Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 20:12
Foram só seis segundos. O tempo de a câmera mostrar o cantor Bad Bunny entregando uma bebida para um homem atrás de uma chapa com o letreiro "Villa's Tacos" em azul. >
A cena rápida passou no começo do show do artista portorriquenho no intervalo do SuperBowl, a final da liga de futebol americano que aconteceu no dia 8 de fevereiro. Mas foi o suficiente pra encher um bairro inteiro de orgulho. >
Em algumas partes de Los Angeles, na Califórnia, dava até pra ouvir gritos vindos das casas.>
O homem atrás da chapa de comida é Victor Villa, filho de imigrantes mexicanos que, em 2018, abriu o próprio negócio em Highland Park, leste de Los Angeles. >
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Victor é cria do bairro, passou a infância e adolescência ali. O local sempre foi uma área culturalmente rica, conhecida por seus murais coloridos e coletivos de artistas. É um bairro de imigrantes latinos da classe trabalhadora. >
Na época em que Victor era adolescente, Highland Park também era um lugar perigoso, de gangues violentas, mas ele nunca se envolveu com esses grupos. >
O negócio dele era empreender — e fazer festa. >
Desde pequeno, fazia bicos cortando grama pros vizinhos. Aos 15 anos, organizou a primeira festa. Segundo a mãe, Marilu Villa, a irmã mais velha ficou apreensiva, achando que não ia vir ninguém. >
"De repente, tinha uma fila de táxis na porta de casa deixando gente que ninguém nunca tinha visto". >
Victor ganhou dois mil dólares naquele dia. E viu ali uma oportunidade de negócio.>
Depois de estudar administração de empresas na universidade estadual da Califórnia, Victor voltou a promover festas, cada vez mais elaboradas. >
Ele também começou a trabalhar em restaurantes. Primeiro como garçom e depois como maitre de um famoso chef de Los Angeles. Além de saber como produzir eventos, agora ele também entendia de gastronomia.>
Em 2018, ele decidiu juntar esses dois mundos num negócio próprio. Iria vender comida, mas com a alegria de uma festa. >
"Hospitalidade sempre foi a minha especialidade", disse ele à BBC News Brasil. >
"Eu consigo fazer você se sentir bem até mesmo te oferecendo um copo d'água. Eu faço você pensar que é o melhor copo d'água que você já tomou na vida.">
Para começar o Villa's Tacos, Victor comprou uma chapa portátil que carregava pelas ruas de Highland Park. Àquela altura, o bairro já estava diferente: gentrificado, mais caro e menos perigoso. >
Victor sempre foi apaixonado por tacos — uma comida popular de origem mexicana servida numa tortilla (especie de pão fino) feita de farinha e recheada com carne, queijo e/ou vegetais. Então, não foi difícil decidir o que iria cozinhar. >
Mas para achar seu diferencial em uma cidade famosa pela gastronomia latina, ele voltou pras suas origens: provou tacos de diferentes partes do México e quando chegou a vez da tortilla azul, definiu que aquele seria seu ingrediente especial. >
Ele queria criar "o taco de Los Angeles". Primeiro porque aquela versão azul não era comum na cidade. Segundo, porque é a cor do time de baseball local, o Dodgers.>
A família de Victor não só incentivou o novo negócio como participou ativamente da empreitada. A avó fazia três tipos de molho pros tacos, o pai outros três e Victor fazia um. >
"Tinha sempre uma competição na família pra ver qual acabava primeiro, qual era o preferido dos clientes", conta Marilu.>
A barraquinha do Villa's Tacos começou a engrenar no fim de 2019, com filas longas e uma clientela fiel. Mas aí veio a pandemia de covid-19 no ano seguinte, e Victor teve que guardar a chapa — por pouco tempo. >
Ele logo juntou a família toda, espalhou grelhas pelo quintal da casa da avó e começou a vender tacos ali mesmo.>
Além das filas enormes e do preço salgado (por volta de US$15 por três tacos), chamava atenção a animação do lugar: tinha música alta, gente dançando e carros que passavam buzinando. >
Quem atendia parecia sempre disposto a um sorriso, mesmo quando era o cansaço era evidente. >
Pouco mudou no Villa's Tacos desde aquela época. Victor saiu do quintal da avó e abriu o primeiro restaurante, em Highland Park, em 2023 — seguido de dois outros ao redor de Los Angeles e uma barbearia. >
Quando fui lá entrevistá-lo logo depois do Super Bowl, encontrei uma fila gigante, música alta e o mesmo preço (agora já não tão salgado) por três tacos azuis. >
Também encontrei um Victor em êxtase, dando várias entrevistas para veículos locais. E vibrando toda vez que contava a mesma história: "Em dezembro do ano passado, um amigo meu que estava fazendo a seleção pro show do Bad Bunny me ligou e disse 'Victor, o Benito quer você'. Eu não sei como isso aconteceu, eu não conheço o Bad Bunny. Ou foi por causa da comida ou por causa de todo amor que eu coloco no mundo.">
A porta de entrada do restaurante estampa três grandes selos do prêmio Bib Gourmand (ou "bom e barato") do Guia Michelin, a mais famosa avaliação gastronômica do mundo. >
Dentro, três troféus do concurso Taco Madness de melhor taco de Los Angeles, e uma televisão passando repetidamente o show do Bad Bunny no Super Bowl. >
Victor cumprimenta, um por um, todos os clientes da fila. E recomenda sabores de taco pra quem nunca foi lá antes.>
"Ele sempre foi carismático", disse a mãe. >
"Mas eu não imaginava que ele estaria no Super Bowl". >
No dia do show, transmitido para mais de 120 milhões de pessoas durante o evento esportivo mais importante dos Estados Unidos, Marilu conta que "chorava e ria e chorava de novo". Não só por ver onde o filho chegou, mas pelo simbolismo daquilo tudo.>
Bad Bunny fez um show inteiro em espanhol, algo inédito no Super Bowl. A apresentação foi cheia de referências à cultura de Porto Rico e principalmente à cultura e à história de toda América Latina. >
Ele lembrou ainda que a palavra América se refere, antes de tudo, ao continente americano e que os Estados Unidos não seriam o país que são hoje sem os imigrantes latinos e caribenhos.>
"No Super Bowl, nós fomos vistos", disse Marilu. >
"Porque nós somos trabalhadores. Não somos criminosos. Para mim, naquele dia, eu celebrei o amor.">
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