A atriz Bárbara Reis compartilhou na rede social que conviveu com os sinais do lipedema por anos sem entender. Entre eles, desproporção entre tronco e pernas, sensação constante de peso, hematomas frequentes e alterações na textura da pele. “Por muito tempo eu achei que o problema era eu”, disse.
Estima-se que o lipedema possa atingir até 1 em cada 12 mulheres, o que representa milhões de brasileiras convivendo com a condição muitas vezes sem saber. Apesar da prevalência significativa, a doença ainda é frequentemente confundida com obesidade ou retenção de líquido, o que faz com que muitas mulheres passem anos tentando reduzir o volume das pernas com dietas e exercícios intensos, sem resultados proporcionais.
O lipedema é caracterizado pelo acúmulo anormal de gordura, principalmente na parte inferior do corpo, como coxas, pernas e região dos culotes. "Diferentemente da obesidade comum, há uma desproporção marcante entre a parte superior e inferior do corpo. Muitas pacientes relatam a sensação de terem 'dois corpos': do umbigo para cima, o corpo parece mais fino, enquanto as pernas apresentam volume significativamente maior", explica a cirurgiã plástica Patrícia Lyra.
Alguns sinais clínicos ajudam a levantar suspeita da doença, como aumento simétrico do volume das pernas, dor ou sensibilidade ao toque, sensação de peso, facilidade para o aparecimento de hematomas e inchaço ao longo do dia.
Na maioria dos casos, os pés permanecem preservados, com o aumento de volume terminando na região dos tornozelos, característica que ajuda a diferenciar o lipedema de outras condições
A doença também pode ser confundida com linfedema ou retenção de líquido, o que contribui para atrasos no diagnóstico. Considerado uma condição multifatorial, o lipedema está associado a fatores genéticos, hormonais e alterações no tecido adiposo. É comum que surja ou se intensifique em fases de mudanças hormonais, como puberdade, gravidez e menopausa.
Acompanhamento
O cirurgião plástico Carlos Tagliari diz que o lipedema costuma ser confundido com outras questões, inclusive com obesidade. "Só que existe dor, sensibilidade e um padrão de distribuição de gordura bem característico. É comum receber pacientes que já tentaram de tudo antes de chegar ao diagnóstico correto”.
Segundo ele, o problema não é raro, o que ainda falha é o reconhecimento. Muitas mulheres crescem ouvindo que aquele formato de corpo é “da família” ou resultado de hábitos, e seguem sem investigar. “No consultório, é muito frequente ouvir histórias parecidas: pernas sempre pesadas, facilidade para ter hematomas, desconforto ao longo do dia. Só depois de anos alguém sugere olhar para isso de outra forma”, diz.
Há dor, cansaço e uma sensação constante de inchaço que interfere na rotina. “Quando a paciente entende o que está acontecendo, muda a forma de lidar com o próprio corpo. Não é falta de esforço, é uma condição que precisa de acompanhamento”, afirma.
Embora ainda não exista cura definitiva, diferentes estratégias podem ajudar a controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida das pacientes, incluindo fisioterapia, drenagem linfática, exercícios adaptados e uso de meias de compressão. "Em casos selecionados, também pode ser indicada cirurgia redutora com técnicas específicas de lipoaspiração como a técnica One Step que além de extrair a gordura, preserva áreas ao redor do campo cirúrgico, auxiliando na redução da inflamação e na recuperação", comenta Patrícia.
De acordo com a cirurgiã plástica Heloise Manfrim, o tratamento da doença envolve, além do cirurgião plástico, profissionais como endocrinologistas, nutricionistas e cirurgiões vasculares. “Apesar de estar relacionada a fatores hereditários e hormonais, a doença ainda não tem causa definida e, logo, não tem cura. Mas é possível aliviar os sintomas e controlar a evolução da doença para impedir o surgimento de complicações. Sabemos que o tratamento cirúrgico pode ajudar, mas deve sempre ser acompanhado do tratamento clínico conservador, que tem como base quatro pilares: dieta anti-inflamatória, atividade física específica para lipedema, terapia física complexa e protocolos medicamentosos específicos para a doença”, explica.