O carnaval já começou. Há bailes e blocos de pré-carnaval espalhados pelas cidades. E mais. O carnaval do Brasil começa aqui, tanto que no último fim de semana acompanhamos o desfile das escolas de samba da Grande Vitória.
O samba é expressão de alegria, de comunidade, de luta política, de contestação da realidade social. Por meio dos sambas se fala de deuses (muitos) e crenças, clama-se por igualdade e tolerância, como fez a Pega no Samba, por exemplo.
Também é pelo samba e pelo carnaval que são expostas as fissuras da história brasileira de escravidão desacreditada que vitimiza corpos de mulheres e homens negros com o aparato estatal e a aceitação social. Foi isso que a Mangueira fez em 2019, fazendo ecoar a história que a história não conta.
Ao mesmo tempo em que os blocos de rua, as escolas de samba e quem ocupa as ruas estão cada vez mais denunciando as questões sociais e políticas (o que não é novidade de 2020, necessário realçar), muitas pessoas estão tomando fôlego para se fantasiarem do que não é fantasia.
Se gabam de serem “politicamente incorretos” e chegam a dizer “ufa, que bom que entre nós podemos nos fantasiar daquilo que sempre foi fantasia”. Acreditam que uma campanha como a do “não é não”, iniciada pela sociedade civil e acolhidas pelo setor público, como acertadamente fizeram o governo do Estado e a Prefeitura de Vitória, é mimimi de uma geração que reclama de tudo, inclusive do que sempre foi considerado “um approach masculino típico da folia”.
Dá pra pular carnaval fantasiado e feliz, seja qual a classe social que você ocupe ou o seu posicionamento político, seja em bailes pagos ou em blocos populares. Você não precisa ir aos blocos dizendo que “foi golpe” ou carregando um cartaz com um “fora Dilma, quero ir pra Disney de novo”.
Você pode comprar fantasias caras e pagar maquiagens em salões de festa ou também pode ir aos mercados populares para garantir o glitter, as ombreiras e as pochetes. O que não dá é para ser racista, machista, homofóbico, muito menos alienado da realidade social e histórica brasileira. Escolher algumas “fantasias” mesmo após o clamor para que identidades culturais e expressões religiosas sejam respeitadas é um ato político.
Essas pessoas que se fantasiam de índio, por exemplo, e se gabam disso, o fazem de forma política, ainda que ecoem que existe muito mimimi atualmente e que tudo é transformado em questões políticas. Escolher estar ao lado de preconceitos e opressões é um ato político. De outro lado, estaremos resistindo, igualmente de forma política, aos assédios contra mulheres e crianças, às violências raciais e às intolerâncias religiosas e étnicas. Que nesse carnaval sejamos criativos, festivos, animados... Tudo, menos cretinos.