Os policiais militares, em movimento orquestrado que tem o seu epicentro no Ceará, e que ameaça se alastrar por todo o país, estão colocando uma saia justíssima nos governos dos Estados usando a população como refém para conseguir reajustes salariais.
No Ceará, Estado que, como tantos outros, está à beira do colapso fiscal, os militares amotinados fecharam quartéis, vandalizaram viaturas e deixaram o cidadão ao Deus dará. Resultado: em seis dias ocorreram 170 homicídios. O governador, sem saída e sem dinheiro, pediu e recebeu ajuda do governo federal que para lá enviou a guarda nacional e tropas do Exército.
Em Minas Gerais, o governador tentou evitar o problema, enviando à Assembleia um projeto concedendo um aumento salarial de 41,7% aos militares. Ao fazer isso, criou um problema maior: a Assembleia ampliou o reajuste a 13 outras categorias de servidores, aumentando o impacto nos cofres públicos de R$ 5,6 bilhões para R$ 20 bilhões. Isto em um Estado cujo orçamento já prevê, neste ano, um déficit de R$ 13,3 bilhões.
No Ceará, o governador é filiado ao PT; em Minas, o governador integra o Partido Novo. Este fato demonstra que, independentemente do partido que esteja no poder, os militares estão fechando o cerco sobre os governos estaduais buscando obter vantagens a despeito da situação de penúria fiscal vivida pelos poderes públicos.
Os exemplos do Ceará e Minas fazem acender o sinal de alerta para o Espírito Santo. O governo atual, que anistiou os militares grevistas de 2017 – atitude que, mais do que nunca, se mostra equivocada diante da ilegalidade daquele movimento que resultou em 200 mortes e enormes prejuízos para a sociedade capixaba – propôs um reajuste salarial de 30% para os militares. Agora, além da proposta ter sido rejeitada pelos militares, corre o risco de ver a reivindicação se espraiar por outras categorias como ocorreu em Minas.
Em 2017, o governador Paulo Hartung, fiel à política de austeridade fiscal que adotou em seus governos – e que tornou o Espírito Santo uma referência nacional de equilíbrio das contas públicas – não transigiu diante da greve dos militares. Hartung não concedeu aumento diferenciado aos militares para não cometer injustiça com outras categorias de servidores e para cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Na época foi criticado pelos que, pouco tempo depois, anistiaram os amotinados. Os exemplos de hoje – do Ceará e de Minas Gerais – demonstram, contudo, que Hartung estava certo ao agir da forma como agiu, resistindo às pressões das corporações em defesa da lei e da sociedade.