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A invisibilidade feminina na arquitetura

Apesar de as mulheres estarem em maior número na atividade no Brasil, são os profissionais do sexo masculino os mais lembrados e prestigiados

Publicado em 26/07/2019 às 15h02

“Mulheres são como fantasmas na arquitetura moderna: presentes em todos os lugares, cruciais, mas estranhamente invisíveis.” Esta frase, de Beatriz Colomina, historiadora da arquitetura, nos faz refletir sobre o espaço da mulher na história da arquitetura.

O Heydar Aliyev Center é um complexo de edifícios em Baku, no Azerbaijão, projetado pela arquiteta iraquiana e britânica Zaha Hadid. Crédito: Archdaily
O Heydar Aliyev Center é um complexo de edifícios em Baku, no Azerbaijão, projetado pela arquiteta iraquiana e britânica Zaha Hadid. Crédito: Archdaily

 

Por mais que haja um lento movimento de redução dessa desigualdade, ela é presente em muitas áreas e não seria diferente na arquitetura. Apesar de as mulheres estarem em maior número na profissão no Brasil, são os profissionais do sexo masculino os mais lembrados e prestigiados.

Qualquer que seja o conteúdo da pesquisa sobre o tema, os nomes de arquitetos se sobressaem. Uma pesquisa no Google com o tema “arquitetos renomados no mundo” nos apresenta 51 resultados, desses, apenas 5 são mulheres. Ao pesquisar “arquitetos renomados no Brasil”, o resultado são 48 profissionais. Desses, apenas 7 são mulheres.

Outro dado que evidencia essa desigualdade é o gênero dos profissionais premiados pelo Pritzker, o mais importante prêmio da Arquitetura Mundial. Criado em 1979 pela Fundação Hyatt, o prêmio é o reconhecimento mais importante que um arquiteto pode receber em vida. A honraria é outorgada todos os anos a arquitetos e arquitetas cuja obra "tenha produzido significativas contribuições para a humanidade ao longo dos anos", segundo explica a própria organização responsável pela premiação.

Zaha Hadid. Crédito: Divulgação
Zaha Hadid. Crédito: Divulgação

A ausência de nomes femininos no Pritzker não é novidade. Em 40 edições, apenas uma mulher venceu sozinha o prêmio, Zaha Hadid em 2004, e outras duas ganharam ao lado de seus colegas homens, Kazuyo Sejima, em 2010 eCarme Pigem, em 2017.

Poucas mulheres conseguiram se destacar nessa área. Zaha Hadid é um dos poucos nomes mencionados globalmente. A própria Zaha afirmou que sofreu muito preconceito por ser mulher e imigrante.

Muitas outras profissionais tiveram uma atuação destacada e importante, mas sua obra e seus trabalhos não são devidamente reconhecidos. Assim como seus nomes e carreiras, as obras dessas e de muitas outras arquitetas permanecem esquecidas, sem visibilidade, ou escondidas por trás dos projetos de algum grande arquiteto. E algumas histórias revelam, de forma evidente, essa exclusão e desigualdade.

Muitas viveram às sombras de um profissional do sexo masculino. São vários os exemplos que revelam a desvalorização das arquitetas.

Lily Reich trabalhou com Mies van der Rohe durante 13 anos. Foi coautora de muitos dos famosos projetos atribuídos apenas ao arquiteto, como o Pavilhão de Barcelona e a Casa Tugendaht. Enquanto Mies Van der Rohe foi considerado um dos grandes mestres do Modernismo, Lilly Reich, uma de suas principais parceiras, morreu na pobreza e no anonimato.

Denise Scott Brown. Crédito: Divulgação
Denise Scott Brown. Crédito: Divulgação

Um dos fatos mais simbólicos dessa realidade foi a premiação do Pritzker ao arquiteto Robert Venturi. A arquiteta Denise Scott Brown, casada desde 1967 com Venturi, trabalhou com o marido e colega desde 1969, tendo se tornado sócia do escritório em 1980. Denise realizou, ao longo de sua carreira, um trabalho conjunto com o marido, no entanto, em 1991, só ele recebeu o Prêmio Pritzker – apesar da obra de ambos ter sido fundamentalmente colaborativa. Quando Venturi recebeu o Pritzker, Denise Scott Brown trabalhava com ele, na "Venturi Scott Brown and Associates" há 22 anos.

Em seu discurso de aceitação, Venturi reconheceu o papel que sua esposa desempenhou em seu sucesso. "A contribuição de Denise, criativa e crítica, é crucial", disse ele. Denise Scott Brown, como protesto, não compareceu à cerimônia.

Em 2013, diferentes organizações e personalidades se uniram para solicitar uma reconsideração por parte da organização e a inclusão de Denise no Prêmio Pritzker outorgado a Venturi, mas o pedido foi negado pelo então presidente do júri, Peter Palumbo, alegando que "o júri atual não tem o direito de reabrir ou criticar o trabalho de júris anteriores". A Fundação Hyatt, responsável pela premiação, afirmou que na época, o prêmio só era válido para arquitetos individuais, uma prática que mudou em 2001.

A MULHER NA ARQUITETURA HOJE

É possível constatar, ainda hoje, com base em diferentes dados, que a desigualdade de gênero na profissão, ainda é uma realidade.

A revista de design Dezeen fez em 2017 uma pesquisa sobre a diversidade de gêneros nas maiores empresas de arquitetura do mundo. A pesquisa, que analisou as 100 maiores empresas de arquitetura de todo o mundo, revelou que apenas uma em cada 10 posições seniores é ocupada por mulheres e que 16% das empresas não têm mulheres em suas equipes de administração.

Revelam, ainda, que apenas três das cem maiores empresas de arquitetura do mundo são chefiadas por mulheres. Apenas duas dessas empresas têm equipes de gestão com mais de 50% do sexo feminino, e os homens ocupam 90% dos cargos mais altos nessas empresas.

Pesquisa realizada pela ACE – Conselho de Arquitetos da Europa, aponta dados relativos ao ano de 2018. A profissão é majoritariamente masculina: apenas 39% são mulheres. Os países que têm os maiores percentuais de arquitetos masculinos são a Áustria, a República Tcheca e os Países Baixos. Países com percentual maior de arquitetas são Suécia (58%), Grécia (55%), Noruega (53%), Croácia (54%) e Finlândia (52%).

A falta de mulheres em posições de topo dentro da indústria de arquitetura não corresponde ao interesse feminino pela carreira. Ao contrário, no Brasil os dados indicam um crescimento da presença feminina na profissão.

Segundo dados do CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo, o Brasil possui atualmente 167.060 arquitetos e urbanistas ativos e registrados no CAU. A maioria, 63,10% (105.420) é mulher, enquanto 36,90% (61.640) são homens. Esses dados foram divulgados em março de 2019. Essa predominância tende a aumentar nos próximos anos, uma vez que a parcela de mulheres entre estudantes é bem maior: 67%. Na faixa etária até 25 anos, as profissionais representam 79% do total de arquitetos e urbanistas. Ou seja, mais de três em cada quatro. Entre 26 e 30 anos, o percentual é de 72%.

Mesmo sendo maioria, as mulheres têm baixa representatividade nas entidades profissionais, segundo diagnóstico setorial produzido pelo CAU/BR. Dos 27 presidentes dos conselhos estaduais, apenas 7 são mulheres. O CAU/ES está entre eles.

Liane Destefani. Crédito: Divulgação
Liane Destefani. Crédito: Divulgação

A atual presidente do CAU/ES, Liane Destefani, relata que ainda é difícil ter voz nesse setor que sempre foi predominantemente masculino. “Nas reuniões nacionais do Conselho, nós mulheres tão temos o mesmo espaço e a mesma voz”, afirma. Mas complementa dizendo que “essa é uma questão histórica e cultural e que cabe às mulheres ocupar esses espaços, para conseguir mudar essa realidade”.

Além dela, as três coordenadoras de comissões e as duas gerentes são mulheres. Na administração do CAU/ES, a presença feminina já é uma realidade. Revelar esses talentos femininos e suas histórias – tanto as pioneiras como as profissionais atuais - pode ser uma grande contribuição nesse processo de valorização da mulher na arquitetura. Conhecer arquitetas que tiveram uma atuação destacada pode servir de inspiração para as atuais e futuras profissionais buscarem mais espaços no mercado e conquistar uma posição de igualdade na área.

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