O nazismo uniu católicos e protestantes em uma Alemanha dividida pós Reforma do Século XVI, deixando evidenciado um cristianismo institucionalizado, amigo do poder e distante dos ensinamentos do Cristo de quem declaram ser, ambos, seguidores.
A história nos deixou registrados os detalhes dos bastidores do poder eclesiástico no qual pastores protestantes e o alto clero da Igreja Católica se movimentaram em um exercício estratégico de aproximação com Hitler e seu delírio persecutório, demonstrativo da falta de limites da maldade humana e do caráter volátil da ética e da moral cristã.
Por qualquer ótica que se ponha a analisar o nazismo ele será sempre um movimento que desnuda a natureza humana expondo suas entranhas mais escuras e putrefatas, desmistificando qualquer grandeza e bondade que os envolvidos, sejam eles executores, defensores, apoiadores ou meramente silenciadores coniventes, possam querer imaginar serem possuidores.
A igreja protestante alemã, herdeira de uma reforma que foi capaz de provocar uma das maiores revoluções que o mundo já vivenciou, pujante, viva, propositiva de um retorno às bases de um cristianismo autêntico, sustentado nos princípios do amor e da liberdade cristã, com seus milhares de pastores espalhados pelo território alemão, estiveram unânimes e enfileirados na eleição e sustentação de Hitler, permitindo que o nazismo tomasse a dimensão histórica que tomou.
Com seus discursos estimuladores e inflamadores da comunidade evangélica, convidaram a todos a seguir suas orientações, elegendo e apoiando o grande líder que surgia, único com capacidade messiânica, segundo eles, de lutar contra o comunismo, contra a cultura corrompida e corruptora, na defesa da família e da moral.
Os evangélicos, que representavam mais de 70% da população alemã, deram a sustentação necessária para os horrores que até hoje os envergonha como nação e a todos nós como humanos. Talvez ainda sintam, tendo como fonte seu imaginário social, em um sentido de corresponsabilidade, o cheiro de carne humana sendo queimada nos fornos dos campos de concentração, nos quais milhares de seres humanos, filhos do mesmo pai, que dizem seguir, foram queimados vivos, enquanto a lembrança da fumaça das chaminés, impregnada em suas retinas, os impede de contemplar, sem dor, o céu.
Foram cúmplices de cada uma das atrocidades que seus discursos permitiram serem cometidas por aqueles que ajudaram a elevar ao poder. O sangue vertido, que lhes sujou as mãos, manchando cada uma de suas vísceras mais ocultas de escarlate, está a nos lembrar o quanto somos pequenos e frágeis, manipulados em nossas crenças, inteligências e caráter.
A história, corpo do tempo, não nos pode servir apenas como registro imemorial de nossas vivências. Ela precisa ser utilizada como lembrança impeditiva de repetições dos equívocos já cometidos, em uma construção mais ética e menos ignóbil de nosso futuro.
Talvez, os poucos, nem 1%, dos milhares de pastores protestantes da Alemanha, que resistentes lutaram contra a força hegemônica do clero evangélico alemão alinhado com Hitler, tenha morrido física, moral ou emocionalmente, as diversas formas de morte, que são impingidas pelos “amorosos” irmãos das igrejas.
Guardaram, entretanto, os pilares da fé cristã, mantendo-se íntegros, sem a vergonha moral e as dores de conviver com a lembrança dos milhares de judeus mortos, seja por sua conivência, seja por sua omissão.
A Igreja Católica, com cerca de 25% da população alemã, com seu comando único, papal, a partir do Vaticano, do mesmo modo, contribuiu e alimentou a matança generalizada, em um dos períodos mais tristes e vergonhosos da história humana.
Pio XI, relativamente protegido, talvez, por um poder mundial de soberania da Igreja Católica fora do território alemão, controladora de discursos, conseguiu passar à história como mero Pilatos que simplesmente lavou as mãos não as sujando de sangue.
Esse silêncio conveniente do papa Pio XI, não é, entretanto, confirmado pelos historiadores. A Igreja Católica, por interesses diversos dos evangélicos, também se lambuzou no sangue de todos aqueles que foram dizimados pelo nazismo.
Assinou acordos, defendeu Hitler como único líder capaz de vencer o comunismo. Vendeu-se na tentativa de manter espaços para a Igreja Católica alemã enfraquecida desde a Reforma Protestante. Envergonhados todos, católicos e protestantes. Humilhados, passaram a história como cristãos apoiadores do pior que a história já produzir.
Cristianismo hipócrita e oportunista, que nega e renega os princípios basilares do Cristo que dizem defender. Histórias que se repetem e nos fazem corar de vergonha. E o cristianismo, ainda uma vez, esvaziado de sentido, perdido em desejos de poder e glória.