Uma ferramenta gratuita desenvolvida para enfrentar situações de violência de gênero contra mulheres e combater o feminicídio agora está disponível em todo o Espírito Santo. O programa de pesquisa e extensão Fordan, da Universidade Federal do Espírito Santo, amplia o aplicativo Fordan/Ufes, que passa a acolher mulheres negras periféricas, mulheres com deficiência, quilombolas, indígenas, do campo, transexuais, travestis, entre outros grupos invisibilizados. Além disso, a plataforma permite até fazer pedido de medida protetiva de urgência e petição de pensão alimentícia.
O aplicativo, que existe desde 2023, foi relançado no último mês visando atender a um número maior de mulheres. A primeira versão só estava disponível para moradoras de São Pedro, em Vitória e agora passa a abranger todo o Estado. Durante a primeira semana de acessos após o relançamento, houve um monitoramento dos cadastros efetuados por 11 grupos de mulheres convidadas: quilombolas, camponesas, indígenas, acolhidas no Fordan São Pedro, lideranças de movimentos de mulheres, atletas do futebol feminino, lideranças sindicais, advogadas, professoras, gestoras e estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), e estudantes do Projeto LabGirls, do Centro Tecnológico da Ufes.
Ao se cadastrar, cada mulher registra perfil completo: onde está, como se autodeclara e qual é a sua rede de apoio. Coletadas essas informações, o projeto entra na fase de organização, sistematização e análise dos dados, por meio de um observatório composto por pesquisadores da Ufes e de universidades parceiras. De acordo com a fundadora e coordenadora-geral do Fordan/Ufes, Rosely Pires, os novos acessos mostram que as mulheres se interessam pela ferramenta.
“Nesses acessos, elas já estão começando a solicitar medidas protetivas e pensão por alimentos. O aplicativo está chegando aos lugares que mais nos preocupam, onde mais mulheres estão sendo assassinadas. Esse primeiro momento foi muito satisfatório. A gente já percebeu que é possível impactar a comunidade externa por meio de ações específicas”, pontua Rosely.
Acessibilidade e acolhimento
O aplicativo foi desenvolvido para atender as demandas de mulheres em situação de vulnerabilidade. O coordenador do Núcleo TI e desenvolvedor do APP Fordan/Ufes, Victor Hugo Pereira da Silva, destaca a importância da ferramenta de áudio do aplicativo como recurso de acessibilidade para as mulheres que, por razões diversas, podem ter dificuldade em ler e escrever para responder as informações.
“São pedidos de mulheres que estão sofrendo violência e precisaram utilizar a ferramenta de microfone e áudio, e não a leitura e escrita, para registrarem suas solicitações. Em um segundo momento, esses pedidos serão enviados diretamente para a Defensoria Pública”, explica Victor Hugo.
A advogada e assessora do Núcleo Jurídico do Fordan, Cristiane Ribeiro, destaca o atendimento humanizado feito na plataforma digital. “É um aplicativo feito com mulheres, pelas próprias mulheres. Então, teve toda assessoria técnica desse aplicativo, ouvindo as vítimas e as acolhidas. A ferramenta tem perguntas não intimidadoras para que essa mulher não se sinta acuada e não seja revitimizada em uma situação em que já está sofrendo a violência”, aponta a advogada.
Além disso, a ferramenta também conta com um acordo feito com a Defensoria Pública do Espírito Santo para solicitação de medida protetiva e pedido de pensão alimentícia. A advogada é responsável por entrar em contato para ajudar as mulheres a preencherem o formulário de pedido on-line.
Já de olho na ampliação do aplicativo, o setor de TI da Defensoria Pública está desenvolvendo uma forma de receber as solicitações vindas do aplicativo por meio de um e-mail específico. Assim, os defensores poderão entrar em contato com a mulher para proceder com o preenchimento do formulário, estendendo, assim, o serviço que já é feito com quem vai pessoalmente à instituição solicitar essa ajuda.
Acessos ao aplicativo
Nesse período, foram criadas 74 contas, sendo que 89% dos acessos foram feitos por mulheres cis. As pardas foram as que mais acessaram a plataforma (14), seguidas das pretas (10) e brancas (7). Outro dado coletado foi o nível de escolaridade. A ferramenta foi acessada prioritariamente por mulheres que possuem ensino superior completo (20), ensino médio (6), doutorado (5) e ensino superior incompleto (2). No que diz respeito à distribuição por cidades, Vitória registrou 27 acessos.
De acordo com o desenvolvedor do Banco de Dados e Back-end do aplicativo Fordan, Thiago Baiense, a prioridade no momento é a divulgação do serviço oferecido.
“É preciso informar as mulheres que agora há um aplicativo com essas funcionalidades que podem ajudá-las a acessarem os serviços legais com maior facilidade. A conscientização sobre o aplicativo e o cadastro prévio de uma mulher nele pode agilizar as etapas necessárias para ela acessar os serviços disponibilizados, quando tiver necessidade”, afirma o desenvolvedor.
A iniciativa foi viabilizada por meio do edital Mulheres da Ciência, da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes). O desenvolvimento do software ficou a cargo de pesquisadores e estudantes da Ufes de áreas como direito, informática, saúde, psicologia, educação e cultura, com a participação ativa de 57 mulheres acolhidas pelo programa e suas famílias.
Segurança de dados
Para garantir a segurança e a confidencialidade dos dados sensíveis, tanto o servidor da aplicação quanto o sistema de gerenciamento de banco de dados relacional (SGBD) foram implantados na infraestrutura fornecida pela Ufes, dentro do datacenter próprio. De acordo com o reitor da Ufes, Eustáquio de Castro, a universidade possui um sistema de proteção altamente eficaz.
"Estamos tratando de uma questão extremamente sensível, que é a violência contra a mulher. Se não garantirmos o sigilo, estamos tornando mais vulneráveis ainda aquelas mulheres que são vítimas de violência. Então, a segurança dos dados é extremamente importante dentro desse processo. A violação do sigilo pode comprometer todo o programa e tudo aquilo que não queremos, que é a proteção da mulher. Essa segurança a gente garante”, destaca o reitor.