e feminicidas, mas argumenta que criminalizar opiniões não protege as mulheres Ronaldo Caiado (PSD)- sem posição registrada: A equipe não respondeu aos questionamentos da Folha de S.Paulo sobre o PL, alegando estar ainda estruturando a pré-campanha. 

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