“A vida é assim: uma hora esquenta, uma hora esfria.” Palavras do próprio presidente da Assembleia, Erick Musso (Republicanos), no discurso feito por ele da tribuna na última terça-feira (10), que parece ter correspondido ao último episódio da temporada 2019 da série “Crise entre os Poderes no Espírito Santo”. Assim como a vida segundo Erick, seu discurso alternou temperaturas. Transmitiu recados de pacificação endereçados diretamente aos seus pares no plenário e ao governador Renato Casagrande (PSB), mas também foi salpicado por palavras mais agressivas e até ditas em tom de advertência - senão de ameaça direta. E aí o alvo certo foi o deputado Sergio Majeski (PSB), que é quem faz as críticas mais abertas à gestão de Erick Musso na Assembleia. Também sobrou para o prefeito Luciano Rezende (Cidadania).
O discurso de Erick foi mais prenhe de significados nos momentos em que ele falou de improviso: pelo que ele riscou do texto escrito para ele pela assessoria e, acima de tudo, pelo que não estava escrito ali, mas ele deu um jeito de falar. Nessa última categoria, merecem destaque os muitos acenos de Erick para o governo Casagrande e, notadamente, para aliados internos com quem sua relação sofreu abalos nos últimos dias e até para deputados (exceto Majeski) que não o apoiam internamente. Assim como o governo Casagrande, Erick também precisa reconstituir a sua “base” no plenário.
OS ACENOS DE ERICK PARA ALIADOS E PARA A OPOSIÇÃO INTERNA
O discurso de Erick nesta terça revela, antes de mais nada, o desejo do presidente de colocar uma pedra nessa crise que tomou conta da Assembleia nas últimas semanas, produzindo um choque entre Poderes como não se via no Estado há 16 anos e colocando em risco o bom relacionamento entre o governo Casagrande e o atual comando do Legislativo estadual.
No pronunciamento, Erick não reconheceu ter errado em nenhum capítulo da crise, não fez um ato de contrição pública, não pediu desculpas a ninguém… Mas, do jeito dele, assumiu total responsabilidade pela desastrada realização precoce, no dia 27 de novembro, da eleição da Mesa Diretora que só assumiria em 2021, posteriormente cancelada por ele mesmo. Disse o presidente: “Foi uma decisão minha. A decisão foi do Erick Cabral Musso, nascido no dia 19 de fevereiro de 1987”.
O presidente também voltou ao centro do palco com uma clara disposição: reconstruir sua base pessoal no plenário, reabrindo portas até com adversários internos. Nominalmente, ele citou 22 dos outros 29 deputados (a grande maioria deles fora do discurso escrito). Isso incluiu acenos para colegas que não votaram em sua chapa, que entraram na Justiça contra a eleição e que marcaram posição dura contra ele em todo esse processo, como Fabrício Gandini (Cidadania), Dary Pagung (PSB), Iriny Lopes (PT) e Luciano Machado (PV). Majeski, não.
O roteiro escrito para ele já previa que Erick citasse pelos nomes, e de forma prestigiosa, alguns de seus colegas, a pretexto de destacar algumas ações da Era Erick na presidência, inaugurada em 2017: Enivaldo dos Anjos (ao falar do Fórum dos Servidores), Marcelo Santos (Ales Digital e Revisa Ales), Vandinho Leite (agência do Procon), Lorenzo Pazolini (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente). São todos deputados do exército de Erick na Casa. Mas ele foi além.
Fugindo do script, citou Gandini: “Parabenizar o deputado Gandini, que lidera um importante processo na questão do saneamento básico nesta Casa”; acenou para Dary Pagung, “que hoje está na Defesa do Consumidor, mas liderou a Comissão de Finanças por muitos anos, fazendo um trabalho irretocável”; e, ao destacar a Procuradoria Especial da Mulher (o roteiro só previa a citação a Janete de Sá), deu um jeito de incluir, no mesmo afago, a deputada Iriny Lopes, além da outra mulher no plenário, Raquel Lessa.
PARA OS CONSELHEIROS, MARCELO E ENIVALDO
Especialmente relevantes foram as palavras dedicadas por Erick, também no improviso, ao deputado Marcelo Santos, que concedeu à coluna uma entrevista muito boa para ele mesmo, mas terrível para o próprio Erick, publicada aqui entre segunda (9) e terça-feira (10). Basicamente, Marcelo, o 1º vice-presidente da Mesa, o homem que conduziu a sessão relâmpago da eleição no dia 27, eximiu-se de responsabilidade, jogou toda a culpa em Erick, afirmou que o aliado cometeu um “erro crasso” e, para preservar o bom relacionamento cultivado por ele mesmo com o governo Casagrande (assim como cultivou com todos os governos anteriores), não hesitou em jogar Erick ainda mais na fogueira.
Não obstante tudo isso, ao falar de Marcelo Santos, Erick, também à margem do roteiro, fez questão de chamá-lo de “amigo pessoal”. “E, na vida pública, o que vale é a gente constituir amigos, porque isso tudo é passageiro. E nós temos que nos afastar dos conselheiros de guerra neste momento. Temos que ouvir os conselheiros da paz”. Passou com isso o recado de que, ou a entrevista de Marcelo jamais abalou a relação entre eles, ou, se em algum momento a abalou, Erick também já considera esse episódio superado e pretende reatar a boa relação com o antigo aliado.
Em Enivaldo dos Anjos - seu outro “conselheiro de paz”, ao lado de Marcelo -, o afago também foi muito além das palavras escritas para ele ler: “Homem de bem, de valor e de caráter, que não merece uma exacração (sic) pública que estão fazendo de forma covarde, traiçoeira, porque é um homem de valor e que já demonstrou diante de sua trajetória de vida que tem valores”.
PAZ: A PROMESSA FEITA A CASAGRANDE
Já para o governo Casagrande, em outro longo parêntese de espontaneidade feito por Erick, as palavras do presidente não poderiam ter sido mais serenas e reconfortantes. Pura bandeira branca, hasteada no alto do mastro: promessa de equilíbrio institucional e de aprovação, como antes, dos projetos bons para o Estado.
“Desde que entrei na presidência em 2017, esta Casa sempre teve um ambiente de equilíbrio institucional. Aprovamos reformas importantes. Aprovamos projetos que dão ao governo do Estado capacidade de investimentos. [...] Desde o ex-governador Paulo Hartung [...] até este ano, que esta Casa não faltou ao governador Renato Casagrande”, disse ele. Citou o Fundo Soberano, o Fundo de Infraestrutura, a reorganização do quadro da PMES, a PEC da Previdência e cinco projetos que reestruturaram a rede de saúde estadual.
Em seguida emendou a promessa, feita diretamente ao governador:
“Temos projetos importantes a serem debatidos e votados, e iremos fazer, porque, quando o interesse do Espírito Santo estiver colocado à mesa, nenhuma interferência política ou partidária ou divergência nesse sentido deverá se sobrepor. Então, diretamente ao governador Renato Casagrande: o senhor tem a minha palavra de estabilização política desta Casa. Não pelo senhor ou pelo modo de governança, mas porque o senhor representa a vontade dos capixabas, que o elegeram no primeiro turno com mais de um milhão de votos.”
GUERRA: A PROMESSA FEITA AOS ADVERSÁRIOS
Por outro lado, também em um momento espontâneo, Erick optou por palavras em tom muito mais de ameaça, tendo como provável alvo Majeski (o que não exclui terceiros), crítico contumaz do próprio Erick e de outros deputados.
“Aos que falaram, ou falam, que têm o meu respeito, porque o ambiente democrático é do contraditório, saiam daqui com uma certeza: não falarão sozinho mais. Não falarão sozinho mais (sic). Porque esses dias de reflexão me fizeram ter um olhar altivo de saber quem é quem. De experiências das mais profundas que vocês possam imaginar. A Bíblia diz que é no deserto que você se achega a Deus. Mas eu não vou cansar e me calar de defender esta instituição, de defender os mandatos dos meus amigos e dos meus colegas, de defender esta Casa diante de um achincalhamento público por conta de vaidade de promoção pessoal.”
Outro alvo perceptível da indignação de Erick é o prefeito de Vitória, Luciano Rezende, que tem alertado para “ameaças” na política capixaba e, no auge dessa crise, chegou a fazer post em redes sociais com esse mote denuncista, a partir da ação movida por Gandini, seu pré-candidato à sucessão em 2020, pedindo o cancelamento da eleição da Mesa. Não por outra razão, a Prefeitura de Vitória foi uma das poucas instituições discriminadas por Erick, quando citou a quantia de quase R$ 1 milhão já repassado por ela, só este ano, para a Associação dos Municípios do Espírito Santo e para a Federação Nacional de Prefeitos. Essa informação, inclusive, já constava no discurso escrito para ele.
CONCLUSÃO
Enfim, entre mortos e feridos, Erick sobreviveu. Para alguns, ergueu bandeira branca; para outros, a atiradeira de Davi. Mas a mensagem final que passou é que, no que depender dele, essa crise acabou. Pelo menos em 2019.
Tudo, então, de volta à normalidade. Ou quase tudo.