Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 14:11
Aviso: Este artigo contém assuntos que podem ser sensíveis.>
Gina Russo assistia a um show com seu noivo, Fred Crisostomi, em uma noite de 2003, quando percebeu que algo estava errado.>
A banda Great White, que tocava um hair metal dos anos 1980, havia começado a apresentação com uma enxurrada de acordes de guitarra, enquanto quatro grandes sinalizadores pirotécnicos disparavam do palco. >
Os sinalizadores incendiaram instantaneamente os painéis de espuma acústica ao redor, instalados para abafar o som.>
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"Foi imediato", conta Gina à BBC News. >
"A situação piorou muito rápido. O clarão foi repentino.">
Então veio "uma chuva negra de fumaça", acrescenta Gina. O calor derretia e estilhaçava as luzes de vidro acima das cabeças das pessoas. >
Gina e seu noivo correram para a saída mais próxima, uma porta à direita do pequeno palco da casa de shows. >
Um segurança bloqueou a passagem, mas Gina não faz ideia do porquê.>
Foi então que começou "uma debandada" em direção à saída principal, lembra ela, e Fred a empurrou desesperadamente para a frente, em meio à multidão. >
Gina conta que "os corpos se acumulavam" enquanto as pessoas se apressavam para sair — e sua última lembrança foi a de conseguir passar pela porta em segurança antes de desmaiar.>
Quando acordou de um coma induzido 11 semanas depois, Gina descobriu que seu noivo havia salvado a vida dela, mas ele havia morrido no incêndio.>
O fato aconteceu na boate The Station, na cidade nevada de West Warwick, Rhode Island, na costa leste dos Estados Unidos.>
Cerca de 22 anos depois, houve um evento quase idêntico no bar Le Constellation, na igualmente nevada estação de esqui de Crans-Montana, na Suíça, nas primeiras horas do dia de Ano Novo de 2026. >
Na boate The Station, 100 pessoas morreram. No Le Constellation, foram 40 mortes, principalmente de jovens. >
Muitos sobreviventes de ambos os incêndios sofreram queimaduras graves.>
Os dois desastres têm semelhanças impressionantes, e não apenas em seu impacto terrível sobre as vítimas. >
Ambos foram causados por fogos de artifício em ambientes fechados, dizem os especialistas. >
As vítimas parecem ter tido pouco tempo para encontrar uma rota de fuga, e os painéis de espuma podem ter espalhado as chamas na boate suíça de maneira idêntica ao incêndio na casa de shows americana.>
O consultor britânico de investigação de incêndios, Richard Hagger, não hesita em comparar as duas tragédias. >
Ele tem "99% de certeza" que o incêndio suíço foi desencadeado pelos fogos de artifício. Segundo o especialista, se a espuma fosse feita de materiais que retardam as chamas, ela teria queimado lentamente, e não pegado fogo com rapidez.>
Essas semelhanças levantam questões: será que realmente entendemos o quão perigosas são essas situações? E o que devemos fazer se nos encontrarmos algum dia em uma delas?>
Tanto na tragédia de Rhode Island quanto na Suíça, acredita-se que um "incêndio de flashover" tenha ocorrido. >
Isso acontece quando o ar quente sobe, mas, à medida que o calor e a fumaça atingem o teto, não há para onde ir. >
Então ele se espalha para baixo, incendiando rapidamente móveis, roupas e a pele das pessoas.>
Em 2003, Phil Barr tinha 22 anos e estava de volta a Rhode Island para passar as férias de inverno depois de morar em Nova York. >
Ele estava determinado a seguir carreira em Wall Street, mas Phil adorava uma banda de rock barulhenta, então ir ver o Great White naquela noite parecia algo ótimo.>
Ele chegou cedo e quando seu amigo apareceu pouco antes do show, Phil ofereceu uma cerveja e o empurrou animadamente para a frente da multidão.>
Quando o fogo começou, o vocalista da banda se virou e disse, calmamente, pelo sistema de som: "Nossa, isso não parece bom.">
E não era: Phil diz que, no momento do "flashover", as chamas rapidamente "chegaram acima da minha cabeça e estavam em cima de mim".>
"De repente, tudo pegou fogo. Eu conseguia ver um brilho alaranjado por trás de uma densa fumaça preta, mas nada muito além disso", acrescenta ele.>
"Passei de sentir o calor das chamas para sentir como se meu corpo inteiro estivesse dentro de um forno.">
Na tentativa de escapar, Phil bateu o corpo em chamas contra uma porta lateral e caiu na neve, em segurança. Ele sofreu danos respiratórios que colocaram a vida em risco.>
Por uma incrível coincidência, uma equipe de filmagem de uma emissora de TV local estava na boate, e gravava um vídeo sobre segurança em locais de eventos. >
As imagens de 12 minutos do incêndio mostram que as chamas levaram apenas 25 segundos para atingir o teto e, em 90 segundos, a fumaça tóxica já havia tomado conta do prédio. >
Com a porta bloqueada por pessoas amontoadas umas sobre as outras e fumaça preta a sair pelas janelas, o vídeo sugere que deixar o local imediatamente aumentou as chances de sobrevivência.>
O professor Ed Galea, um dos maiores especialistas mundiais em incêndios e na forma como as pessoas reagem a eles, explica como o calor proveniente dos painéis acústicos de espuma inflamável que revestiam o teto da boate The Station, durante o incêndio, agravou muito a situação.>
"É uma situação terrível quando o combustível está no teto. Você não tem a vantagem do tempo que o fogo leva para se desenvolver. Ele já está no teto. Você tem uma camada quente instantânea e, quando ocorre o flashover, a sobrevivência fica improvável", diz ele.>
Como parte da investigação sobre o que aconteceu na boate The Station, especialistas do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA construíram uma versão em laboratório da boate e a incendiaram. >
O relatório oficial constatou que as condições de flashover foram atingidas após cerca de 65 segundos. >
Após 90 segundos, "as condições no meio da sala foram consideradas letais".>
Galea se baseou nessas descobertas, ao insetir a planta da boate The Station em um simulador de computador que ele próprio criou, o qual prevê como os incêndios se propagam. >
Ele mostrou uma explosão de ar aquecido em rápida expansão, com temperaturas dentro da boate atingindo 700 °C em apenas 80 segundos.>
Embora a investigação oficial sobre o desastre suíço esteja em andamento, as imagens coletadas até o momento sugerem que este incêndio também consumiu o local em questão de segundos, espalhando-se pelo teto revestido de espuma.>
As autoridades suíças afirmam que o incêndio provavelmente foi iniciado por fogos de artifício que soltam faíscas e estavam presos a garrafas de champanhe, que foram erguidas muito perto do teto durante as comemorações. >
Elas acrescentam que o bar não havia passado por inspeções de segurança nos últimos cinco anos.>
O fogo precisa de três coisas: calor, combustível e oxigênio. >
E em um incêndio como este, há uma janela de segundos para tomar a decisão de sair, antes que a combustão espontânea ocorra, diz Galea. >
Mas todos os desastres que o professor Galea estudou o convenceram de que as pessoas subestimam a velocidade com que os incêndios podem se alastrar.>
"Chamamos isso de síndrome do fogo amigo", diz ele. >
"Não estamos mais expostos ao fogo diariamente como estávamos há 100 anos, quando tínhamos experiência em acender fogueiras para cozinhar. Perdemos toda essa conexão com a rapidez com que o fogo pode se alastrar.">
Hagger acrescenta: "Algumas pessoas ficam paradas observando o fogo, fixadas no que estão vendo. Elas não percebem o perigo. Algumas filmam, outras até tentam se esconder, em vez de fugir.">
Em um famoso estudo de 1968, os psicólogos Bibb Latané e John Darley recrutaram estudantes do sexo masculino da Universidade Columbia, nos EUA, e pediram que preenchessem um formulário enquanto uma fumaça era bombeada para dentro da sala. >
Os pesquisadores mediram quantos estudantes saíram para dar o alarme.>
Quando estavam sozinhos na sala, 75% reagiram à fumaça e acionaram o alarme. >
Mas quando duas outras pessoas estavam com eles — que participavam do experimento e haviam sido instruídas a não reagir — apenas 10% dos participantes relataram um possível incêndio.>
Os autores concluíram que, às vezes, "um indivíduo que observa a inação de outros julgará a situação como menos grave do que julgaria se estivesse sozinho".>
No incêndio da boate The Station, nos EUA, segundos cruciais se passaram antes que Gina e Phil decidissem sair, quase como se estivessem esperando que algo acontecesse.>
"Minha reação inicial ao fogo foi: 'Oh, que interessante'", diz Phil. >
"Parecia que as chamas estavam apenas na superfície. Elas iam se extinguir sozinhas.">
"Fomos condicionados a acreditar que há sprinklers ou extintores de incêndio por perto, certo? Lembro-me de ter pensado em um momento: 'Vamos todos nos molhar'. Obviamente, isso não aconteceu.">
A boate The Station não tinha sprinklers ou extintores.>
O relato de Phil sugere que outras pessoas na multidão podem ter reagido apenas quando o incêndio repentino e devastador começou. >
"Você sai de um incêndio de forma ordenada. Você não empurra", orienta Phil. >
Mas quando as pessoas perceberam o tamanho do perigo, "simplesmente virou um caos".>
Gina diz que foi o alarme de incêndio que disparou, o que fez as pessoas reagirem — quase como se tivessem que ser avisadas para sair.>
No incêndio na Suíça, imagens mostraram que alguns jovens na festa filmavam os estágios iniciais do fogo ou tentavam apagar as chamas com jaquetas. >
Nas redes sociais, alguns questionaram essas ações e foram criticados por serem insensíveis. >
Galea diz que a maneira como eles agiram não tem nada a ver com a idade deles.>
"As pessoas dizem: 'É a Geração Z, eles não sabem o que estão fazendo', mas isso vem acontecendo desde que comecei a pesquisar sobre o assunto", diz ele.>
O especialista tem um mantra que, segundo ele, deve guiar o pensamento de qualquer pessoa quando se trata de segurança em um incêndio: "A sorte favorece a mente preparada. Você aumenta suas chances quando está preparado. Sempre procure as rotas de fuga.">
De acordo com décadas de pesquisa do professor Galea, ocorreram 38 incêndios semelhantes, que causaram cerca de 1,2 mil mortes desde o ano 2000. >
Quinze envolveram algum tipo de pirotecnia — e cerca de 13 estiveram relacionados com espuma acústica ou materiais decorativos.>
Diante desses precedentes, alguns podem se perguntar por que não parecemos aprender com os erros.>
Embora existam especificações compartilhadas para testes de incêndio e uma indústria dedicada a melhorar a segurança, não existe um "código de incêndio" aplicado internacionalmente. >
O risco é que um incêndio em um país não leve a ações para evitar que algo muito semelhante ocorra em outro lugar.>
Após o desastre da Torre Grenfell em Londres, em 2017, um inquérito público constatou que o Corpo de Bombeiros da cidade tinha amplo conhecimento de incêndios relacionados aos revestimentos inflamáveis em todo o mundo, mas não preparou adequadamente sua equipe para lidar com um evento do tipo.>
Compare isso com a indústria da aviação internacional, que tem a vantagem de ser altamente centralizada. >
Acidentes aéreos são investigados de forma independente, as conclusões são compartilhadas globalmente e diretrizes internacionais são emitidas para corrigir problemas — o que resulta em um bom histórico de segurança.>
Gina e Phil ainda convivem com as cicatrizes sofridas no incêndio da The Station. >
Cerca de 80 vítimas do incêndio na Suíça permanecem hospitalizadas.>
Antes daquela noite de 2003, Phil era um nadador competitivo, mas a fumaça danificou gravemente os pulmões dele.>
"Eu lutei para recuperar minha vida", diz ele. "Eu não ia deixar que esses ferimentos me limitassem ou me definissem.">
"Eu olho para aquele momento e digo: 'Foi isso o que quase perdi'", diz Phil. >
"Percebi que precisava sair e me dedicar às coisas que realmente importam.">
Gina ainda lamenta a morte de Fred naquela noite. >
Ela agora tem um novo parceiro: seu marido é um bombeiro aposentado.>
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