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Opinião da Gazeta

Presença do Estado no Bairro da Penha deve ir além das forças de segurança

PM ocupa a região por tempo indeterminado para combater tráfico. É uma missão nobre, mas que não será cumprida se não forem atacadas também as causas socioeconômicas da violência urbana. Se o Estado dorme, os moradores perdem o sono

Publicado em 07 de Fevereiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

07 fev 2020 às 04:00

Colunista

Operação da Polícia Militar no Complexo da Penha  Crédito: Fernando Madeira

Desde quarta-feira (5), policiais militares ocupam o Bairro da Penha e seu entorno com o objetivo de enfrentar a crescente violência na região. Apenas na última quinzena de janeiro, foram registrados nove confrontos armados no local. Um aumento significativo, que torna evidente um problema crônico, consequência do poderio das facções do narcotráfico. É um choque de ordem necessário para pavimentar o caminho para políticas públicas mais perenes e eficazes no combate às drogas.

A operação traz o sugestivo nome de Anóxia. A ideia é sufocar a ação de traficantes por meio da presença massiva da polícia. Se cumprir seu intento de minar a criminalidade, em vez de instigar mais trocas de tiros, certamente será um alívio para os moradores de dezenas de bairros, que hoje convivem a insegurança, o perigo constante e a revolta de ver sua vizinhança transformada em ambiente hostil.

Há anos as facções do Complexo da Penha espraiam seus tentáculos de violência e medo por diversas comunidades de Vitória. Em 2018, o Ministério Público do Espírito Santo apontou que o Bonde do Trem Bala e o Primeiro Comando de Vitória (PCV), que comandam o tráfico na Penha, eram os principais fornecedores de armas e apoio logístico a criminosos de Itararé, Santa Martha e Andorinhas. Entre as áreas almejadas pela aliança estavam Piedade e Alagoano, frequentemente abaladas por tiroteios, mortes e expulsões de moradores.

Muitas vidas inocentes foram ceifadas ao longo dos anos. Na mesma semana em que o MPE divulgou a arquitetura do tráfico na Capital, o estudante Victor Gabriel Abilio Florentino, 14 anos, foi assassinado quando saía de um jogo de futebol, em Andorinhas. Já em Itararé, outro adolescente de 16 anos foi baleado em um tiroteio. A lista é extensa.

A partir de agora, a região ficará ocupada por tempo indeterminado, até que a área seja pacificada, segundo a Polícia Militar. É uma missão nobre, mas que, independentemente dos esforços e da dedicação, não será cumprida se estiver calcada apenas nas forças de segurança. O aparelho estatal tem, sim, que se manifestar por meio da lei e da ordem, porém não somente por meio delas.

“Quando o Estado envia a polícia, ele está enxugando gelo, porque ele não vai conseguir mudar a realidade de um bairro em que falta educação de qualidade e oportunidades para um monte de pessoas desempregadas. Os projetos sociais que existem no Bairro da Penha são mantidos pelo centro comunitário. Qual o projeto mantido pelo Estado? Nenhum”, resume o líder comunitário Orlandino Rodrigues, em entrevista à TV Gazeta.

O choque de ordem é importante, mas apenas combate o último elo de uma cadeia de degradações, que vão da carência de infraestrutura à ausência de serviços públicos. A operação corre o risco de cair na inocuidade se, em paralelo, não forem dinamitadas as causas socioeconômicas que sustentam a violência urbana. Se o Estado dorme, os moradores perdem o sono.

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