Você tem a impressão de que o salário acaba antes do fim do mês? Em muitos casos, essa sensação tem explicação. Embora a renda média do trabalhador brasileiro tenha batido o recorde de R$ 3.722 no primeiro trimestre de 2026, segundo o IBGE, e registrado ganho real de 5,5% acima da inflação acumulada de 4,3% no início do ano, esse cenário está longe de ser igual para todos os trabalhadores.
Na prática, enquanto 91,7% das negociações salariais do setor de serviços e 91,6% da indústria garantiram reajustes acima da inflação em 2026, quem trabalha no comércio ficou para trás. Nesse setor, apenas duas a cada três negociações superaram a alta dos preços, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Ou seja, nem todo trabalhador consegue preservar o poder de compra do salário diante da inflação.
Foi o que percebeu o assistente de comunicação Gabriel Larrieu. Ao contrário de quem só sente o aperto quando já é tarde, ele começou a se planejar há alguns anos, quando percebeu que não sobrava dinheiro no fim do mês.
No meu primeiro trabalho, eu não ganhava o suficiente para guardar nada. A partir do momento em que consegui uma vaga melhor, começou a sobrar alguma coisinha. Eu já tentava guardar e, depois, investir, pensando na segurança financeira para o futuro
Gabriel Larrieu, assistente de comunicação
Essa é uma das estratégias do economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon-ES) Vaner Corrêa para blindar o orçamento. Ele explica que a economia brasileira mudou muito. A indústria já foi mais forte e, hoje, a prestação de serviços — em especial, na área de tecnologia — está muito em alta. E quando o reajuste da categoria não acompanha o mercado, o trabalhador precisa assumir as rédeas por conta própria.
Para o especialista, o segredo está em combinar a pesquisa de preços, evitando que os gastos básicos saiam do controle, com a busca por fontes de renda extra.
O economista alerta os leitores para um erro muito comum, que “passa batido” para quem quer se proteger da inflação: a falta de pesquisa de preços.
Fazendo as pesquisas, a gente nota boas variações que podem gerar grandes economias mesmo em compras pequenas. Aquela pessoa que sempre compra à primeira vista, acaba se iludindo porque vai ser afetada pela inflação
Vaner Corrêa, economista
Mudança de mentalidade
Gabriel acrescenta que, buscando mais informações sobre organização financeira, construiu uma mentalidade que o ajudou a economizar. Ele acredita na máxima de que “para fazer sobrar, a gente tem que estar sempre um degrau abaixo do que pode", evitando que qualquer pequeno ganho se torne um padrão de vida mais caro.
Além da economia, a blindagem envolve fazer entrar mais dinheiro. Vaner sugere buscar fontes de renda extra que possam ser conciliadas com o emprego formal, como vendas, atuação como motorista de aplicativo ou exploração do mercado digital.
Ele também recomenda, se possível, investir uma parte dos ganhos para gerar renda passiva. O especialista ressalta que o contrato de pessoa jurídica (PJ) costuma funcionar melhor para quem acumula receitas diferentes, mas aponta que essa diversificação é saudável para qualquer perfil de trabalhador.
Como funciona o reajuste e como negociar
A reportagem buscou o advogado trabalhista e professor José Carlos Rizk Filho para explicar como funciona o reajuste na legislação e como o trabalhador pode ser favorecido.
“Não há previsão em lei que obrigue as empresas a concederem aumentos salariais anuais. O que dita as regras, na maioria das vezes, são as convenções coletivas, ou seja, um acordo direto entre o sindicato daquela categoria e as empresas. E também pode haver uma pressão por meio do dissídio (coletivo ou individual), que é quando existe algum impasse e a decisão daquele reajuste passa a ser da Justiça”, comentou.
O advogado comenta que, quando o reajuste fica abaixo da inflação, o trabalhador tem pouca margem para agir de forma individual. O caminho mais eficaz costuma ser pressionar o sindicato da categoria para uma negociação melhor no ciclo seguinte.
Se a intenção for pedir um aumento diretamente à chefia, é recomendável ter uma conversa individual para discutir as possibilidades. Porém, a orientação do especialista é que o trabalhador evite acionar a Justiça enquanto ainda for funcionário daquela empresa.
“Geralmente, nas negociações individuais, as empresas costumam preferir reajustar benefícios, como o vale-alimentação, uma saída mais prática e barata para o empregador, do que alterar o salário-base. Isso porque o que faz com que um aumento de R$ 500 no salário, por exemplo, custe muito mais do que isso ao ano para o caixa do empregador enquanto nas verbas extras, não pesa tanto”, esclarece.
O assistente de comunicação Gabriel Larrieu, que já tem o hábito de se preparar para a alta nos preços, calculou que seus reajustes salariais conseguiram superar a inflação. Nos últimos seis anos, seus ganhos quase triplicaram e, com as medidas de organização financeira adotadas para fazer o dinheiro render, suas despesas básicas dobraram, ou seja, não "engoliram" todo seu salário.