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Protagonismo feminino

Coletivos de mulheres criam redes de apoio e geram renda no ES

Conheça quatro histórias de iniciativas que atuam no protagonismo feminino

Publicado em 13 de Setembro de 2026 às 07:25

Larissa Cors

Publicado em 

13 set 2026 às 07:25

Projetos comunitários e redes de apoio desenvolvidos por mulheres no Espírito Santo têm se destacado em diversas frentes sociais. O escopo dessas iniciativas vai desde a sustentabilidade com a reciclagem de óleo até a preservação da identidade e culinária quilombola. Há coletivos que usam a produção audiovisual e a valorização da beleza afro por meio de trancistas para gerar capacitação, grupos de networking para alavancar os negócios de mães solo, além de polos focados em economia criativa e educação inclusiva.

Além disso, outros projetos atuam no combate à violência doméstica, rural e institucional, oferecendo suporte logístico, jurídico e emocional às vítimas. O mapa de ações abrange ainda o acolhimento psicológico de mães atípicas e cuidadoras, a promoção de cidadania para mulheres nas periferias e em situação de rua, e o fortalecimento do movimento de mulheres negras, formando uma rede de proteção.

Para mostrar a força dessa rede na prática, a reportagem de A Gazeta detalha a seguir a história de quatro desses coletivos. Estes, aliás, estão entre os 20 grupos premiados, neste ano, pelo governo do Estado em R$ 10 mil por boas práticas para as mulheres. 

MEIQUE: Reciclagem de óleo vira renda em Alegre

Mulheres do projeto Meique

No Morro do Querosene, em Alegre, o projeto Meique nasceu no final de 2019 com a proposta de atuar no descarte desenfreado de óleo de cozinha usado, uma falha sistêmica da região e um dos maiores poluentes da bacia do Rio Itapemirim. Por meio de um processo de saponificação, o coletivo de mulheres recicla o resíduo e o transforma em produtos de limpeza.


A secretária do grupo, Nátali Feliciano, explica que a iniciativa foi desenvolvida por estudantes do time Enactus, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com foco em ajudar "Mulheres Empreendedoras Individuais do Querosene" – de onde foi originada a sigla Meique.


O projeto se transformou em um negócio de impacto socioambiental liderado pelas próprias moradoras. "Quando elas tiveram a noção de que a água que passa no Rio Itapemirim é a mesma que elas bebem, veio aquele estalo, aquela luz na mente. Elas pensaram: 'chegou a hora de fazer alguma coisa'", relembra Natáli.


O Meique já processou mais de 17,1 mil litros de óleo, evitando a contaminação de mais de 425 milhões de litros de água.

A iniciativa recicla o óleo que seria descartado nas águas de Alegre Divulgação

Ao detalhar o uso do recurso da SESM nas operações do projeto, Natáli destaca que o reconhecimento serve como uma resposta à desvalorização do trabalho manual. "A gente ainda encontra uma certa subestimação das pessoas, do tipo 'ah, sabão eu também sei fazer'. Mas não estamos falando de simplesmente fazer sabão, estamos falando de uma escala maior de reciclagem, de geração de renda e de dar boa visibilidade para uma comunidade inteira. Sentimos um pouco mais de segurança financeira e nos sentimos valorizadas com a premiação", relata a secretária.

Rede Capixaba atua no apoio a mães atípicas

Em 2022, com foco em orientar famílias sobre os direitos de crianças e pessoas com deficiência, a assistente social e mãe de uma criança com paralisia cerebral, Karla Francine da Costa, criou o Coletivo de Famílias Atípicas Capixabas (conhecido como Juntos+).

A partir do coletivo, ela percebeu que as próprias cuidadoras precisavam de amparo e criou um braço dentro coletivo: o projeto Mulheres Extraordinárias - Rede Capixaba de Acolhimento e Fortalecimento de Mães Atípicas e Mulheres Cuidadoras.

"Primeiro, a prioridade era atender as crianças e pessoas com deficiência e orientar sobre os direitos. O projeto era só para isso. Depois, a gente viu a necessidade de criar uma rede de acolhimento porque as mães atípicas se sentiam sozinhas e invisíveis. A maioria é negra e mãe solo e não tinham esse espaço", explica Karla.
Karla Francine da Costa recebe o Prêmio de Boas Práticas para as Mulheres do Estado Acervo pessoal

Hoje, o coletivo apoia 170 famílias e o projeto de mulheres possui encontros mensais com terapeutas e psicólogos que intercalam os formatos presencial e online. De acordo com a criadora, a flexibilidade permite a participação de mães que não podem sair de casa devido à rotina de cuidados com os filhos acamados.


Para além do apoio psicológico, a rede também atua para dar visibilidade aos desafios diários das cuidadoras. Uma das ações já realizadas pelo projeto foi uma exposição fotográfica no Shopping Moxuara para conscientizar a sociedade sobre a maternidade atípica.

Agora, o reconhecimento estadual e o prêmio de R$ 10 mil representam a garantia de expansão dessa voz: o recurso vai financiar a publicação de um livro com os relatos e vivências reais dessas mães. "O nosso livro será mais uma etapa concluída para o projeto. Como atuamos de forma voluntária, pretendemos formalizar o projeto com um CNPJ para direcionar o investimento para os fins necessários para essa etapa", conclui.

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Combate à violência

Alguns coletivos selecionados voltam-se ao combate à violência contra as mulheres. O Movimento Libertas é um deles, que foca no suporte estrutural e logístico para vítimas de violência doméstica. A iniciativa funciona como uma ponte entre a sociedade e o Poder Público, oferecendo suporte prático que vai desde a entrega de cestas básicas e auxílio para aluguel social até, em casos extremos de risco, o financiamento de passagens ou fretes para que a mulher possa sair do Estado.

Outro coletivo que também atua na linha de frente contra a violência é o "Parem de nos Matar", coordenado pela Valcilene Lobato. O projeto foi desenvolvido pelo Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) no Espírito Santo, o qual Valcilene também coordena, e busca dar visibilidade às violências que ocorrem de forma silenciosa no campo, nas águas e nas florestas.
Encontro do "Parem de nos matar", que faz parte do Movimento Mulheres Camponesas (MMC) Acervo pessoal
Valcilene explica que as agressões nessas regiões costumam ser invisíveis para a sociedade, e as vítimas raramente encontram atendimento adequado. O projeto funciona como um trabalho de formação de base para libertar as trabalhadoras rurais de qualquer opressão, combatendo de frente o avanço de discursos misóginos.

"Como vem muito atual agora essa machosfera, esse discurso que apareceu como 'red pill' e que toma força no Brasil, nós trabalhamos muito forte contra o machismo, o patriarcado e o racismo. No campo, nas águas e nas florestas acontecem muitas violências e as pessoas não sabem, a maioria das vítimas não tem nem atendimento, são invisíveis. Para isso, trazemos o nosso grito: chega, parem de nos matar", afirma.

Embora a raiz do coletivo seja camponesa, a missão também se estende ao trabalho com mulheres de áreas urbanas e periurbanas, buscando construir um modelo de agricultura feminista baseado na agroecologia. Com o reconhecimento e o repasse de R$ 10 mil do edital, a meta do grupo é usar o incentivo para expandir a atuação e engajar novas mulheres, levando as formações do movimento também para a Grande Vitória.

"Mãos que Criam" e "Ubuntu" promovem economia criativa e capacitam mulheres no Sul

Em Piúma, a reportagem conversou com a professora Liza Andréa dos Santos, idealizadora do projeto Mãos que Criam e presidente do Instituto Ubuntu. Aplicando a sua tese de mestrado, que aliou a neurociência ao ensino da arte para promover saúde mental, Liza Andréa oferece oficinas gratuitas para mulheres em situação de vulnerabilidade.

As mulheres aprender a confeccionar
 biojoias usando as conchas características da região, servindo como complemento de renda. O projeto Mãos que Criam já capacitou mais de 800 mulheres e Liza Andréa conta que o prêmio de R$ 10 mil será investido na compra de kits de materiais para ampliar o atendimento e aprendizado. "O resultado do projeto é brilhante. Ver elas [as participantes] resgatando a sua própria identidade, a sua autonomia, levando para dentro de casa o seu sustento, muitas das vezes, para suas crianças", relata.

O projeto se expande ainda por meio do Instituto Ubuntu, criado por Karla Regina dos Santos, e a Rede de Empoderamento Feminino, que faz parte do Instituto. O coletivo reúne cerca de 150 mulheres de diversas áreas, desde médicas até empreendedoras autônomas, para ajudá-las com novas oportunidades no mercado. O valor recebido pelo Edital MulherES também será destinado a reforçar as capacitações e materiais necessários.

Recentemente, o instituto identificou a alta demanda por profissionais da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e, em parceria com professores da Secretaria de Educação (Sedu) e da Secretaria de Ciência e Tecnologia, viabilizou bolsa para a formação de 15 mulheres na área.
Participantes trabalham com a confecção de objetos com conchas de Piúma Acervo pessoal

As capacitações são importantes porque quando a gente reúne várias mãos de mulheres que querem transformar um pouquinho da sua realidade, isso acaba refletindo na família delas e em todo o seu entorno

Liza Andréa dos Santos Idealizadora e coordenadora do projeto Mãos que Criam

Confira, abaixo, os 20 coletivos premiados no 1º Prêmio de Boas Práticas para as Mulheres do Estado:

  • A rua é das Marias;
  • Acolhimento Social e Emocional para Mulheres Vítimas de Violência, Empreendedoras ou Não;
  • Culinária Quilombola, Afirmação e Preservação da Identidade no Quilombo São Cristóvão;
  • Erguer a Voz (faz parte do Instituto Cine por Elas);
  • Fases e formas;
  • Inclusão e Pertencimento e Oportunidade: Caminhos que Encorajam Meninas e Mulheres no ES;
  • Mãos que criam;
  • MCDS - Mulheres Conectadas com Sucesso;
  • MEIQUE;
  • Movimento Libertas;
  • Mulheres curadas para curar;
  • Mulheres em Ação;
  • Mulheres Fortes;
  • Mulheres Negras em Movimento;
  • Mulheres Semeando Sucesso;
  • Parem de nos Matar;
  • Periferia Consciente;
  • Quadro de Esperança;
  • Mulheres Extraordinárias – Rede Capixaba de Acolhimento e Fortalecimento de Mães; Atípicas e Mulheres Cuidadoras;
  • Ubuntu- Rede de Empoderamento Feminino;

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