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Saúde mental do adolescente na pandemia: saiba como ajudar

Uma relação familiar saudável e acolhimento podem ser a chave para ajudar os filhos a lidar com a situação atual

Tempo de leitura: 7min
Publicado em 02/12/2021 às 06h00
Adolescente deprimida na pandemia
Adolescente deprimida na pandemia. Crédito: Freepik

Os adolescentes escaparam, em geral, da mira do novo coronavírus. Mas nem por isso deixaram de ser impactados diretamente pela pandemia de Covid-19. Estão sendo praticamente os últimos, entre idosos, adultos e crianças, a retomar a rotina, a voltar para a escola e ao convívio social.

Felizmente, a vacina chegou para os maiores de 12 anos. Mas o isolamento prolongado causou estragos a esse grupo . E a saúde mental deles virou motivo de preocupação de suas famílias e de médicos. Um levantamento feito pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apontou um aumento nos casos de transtornos mentais entre adolescentes.

Já um outro grande levantamento, coordenado pela Universidade de Calgary, do Canadá, compilou informações de 29 estudos sobre os efeitos da Covid-19 na saúde psicológica de 80 mil crianças e adolescentes de diversas partes do mundo. Os pesquisadores constataram que o porcentual de jovens ansiosos passou de 11,6% antes da pandemia para 25,2% agora. Os depressivos eram 12,9% e são 20,5% atualmente.

Nos consultórios

Medos, fobias e pânico também fazem parte agora de um universo maior de meninos e meninas desta faixa etária. Algo que os pais já notam dentro de casa e que os especialistas veem nos consultórios.

"Minha observação é de adolescentes que se entristeceram, perderam ou ganharam peso, que se recolheram demasiadamente, evitando os contatos até com familiares. E também casos extremos que desenvolveram Transtorno Obsessivo Compulsivo e até anorexia nervosa", afirma a pediatra Sandra Martins, que atua no ambulatório de Medicina do Adolescente do Hospital Cassiano Antonio Moraes (Hucam), em Vitória.

Uma constatação também para a psicóloga Danielle Alvim Sampaio: "Muitos adolescentes têm se apresentado deprimidos e sem interesse em fazer as coisas. O isolamento trouxe uma ruptura com a rotina, com a escola, a interação social, e fez com que os adolescentes apresentassem mais medo, ansiedade, irritação e preocupação".

Medos, solidão e até fake news afetam sua saúde mental
A maneira como os pais lidam com a pandemia também influencia no comportamento dos adolescentes. Crédito: Freepik

Medo transmitido

Para Sandra, a maneira como muitas famílias lidaram com a pandemia influenciou nesse comportamento. "Atendi vários pais, especialmente de filhos únicos, que estavam absurdamente apavorados. E isso ficou evidente no retorno às aulas presenciais, quando eu e outros colegas recebemos solicitações de atestados para que seus filhos continuassem no sistema remoto. Esse medo excessivo é transmitido aos filhos", conta.

Como se não bastasse o isolamento necessário, que afastou amigos e parentes bem próximos, a pandemia obrigou a todos a lidarem mais de perto com a concretude da morte de gente querida, de gente famosa...

"Lidar com a possibilidade da morte não é fácil para ninguém. Mas muitas famílias usam a estratégia do medo. Algumas interpretaram ao máximo os riscos, e até refeições em conjunto foram substituídas por refeições solitárias. O medo leva ao afastamento, ao refúgio na solidão, numa vida de fantasia, já que as atividades reais estavam interditadas", comenta.

E a solidão, para uma mente tão jovem e imatura, pode ter efeitos muito negativos. "Conviver somente com os adultos da família pode ter sido pesado", diz a pediatra.

"Os adolescentes já são mais vulneráveis, estão em pleno desenvolvimento e não possuem ainda capacidade para refletir e analisar sobre alguns temas", completa a psicóloga.

Fase de mudanças

Sandra Martins concorda que a adolescência já é, por si só, uma fase complicada. "De fato, essa fase compreende mudanças físicas, psíquicas e sociais. E essas mudanças não ocorrem isoladamente. As mudanças físicas que são a puberdade, que são rapidamente perceptíveis, fazem com que o indivíduo se veja e veja o outro de maneira diferente. O registro mental que cada um tinha dos colegas após quase um ano sem vê-los sempre impacta. A distância é extremamente difícil", analisa.

De acordo com o médico psiquiatra da Infância e Adolescência, Rodrigo Eustáquio Telles Vieira, com o prolongamento do tempo de isolamento social, muitas foram as preocupações de como o distanciamento poderia afetar a vida das crianças e adolescentes e quais seriam suas consequências em médio à longo prazo.

"Subitamente, viram a sua rotina suspensa, deixando de ir para escola e, consequentemente, restringindo sua socialização com seus pares. Isso, de certa forma, contribuiu com o aumento de sintomas de humor, entre eles os ansiosos e depressivos", ressalta.

adolescente olhando para o celular
Houve também um aumento substancial do tempo despendido na frente das telas, alterações do padrão do sono e do padrão alimentar e, até mesmo, o surgimento do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Crédito: Shutterstock

Além disso, diz o psiquiatra, houve um aumento substancial do tempo despendido na frente das telas, alterações do padrão do sono e do padrão alimentar e, até mesmo, o surgimento de transtornos mentais relacionados ao medo direto de se contaminar, como o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).

Sintomas poderão persistir

Para Vieira, uma vez que o adolescente tenha sido acometido por algum transtorno mental em consequência da pandemia, os sintomas desse transtorno podem persistir mesmo com a flexibilização das restrições sociais e repercutir do período de volta às aulas até a idade adulta.

"Entre as repercussões a curto prazo, é possível observar um comprometimento no desempenho acadêmico, um prejuízo na socialização com os colegas de classe e na alteração do comportamento em sala de aula", ressalta.

Ao que parece, observam os especialistas, os adolescentes foram mais afetados psicologicamente do que as crianças. "Os adolescentes foram de fato mais acometidos porque a dinâmica psicossocial de seus relacionamentos é mais complexa do que nas crianças. Além de ser uma fase de transformação, descoberta e muitos sentimentos de insegurança, as características naturais dessa fase se tornaram um desafio ainda maior quando o jovem se viu afastado de seus nichos naturais, longe do convívio dos amigos. Tiveram mais clareza dos impactos sociais do que as crianças, ao mesmo tempo que tiveram o conhecimento, em parte, dos problemas financeiros, políticos e de saúde que também impactaram os adultos.

Em outras palavras, diz o psiquiatra, os jovens puderam perceber com mais clareza as mudanças de sua dinâmica familiar, como o falecimento ou perda do emprego de um dos pais, do que uma criança. "Isso, sem dúvida, tornou o período de pandemia um momento mais difícil para os adolescentes do que para as crianças e, como resultado, eles levarão mais tempo para se recuperar".

A pediatra Sandra Martins também destaca esse aspecto: "Aqueles adolescentes que já tinham suas dificuldades de enfrentamento do cotidiano, que eram mais frágeis, sensíveis, queixavam-se, por exemplo, de bullying com muita frequência, certamente sofrerão mais. Terão mais dificuldades de se readaptar e terão que ter uma atenção mais de perto".

Além do mais, a reação aos fatores estressores varia de pessoa para pessoa. E entre os adolescentes não é diferente.

"Por exemplo, quando há um trauma no círculo familiar, seja financeiro, seja por perda de um ente querido, alguns jovens podem superar os sintomas mentais de uma forma relativamente rápida, mas outros podem permanecer com sintomas graves que podem persistir por meses ou anos", argumenta o médico.

adolescente triste no sofá com o celular na mão
Os pais precisam estar atentos a sentimentos de tristeza, vazio, dificuldades de interação social, agressividade e ansiedade. Crédito: Shutterstock

Como ajudar?

Para os especialistas, é importante que a família tenha um olhar mais sensível em relação ao adolescente. Uma relação familiar saudável pode fazer diferença neste momento, levando em conta que os próximos meses serão um período de readaptação para os mais jovens.

A psicóloga Danielle Alvim diz que sentimentos de tristeza, vazio, dificuldades de interação social, agressividade, ansiedade, entre outros sinais que possam aparecer de forma muito intensa nos adolescentes merecem atenção. Ouvir o que o filho tem a dizer pode ser a chave para entender como ele está encarando a situação.

"A presença dos pais na vida do adolescente é fundamental. Muitas vezes, os pais se afastam por ser uma fase do filho muito desafiadora, em que se encontram mais rebeldes e distantes. Mas o acolhimento é muito importante. Os pais precisam orientá-los e demonstrar o quanto amam seus filhos, independente do que possa estar acontecendo", orienta ela.

Rodrigo Eustáquio Vieira destaca que se a alteração de humor persistir por mais tempo que o esperado ou se esses sintomas forem mais intensos do que o habitual, resultando em um comprometimento negativo nas relações interpessoais, no padrão do sono e alimentar, no ambiente escolar, com queda do rendimento acadêmico, por exemplo, vale a pena uma avaliação por um especialista na área de saúde mental.

Os primeiros sintomas de depressão, segundo o psiquiatra, podem ser uma irritabilidade, uma alteração do sono ou queda do rendimento escolar. "Muitas vezes, essa expressão se dá por alteração do comportamento e não por palavras. Portanto, os pais devem estar atentos às mudanças de comportamento de seus filhos tanto dentro de casa, como na escola. Muito do que os professores têm a dizer tem importância significativa sobre uma percepção precoce da saúde mental de um aluno. Uma queda do rendimento escolar, portanto, pode significar muito mais do que uma mera redução das notas".

A pediatra Sandra Martins reforça que a família deve manter o sentido da realidade, buscar informações e discutir com os filhos o que será uma nova rotina. "Isso com coragem, com a perspectiva da superação", destaca.

E, de novo, agir em conjunto com a escola. "Voltar à escola é fundamental. E os pais precisam conversar sobre a escola, ver se os professores observaram algo de diferente no adolescente", sugere a médica.

Como ajudar seu filho

  1. 01

    Observe.

    Repare em como seu filho se comporta em casa, se está mais calado, mais recolhido, desanimado. Se mudou a forma de ser, pode ser sinal de que algo está errado.

  2. 02

    Fique atento.

    Dê atenção a sintomas como irritação, tristeza, apatia, choro, agressividade. Se isso estiver muito comum e muito intenso, é hora de intervir.

  3. 03

    Entenda.

    Tenha em mente que os efeitos da pandemia podem ser mais duradouros em algumas pessoas. E os adolescentes já vivem uma etapa do desenvolvimento de muitos conflitos internos. Dê um tempo para ele, mas observe com carinho.

  4. 04

    Converse.

    Abra o diálogo em casa. Com paciência, sem cobrança. Pergunte como ele está se sentindo, por que tem certos comportamentos que não tinha antes. O que pode ser feito para que ele melhor.

  5. 05

    Busque informações.

    Se ele retornou para a escola, converse com os professores para saber como seu filho está agindo em sala de aula. Eles podem ter informações preciosas sobre a percepção deles.

  6. 06

    Acolha.

    Não ignore os sentimentos do seu filho e as dificuldades dele em lidar com essas mudanças. Cada pessoa reage de uma forma muito particular às situações estressoras. Respeite e acolha. Ou ele poderá se fechar ainda mais.

  7. 07

    Explique.

    Informe-se sobre os cuidados com a saúde e leve para a família. Sem pânico, com calma e com perspectiva positiva. Mostre como todos farão para continuar se protegendo e para superar esse momento da melhor forma. O medo da contaminação continua, já que a pandemia não acabou ainda. Mas com o avanço da vacinação, é possível retomar certas rotinas, como a escola, um almoço com um grupo menor de parentes e amigos, uma viagem... Com cautela e bom senso

  8. 08

    Busque ajuda.

    Se os sinais de que algo não vai bem persistirem, pode ser o caso de buscar uma ajuda especializada, de um psicólogo, por exemplo.

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