Publicado em 16 de agosto de 2021 às 08:53
Poucas coisas na vida de uma mulher são tão certeiras e naturais quanto a menstruação. Enquanto algumas sofrem com cólicas quase incapacitantes e sintomas de TPM (tensão pré-menstrual), outras só sabem que estão "naqueles dias" quando veem o próprio sangue. A realidade é que, embora todas as mulheres menstruem, cada uma vive a experiência à sua maneira. >
Além dos sintomas particulares de cada organismo, a forma de lidar com a menstruação também varia de pessoa para pessoa. Hoje em dia é crescente o número de mulheres que abandonaram os tradicionais absorventes descartáveis e passaram a usar coletor menstrual (também chamado de copinho), calcinha absorvente e absorvente reutilizável, seja por consciência ecológica ou por uma questão de conforto. >
Atualmente com 25 anos, a empreendedora Mariana Lopes conta que, seis anos atrás, a conscientização ambiental trazida pela adoção do veganismo como estilo de vida a fez reavaliar alguns hábitos. E foi naquele momento que o coletor menstrual entrou na vida dela. Já a farmacêutica Mariana Sardinha Basso, 31 anos, foi apresentada a essas novas alternativas por colegas que conheceu em um curso sobre plantas medicinais e autocuidado. >
Mais do que xarás, as jovens têm em comum as motivações que as levaram a abolir os absorventes convencionais de suas rotinas, que passa por uma mudança de mentalidade em relação à menstrução. Ambas afirmam que nunca mais usaram absorventes descartáveis desde que os abandonaram. >
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"No início foi uma adaptação que veio junto com o Sagrado Feminino, e eu comecei a ressignificar aquele sangue, no sentido de não ter nojo", relembra Lopes, citando a filosofia que tem por base harmoinzar corpo, mente e emocional da mulher com os ciclos da natureza. "Esse sangue sou eu, e é um sangue de vida, está cheio de nutrientes. Passei a entender que ali há potência e comecei também uma trajetória de autoconhecimento, porque para usar o coletor é preciso entender o próprio corpo", diz Mariana Lopes. >
Percepção parecida teve Mariana Basso. "Quando comecei a utilizar o copinho, tive uma consciência maior do meu fluxo [menstrual], além da questão ecológica", diz a farmacêutica, que hoje usa o coletor quando seu fluxo está intenso, em dias mais tranquilos opta pelo absorvente reutilizável e, para dormir, prefere as calcinhas. >
"Você faz uma reflexão sobre quanto pode economizar [de dinheiro] e, em relação ao meio ambiente, passa a avaliar quantos absorventes são usados por ciclo. O primeiro absorvente que eu usei deve estar até hoje no lixão e vai permanecer lá por muitos anos e gerações", diz Basso. >
E ela não está errada. De acordo com a organização sem fins lucrativos Akatu, que busca conscientizar e mobilizar a sociedade para um consumo mais consciente, estima-se que uma mulher produza cerca de 200 kg de lixo somente com o uso de absorventes descartáveis ao longo da vida - desde a puberdade até a menopausa. >
Uma calcinha absorvente pode ser usada diversas vezes. De acordo com os fabricantes, a capacidade de absorção dessas peças dura cerca de 50 lavagens, o equivalente a dois ou três anos, dependendo da frequência de uso e do cuidado. >
Há preços para todos os bolsos, a partir de R$ 50, aproximadamente - algumas marcas ainda indicam que, após a vida útil como calcinha de menstruação, a peça se transforma em uma calcinha normal, para o dia a dia. >
Tão importante quanto a adoção de hábitos sustentáveis é o cuidado com a própria saúde. >
Embora a bula do coletor menstrual indique que a mulher pode usar o item por até 12 horas, a ginecologista e obstetra Mariana Rosário, que atende no hospital Albert Einstein, diz que orienta suas pacientes a esvaziar o copinho a cada duas ou três horas. >
Segundo ela, assim como ocorre com o absorvente interno, o coletor funciona como um tampão, e deixar o sangue em contato direto com o colo do útero por muitas horas pode levar a um quadro de bacteremia - o endométrio é uma região cheia de vasos sanguíneos e há a possibilidade de bactérias entrarem na corrente sanguínea por ali, causando uma infecção, que, em casos extremos, pode levar a mulher à morte. >
De acordo com a ginecologista Farah Nali Rosa Naufal, que atende nos hospitais Assunção Rede Dor e Brasil Rede Dor e também na clínica Naufal, o uso do coletor é contraindicado a pacientes que nunca tiveram relação sexual vaginal. Além disso, mulheres que estiverem com alguma infecção no trato genital inferior não devem usar copinho até a conclusão do tratamento. >
"Pacientes que tenham vaginismo ou vulvodínea - patologias que causam dor intensa na região genital - provavelmente não conseguirão usar o coletor", diz. >
As médicas contam que a busca por informações a respeito dos coletores menstruais tem aumentado em seus consultórios. Na avaliação delas, é correto dizer que trata-se de uma tendência, não apenas pela questão da sustentabilidade, mas também pelo lado financeiro. >
"O valor que uma mulher gasta com absorventes descartáveis em um ano já paga um coletor menstrual, que normalmente dura por três anos", explica Naufal. Mariana Rosário concorda que o investimento compensa, mas pondera que muita gente ainda não pode desembolsar o valor do copinho. >
"Os coletores das melhores marcas custam entre R$ 70 e R$ 100. Há kits que vêm com dois coletores e o copo para esterilizar os itens, com valores que variam de R$ 150 a R$ 200", diz ela, lembrando que a higienização do copinho também é parte fundamental de todo o processo - é preciso esterilizar o coletor antes do primeiro uso e ao final de cada ciclo, seguindo as instruções do fabricante >
E assim como citou Mariana Lopes, a ginecologista Mariana Rosário ressalta que o coletor menstrual é um item que exige que a mulher conheça o próprio corpo, afinal, para ser funcional, ele precisa ser introduzido corretamente na vagina. "Teoricamente qualquer pessoa pode usar, desde que tenha um bom manuseio da região genital", diz.>
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