O que começou como um espaço de beleza no município de Anchieta se transformou em um local de acolhimento, que já salvou mais de 1.450 mulheres em situações de violência ou abuso.
Em 2015, a psicanalista e pastora Alessandra Belmond começou a notar que muitas clientes que frequentavam seu salão de beleza buscavam não apenas cuidados estéticos, mas também um espaço seguro onde podiam desabafar sobre os problemas emocionais e pedir socorro para situações de violência.
A partir de reuniões e bate-papos informais dentro do próprio salão, nasceu o Grupo de Acompanhamento à Mulher (GAM), organização não governamental (ONG) que já resgatou mulheres na região e em municípios vizinhos, como Piúma, Guarapari, Marataízes, Presidente Kennedy, Itaipava, Itaoca e Iconha.
A empatia de Alessandra com as vítimas não veio por acaso. Sua própria história é marcada por superação. Com uma infância conturbada, ela já morou nas ruas e viveu fases de extrema vulnerabilidade. Na vida adulta, esteve em relacionamentos marcados por abusos psicológicos e, diante da falta de apoio após a separação, enfrentou um período de envolvimento com drogas.
Hoje atuando como pastora, Alessandra transformou as dores em um propósito de vida. Porém, a conduta foge aos padrões conservadores. Mãe de uma mulher trans, ela decidiu, a partir de 2021, ampliar o acolhimento da ONG para mulheres trans e para adolescentes e crianças vítimas de abuso.
Hoje, como pastora, eu sou muito rejeitada. Rejeitada dentro de muitas igrejas e por irmãos da fé, por eu aceitar, cuidar e apoiar cada uma dessas mulheres
Alessandra Belmond, fundadora da ONG GAM
Sua postura de combate contra a violência doméstica também desafia alguns costumes tradicionais. "Comigo não funciona essa frase de que, se o marido bateu, é só orar para Deus libertá-lo. Se ele fez uma vez, pode fazer de novo, e oriento todas as mulheres a denunciarem", explica a pastora.
Segundo ela, a partir do primeiro grito ou tapa em um relacionamento abusivo, é preciso cortar o mal pela raiz, já que a situação tende a piorar e pode colocar a vítima em risco de morte.
Alessandra afirma que já chegou a resgatar vítimas de suas próprias casas, afastando-as de maridos abusivos que estavam armados.
A atuação do GAM, hoje, ultrapassa os limites de Anchieta e alcança os municípios de Piúma,Guarapari, Marataízes, Presidente Kennedy, Itaipava, Itaoca e Iconha reunindo mulheres de toda a região.
O trabalho começa no acolhimento psicossocial e, em casos de risco, a equipe avalia quais medidas são urgentes para a segurança das vítimas. Esse amparo inclui desde o resgate de casa até o abrigo emergencial e a ajuda para encaminhar as mulheres para outros estados, longe dos agressores.
Com crianças e adolescentes em situação de abuso – atendidas a partir dos 7 anos de idade –, a ONG também mantém parceria com o Ministério Público, já tendo colaborado na retirada de menores de famílias que praticavam maus-tratos.
A rede de apoio é tão forte que hoje a diretoria da ONG é formada integralmente por mulheres que, no passado, também foram acolhidas pelo projeto. Para Alessandra, a lógica é simples: quem se cura ganha forças para curar o outro.
Por segurança, os casos de violência não são identificados publicamente. Nas redes sociais da ONG, os relatos e fotos divulgados são apenas de mulheres que superaram quadros como ansiedade, depressão, tentativas de suicídio ou vícios e escolhem contar sua história.
O trabalho que a ONG GAM desenvolve há cerca de dez anos recebeu, em julho, um apoio governamental. O grupo foi contemplado com o repasse de R$ 40 mil, fruto de uma emenda parlamentar do deputado estadual Tyago Hoffmann (PSB). O recurso, gerido pela Secretaria Estadual das Mulheres (SESM), exigiu a aprovação de um rigoroso Plano de Trabalho.
"Essa verba é para ajudar no suporte de tudo aquilo que enfrentamos no nosso dia a dia. Com ela, conseguimos contratar mais profissionais e oferecer uma qualificação melhor para quem precisa", explica Alessandra.
O termo de fomento assinado com a SESM tem vigência até 30 de setembro de 2026, garantindo também a continuidade das ações e o amparo institucional à atuação da ONG na região.