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Mudanças

O que a dermatologia tem observado na era dos medicamentos para emagrecimento

Além da perda de peso, esses tratamentos reduziram o chamado food noise - o "ruído alimentar", caracterizado pelos pensamentos frequentes sobre comida e pela necessidade constante de comer

Publicado em 06 de Setembro de 2026 às 09:00

Públicado em 

06 set 2026 às 09:00
Karina Mazzini

Colunista

Karina Mazzini Karina Mazzini
Idosos usando canetas emagrecedoras
 Além da perda de peso, esses tratamentos reduziram o chamado food noise - o "ruído alimentar" Shutterstock
Nos últimos anos, medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro transformaram a forma como muitas pessoas se relacionam com a alimentação. Além da perda de peso, esses tratamentos reduziram o chamado food noise - o "ruído alimentar", caracterizado pelos pensamentos frequentes sobre comida e pela necessidade constante de comer.

Mas um aspecto curioso dessa mudança vem chamando a atenção de pesquisadores e da indústria da beleza.

O relatório The Future 100 2026, da consultoria internacional VML, aponta que, à medida que o apetite diminui para parte dos usuários desses medicamentos, cresce a busca por outras formas de prazer sensorial. O estudo chama esse fenômeno de "caloria sensorial", conceito que descreve experiências capazes de proporcionar satisfação emocional sem envolver a alimentação.

Não por acaso, marcas de beleza passaram a investir em produtos inspirados no universo gastronômico: perfumes com notas de sobremesas, hidratantes com aromas adocicados, lip balms que lembram doces e cosméticos com embalagens e texturas que despertam memórias afetivas ligadas à comida. Segundo dados reunidos pelo relatório, as vendas de perfumes para usuários de medicamentos da classe dos GLP-1 cresceram nos Estados Unidos, acompanhadas pelo aumento no lançamento de fragrâncias gourmand, inspiradas em biscoitos, baunilha, cerejas e outras sobremesas.

Embora essa seja uma tendência observada principalmente no mercado de beleza, ela também convida a uma reflexão interessante sobre o autocuidado.

No consultório, percebo um movimento que vai além das fragrâncias ou das experiências sensoriais. Muitos pacientes que passam por um processo importante de emagrecimento começam a olhar para a pele de uma forma diferente. Em alguns casos, porque surgem novas necessidades, como flacidez, perda de firmeza, alterações na textura da pele ou até queda de cabelo. Em outros, porque cuidar da pele passa a fazer parte de uma nova rotina de bem-estar.

É comum que esse processo comece com o skincare. A pessoa passa a reservar alguns minutos do dia para limpar a pele, aplicar um hidratante, usar um antioxidante ou o protetor solar. Aos poucos, esse cuidado deixa de ser apenas uma obrigação e se transforma em um momento de pausa, de atenção consigo mesma.

Quando existe indicação, muitas pessoas também começam a conhecer tecnologias que ajudam a estimular colágeno, melhorar a qualidade da pele, tratar manchas, cicatrizes ou recuperar parte da firmeza perdida após o emagrecimento. Lasers, radiofrequências, ultrassom microfocado, bioestimuladores e protocolos regenerativos fazem parte desse universo, sempre definidos de forma individualizada.

É importante dizer que isso não significa que procedimentos dermatológicos substituam outras fontes de prazer, nem que devam ser encarados como uma recompensa. A dermatologia baseada em evidências tem outro objetivo: promover saúde da pele, prevenir o envelhecimento de forma equilibrada e oferecer tratamentos indicados para cada necessidade.

Também vale lembrar que nem todo paciente que utiliza medicamentos para emagrecimento precisará realizar procedimentos. Cada organismo responde de maneira diferente, assim como cada pele envelhece e se adapta ao processo de perda de peso. Por isso, não existem protocolos prontos ou soluções universais.

Talvez a principal reflexão trazida por esse movimento seja outra.

Durante muito tempo, cuidar da aparência foi associado apenas à estética ou à vaidade. Hoje, cada vez mais pessoas entendem que autocuidado também faz parte da saúde. Dormir melhor, alimentar-se de forma equilibrada, praticar atividade física, cuidar da pele e procurar tratamentos quando realmente indicados fazem parte de uma mesma busca: sentir-se bem consigo mesmo.

Se o relatório sugere que algumas pessoas passaram a buscar novas experiências de prazer além da comida, a dermatologia mostra que o autocuidado pode, sim, ocupar esse espaço - não como substituição, mas como um hábito capaz de promover bem-estar, autoestima e qualidade de vida.

No fim das contas, talvez a maior mudança não esteja na beleza, nem na alimentação. Ela esteja na forma como passamos a cuidar de nós mesmos.

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Karina Mazzini

Karina Mazzini Karina Mazzini

Karina Mazzini e dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia com mais de 30 anos de experiencia. Neste espaco vai trazer para os capixabas as maiores novidades e tendencias da area da saude e beleza.

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