Os exames ginecológicos preventivos são voltadas para o diagnóstico precoce, rastreamento e prevenção de doenças no sistema reprodutor feminino. Muito além de identificar problemas já existentes, a rotina preventiva serve para detectar alterações assintomáticas — como lesões pré-cancerígenas ou infecções em estágio inicial — quando as chances de cura e os tratamentos são consideravelmente mais eficazes e menos invasivos.
A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde é que a mulher realize a consulta de check-up ginecológico pelo menos uma vez ao ano, ajustando a frequência e o conjunto de exames de acordo com a faixa etária, histórico familiar e queixas da paciente. Apesar dessa orientação, uma pesquisa divulgada na última semana de agosto, em São Paulo, revela que 6 em cada 10 brasileiras não realizam exames ginecológicos preventivos.
A pesquisa conduzida pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) em parceria com o Instituto Locomotiva em 2026 revelou que, apesar do aumento no acesso à informação, 61% das brasileiras não realizaram o exame Papanicolau no último ano, e 34% não se consideram parte do grupo de risco para o câncer de colo do útero. No mês do Setembro em Flor, mês de conscientização sobre os cânceres ginecológicos, os novos dados acendem um alerta sobre a saúde da mulher no Brasil.
A segunda onda da pesquisa "Percepção das Brasileiras sobre Tumores Ginecológicos e Práticas de Prevenção" ouviu 800 mulheres, de 18 a 45 anos, das classes A, B, C e D de todas as regiões do Brasil. O objetivo foi mapear a evolução do nível de conhecimento sobre o câncer de colo do útero e a adesão às práticas preventivas, com foco na vacinação e métodos de rastreio.
A pesquisa mostrou que as barreiras para a prevenção vão desde o desconhecimento sobre os exames até percepções equivocadas sobre imunização. Por exemplo, 26% das mulheres de 18 a 45 anos desconhecem a utilidade do Papanicolau. Quando o assunto é a vacinação, 4 em cada 10 mulheres (39%) não tomaram ou não se lembram de ter se imunizado contra o HPV. Entre as que não se vacinaram contra esse vírus, o principal motivo apontado é a falsa impressão de que a vacinação não é indicada para a sua idade, reforçando a necessidade de desmistificar o tema na fase adulta.
"A pesquisa é ideal para mapear o nível de conhecimento das mulheres sobre o câncer de colo do útero, a percepção sobre o próprio corpo, além da adesão aos exames preventivos e à vacinação. Um dado importante mostra que não existe um entendimento claro sobre a função do Papanicolau: uma em cada quatro mulheres desconhece a utilidade do exame", diz Carolina Tonussi, Gerente de Pesquisa do Instituto Locomotiva. O teste é realizado para detectar alterações nas células do colo do útero e o principal objetivo é identificar lesões pré-cancerosas no colo do útero antes que virem um câncer ou antes que apareçam sintomas.
O dado contrasta com o nível de conhecimento declarado pelas mulheres sobre a prevenção: 44% delas afirmam conhecer muito bem a vacinação contra o HPV, um salto em relação aos 38% registrados na pesquisa do ano anterior.
"A pesquisa mostrou que o acesso à informação melhorou, mas ainda há uma distância entre reconhecer a importância da prevenção e a realização efetiva da prevenção por meio da vacinação contra o HPV e da realização dos exames. Precisamos que as mulheres entendam a importância dessa relação de alguns tipos de câncer com o HPV e como o check-up anual, com exames como o Papanicolau e o teste do DNA do HPV, são mecanismos fundamentais na proteção contra o câncer de colo do útero", explica a oncoginecologista Andréa Gadelha, presidente do Grupo Eva.
O comportamento das brasileiras em relação à ida ao consultório e à imunização também foi analisado. Os dados mostram um número baixo de mulheres que realizaram exames ginecológicos de rotina, como o Papanicolau (39%) e o teste de DNA-HPV (22%), no último ano. Em 2025, este número era ainda mais preocupante, com 37% das entrevistadas declarando ter feito o Papanicolau, e apenas 13% o teste de DNA-HPV.
Márcia Datz Abadi, diretora médica da MSD Brasil, reforça a importância da prevenção: “um futuro sem o câncer de colo do útero é possível por meio da vacinação contra o HPV, da realização de exames de rotina e do tratamento das lesões pré-cancerosas. Eliminar o câncer de colo do útero é algo que está ao nosso alcance”.
O câncer de colo do útero, também chamado de câncer cervical, é um tumor maligno que se desenvolve na parte inferior do útero, aquela que se conecta com a vagina. Na maioria dos casos, ele é causado por uma infecção persistente por alguns tipos do Papilomavírus Humano (HPV). Esse tipo de câncer se desenvolve na região inferior do útero, conhecida como colo do útero, que conecta o corpo do útero à vagina.
Ele é o tipo de câncer que mais mata mulheres até os 35 anos no Brasil e o segundo mais letal entre aquelas com até 60 anos, sendo que cerca de 20 mulheres morrem todos os dias em decorrência da doença.
O INCA projeta mais de 19 mil novos casos no país anualmente, sendo o terceiro tipo de câncer mais incidente entre as mulheres de maneira geral. Esses números são a previsão do instituto para o triênio de 2026 a 2028.
O câncer de colo do útero é um problema de saúde pública que tira a vida de quase 8 mil mulheres por ano, mas faço questão de reforçar que este é um câncer prevenível
Andréa Gadelha Presidente do Grupo Eva
A médica explica que a doença está relacionada ao HPV, vírus sexualmente transmissível. "No entanto, existem formas eficazes de prevenção, que são a vacina contra o HPV e os métodos de rastreamento, como os testes de DNA-HPV e o Papanicolau, que devem ser feitos regularmente pelas mulheres", destaca Andréa Gadelha.
Sangramento vaginal anormal, dor durante o ato sexual, sangramento após o ato sexual, corrimento, dor, surgimento de ferida, ou qualquer novo sintoma que perdure por duas semanas ou mais deve investigado. A mulher com 25 anos ou mais e que já teve relação sexual, tem que realizar o exame preventivo ginecológico.
Andréa Gadelha pontua que o câncer de colo de útero, em sua fase inicial, não costuma apresentar sintomas. "Por isso, o exame de rastreio é fundamental. Mas a mulher precisa estar atenta: sangramento vaginal persistente, sangramento durante as relações sexuais, dor pélvica e desconforto urinário ou intestinal não são normais. Ao perceber esses sinais, é preciso procurar o ginecologista", alerta a médica.
Sangramento durante ou após a relação sexual;
Sangramento entre as menstruações;
Sangramento depois da menopausa;
Dor durante a relação sexual;
Corrimento vaginal com sangue ou com mau cheiro.
Nos casos mais avançados, podem aparecer outros sintomas, como dor na região da pelve ou na parte baixa das costas, cansaço intenso, problemas nos rins, inchaço e dor nas pernas.
Um dos maiores desafios é que a doença costuma evoluir sem sinais evidentes nas fases iniciais. “Esse é um tumor que pode permanecer assintomático por muito tempo. Quando surgem sintomas, como sangramento fora do período menstrual, sangramento após a relação sexual ou corrimento persistente, muitas vezes a doença já está em estágio mais avançado”, alerta aoncologista Michelle Samora. “Por isso, o rastreamento regular é essencial, mesmo na ausência de qualquer desconforto.”
Para a médica, o cenário brasileiro revela uma contradição preocupante. “Estamos falando de um câncer que tem vacina e métodos eficazes de detecção precoce. Ainda assim, ele continua afetando mulheres em idade produtiva. Isso mostra que o desafio hoje não é falta de tecnologia, mas garantir acesso consistente à prevenção e ao diagnóstico”, afirma.
Tradicionalmente, o rastreamento era feito por meio do exame citopatológico, conhecido como Papanicolau. No entanto, evidências científicas recentes apontam que o teste molecular para detecção do HPV é mais sensível para identificar mulheres em risco, permitindo intervalos maiores entre os exames quando o resultado é negativo. Países que migraram para o teste de HPV como método primário de rastreamento já observam redução mais acelerada na incidência da doença. No Brasil, a incorporação desse modelo ainda é gradual e desigual.
“O câncer do colo do útero não é uma doença única. Existem subtipos com comportamentos diferentes. O adenocarcinoma, por exemplo, tem aumentado proporcionalmente e pode ser mais difícil de identificar apenas com a citologia convencional. Isso reforça a necessidade de métodos de rastreamento mais sensíveis e estratégias atualizadas”, destaca Michelle.
A prevenção se apoia em dois pilares principais: vacinação e rastreamento. A vacina contra o HPV, disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde para meninas e meninos, protege contra os principais tipos virais associados ao câncer. Estudos de longo prazo já demonstram queda significativa nas lesões pré-cancerosas em países com alta cobertura vacinal. No Brasil, o esquema preconizado pelo Programa Nacional de Imunizações é de dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Para indivíduos fora dessa faixa etária ou pertencentes a grupos especiais, a vacinação segue esquemas diferenciados.
No campo do tratamento, os avanços também são relevantes e têm permitido abordagens cada vez mais individualizadas. Além da cirurgia, da radioterapia e quimioterapia, que continuam sendo pilares no tratamento do câncer do colo do útero, a paciente conta com terapias mais modernas como a imunoterapia, que estimula o próprio sistema imunológico da paciente a reconhecer e combater as células tumorais e medicamentos que funcionam como uma espécie de “entrega direcionada” de quimioterapia, buscando maior precisão e menor impacto em tecidos saudáveis.
“Temos ferramentas eficazes para reduzir drasticamente a incidência e a mortalidade por esse câncer nas próximas décadas. O que precisamos é ampliar a cobertura vacinal, fortalecer o rastreamento e garantir que o tratamento seja iniciado no tempo adequado. A eliminação do câncer de colo do útero como problema de saúde pública é possível, mas depende de compromisso contínuo”, conclui a médica.