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Milton Nascimento: saiba o que é a demência por corpos de Lewy

Milton Nascimento: saiba o que é a demência por corpos de Lewy

Esta é a segunda forma de demência neurodegenerativa mais comum, depois do Alzheimer

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Guilherme Sillva

Editor do Se Cuida / [email protected]

Publicado em 2 de outubro de 2025 às 15:39

O cantor Milton Nascimento em 2023
O cantor Milton Nascimento foi diagnosticado com demência por corpos de Lewy Crédito: Fabio Rocha/Divulgação/Globo

O cantor Milton Nascimento, 82 anos, foi diagnosticado com demência por corpos de Lewy (DCL). A informação foi divulgada nesta quinta-feira (2), em matéria na revista Piauí.

Segundo o filho Augusto Nascimento, os primeiros sinais apareceram neste ano, quando percebeu lapsos de memória, olhar fixo e repetição de histórias pelo pai, além de alterações de apetite. O quadro levantou preocupação, levando a consultas médicas e a uma bateria de exames realizados em abril.

Augusto publicou nas redes sociais um relato sobre o estado de saúde do cantor. Ele relatou que no final do ano passado, começou a notar alguns comportamentos diferentes do pai, mas nada que fosse alarmante. "De lá para cá, fomos levando a vida normalmente, ainda que com uma preocupação sempre existente, mas ele recebendo inúmeras homenagens, sendo ovacionado, vibrando, cantando, sendo tema de desfile de carnaval". 

Ele contou que os primeiros sinais apareceram no fim de 2023 e se intensificaram ao longo deste ano, somados ao avanço do Parkinson, identificado em 2022. Na mensagem, o filho relatou que os diálogos com o artista se tornaram mais silenciosos e confusos, mas pequenos gestos, como segurar sua mão ou aceitar refeições apenas em sua presença, revelam o afeto entre os dois. “Eu te amo e sempre amarei, paizinho”, escreveu Augusto Nascimento.

Entenda a demência

O médico geriatra Ivan Abdalla explica que a DCL é o segundo tipo mais comum de demência degenerativa, perdendo apenas para a doença de Alzheimer. "Ela é causada pelo acúmulo nos neurônios de uma proteína chama alfa-sinucleína, formando os 'corpos de Lewy" que dão o nome da doença, de forma parecida com a doença de Parkinson". 

Ivan Abdalla
O geriatra Ivan Abdalla explica os sintomas da demência Crédito: Reprodução @Ivanabdalla

Os sintomas iniciais precedem cerca de 10 a 20 anos da fase da demência e incluem a depressão, a ansiedade, a perda de olfato, alteração comportamental do sono REM (movimentos enquanto sonhamos como se estivéssemos acordados), variações da pressão arterial e prisão de ventre

Ivan Abdalla

Geriatra

O médico explica que os sintomas cognitivos da demência por corpos de Lewy incluem não só o esquecimento, mas principalmente desatenção e flutuação cognitiva, com momentos de perda de interação ou confusão mental. "Sintomas neuropsiquiátricos são muito comuns também, principalmente as alucinações visuais, quando os pacientes veem vultos, pessoas, crianças ou animais", conta Ivan.

O geriatra diz que os sintomas motores costumam aparecer junto com os cognitivos, mas podem preceder em até dois anos o diagnóstico da demência. "É muito comum o paciente receber o diagnóstico inicial de doença de Parkinson, como o caso do Milton Nascimento, mas a perda cognitiva na doença de Parkinson demora mais do que dois anos para se desenvolver, sendo uma das formas de se diferenciar as duas doenças".

Tratamento

O neurologista Arthur Xavier, do Hospital Santa Rita, diz que o quadro de DCL passa a incluir confusão mental mais frequente, delírios, dificuldade de planejamento e memória mais comprometida. "Os familiares costumam relatar que há períodos de grande clareza, seguidos por lapsos de desorientação, que podem ocorrer várias vezes ao longo do dia”.

Do ponto de vista motor, a demência por corpos de Lewy mantém uma estreita relação com a doença de Parkinson. Rigidez muscular, lentidão dos movimentos e, em alguns casos, tremores podem se instalar, dificultando tarefas simples como caminhar, segurar objetos ou se levantar de uma cadeira. “Essa sobreposição de sintomas cognitivos e motores é uma das marcas da condição”, diz Arthur Xavier.

Outro aspecto que merece atenção é a hipersensibilidade a certos medicamentos antipsicóticos, que podem causar reações graves nesses pacientes. “Por isso, o manejo da doença exige cautela e acompanhamento de especialistas. Além dos sintomas cognitivos e motores, a DCL pode ainda trazer alterações no sistema nervoso autônomo, como quedas de pressão ao se levantar, constipação intestinal e problemas urinários, o que aumenta a complexidade do cuidado”, diz o neurologista.

A ressonância magnética, que é o exame mais comum realizado em quadros de demência, não consegue fazer esse diagnóstico. Exames de medicina nuclear para avaliar a atividade de dopamina no cérebro (SPECT com TRODAT) ou a inervação do coração (cintilografia miocárdica com MIBG) são indicativos da doença. A presença de alteração comportamental do sono REM em polissonografia também pode ser usada para auxiliar o diagnóstico.

Não existe cura para a demência por corpos de Lewy. O tratamento é voltado para o controle dos sintomas e para a preservação da autonomia do paciente pelo maior tempo possível. “Medicamentos utilizados no Alzheimer, como os inibidores da colinesterase, podem melhorar a cognição e reduzir alucinações. Para os sintomas motores, fármacos usados no Parkinson podem ser prescritos, embora nem sempre sejam bem tolerados”, ressalta o neurologista Fabio Fieni. 

Além da medicação, o médico diz que é recomendado terapias de apoio. “A fisioterapia para manter a mobilidade, fonoaudiologia para preservar a fala e a deglutição, psicoterapia para lidar com ansiedade e depressão, além de orientação aos familiares e cuidadores", diz o professor do Unesc. 

A ciência, segundo Arthur Xavier, ainda busca compreender melhor a origem da demência por corpos de Lewy e desenvolver estratégias mais eficazes de tratamento. “Por enquanto, o que se dispõe é de um manejo clínico cuidadoso: uso de medicamentos que atuam na memória e nos sintomas comportamentais, apoio para distúrbios do sono e tratamento individualizado para os sintomas motores, sempre com cautela. O acompanhamento multidisciplinar, envolvendo neurologistas, geriatras, psiquiatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e apoio às famílias, é essencial para preservar a qualidade de vida”, destaca.

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