Publicado em 8 de março de 2026 às 15:10
Uma semana após os primeiros bombardeios dos Estados Unidos contra o Irã, o conflito no Golfo entrou em uma fase marcada pela incerteza e pela escalada de tensões.>
Mesmo com a morte de seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei - morto na primeira onda de ataques dos EUA e de Israel -, o regime iraniano parece ter conseguido estabelecer um grau de resistência e capacidade de reação.>
Os ataques iniciais, anunciados pelo presidente americano, Donald Trump, como parte de uma estratégia para provocar uma mudança de regime em Teerã, desencadearam uma série de respostas militares iranianas que ampliaram o risco de um confronto prolongado.>
Desde então, a região tem assistido a um ciclo contínuo de ofensivas aéreas, disparos de mísseis e retaliações direcionadas a alvos americanos, israelenses e, mais recentemente, de países vizinhos. >
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As repercussões internacionais são amplas. Países como o Brasil têm buscado manter posições de equilíbrio diplomático, condenando a violação da soberania iraniana, mas evitando alinhamentos diretos. >
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No plano econômico, o conflito já afeta mercados globais, com oscilações no preço do petróleo e alertas sobre possíveis impactos no comércio mundial de fertilizantes e outros insumos estratégicos.>
A BBC News Brasil conversou com Ronaldo Carmona, doutor em Geopolítica pela Universidade de São Paulo e professor da cátedra na Escola Superior de Guerra para avaliar como o conflito avançou nestes primeiros sete dias e quais as perspectivas para os próximos passos. >
Ele avalia o potencial de expansão da guerra, o papel das potências globais e as implicações militares e estratégicas para países como o Brasil.>
Leia a seguir os principais trechos da entrevista:>
BBC News Brasil - Estamos caminhando para uma semana depois dos primeiros bombardeios. Como o sr. define o que se viu e o que se sabe do conflito até o momento? >
Ronaldo Carmona - Olha, passada uma semana, talvez o principal a destacar seja que ainda não se vislumbra o fim do conflito, sobretudo caso se mantenha o objetivo estratégico que o Trump proclamou ao início dos bombardeios naquele primeiro vídeo que ele falou que o objetivo era uma mudança de regime. >
Creio que os Estados Unidos ainda estão longe desse objetivo, porque o conflito militar propriamente dito é um conflito "trocado" de parte a parte. >
Já era previsto que o Irã tinha uma capacidade militar bastante importante e sobretudo nessa área de mísseis e drones. >
Nessa fase, os ataques dos Estados Unidos consistiram basicamente de ataques aéreos e de mísseis, sendo os aéreos principalmente a partir das bases americanas e de plataformas navais. Há dois grupos de porta-aviões instalados, então há uma força militar também robusta que os Estados Unidos mobilizaram. >
Só que o Irã também está mostrando uma capacidade de reação muito grande. >
Então, esse é o quadro. Ao fim de uma semana, a gente não enxerga o final do conflito.>
BBC News Brasil - Essa questão da mudança de regime. Logo de início, muitos especialistas disseram que apenas por bombardeio, só pelo poderio aéreo, uma mudança de regime, historicamente não seria provável. O senhor concorda com isso?>
Carmona - Sim, claro. Primeiro, pelo aspecto de 'vamos mudar um poder'. No caso, eles estão propondo mudar radicalmente as forças políticas que dirigem o Estado iraniano. Isso implica mesmo numa tomada de poder, e a tomada de poder implica você colocar tropas no solo, ou seja, você realmente realizar uma campanha para uma segunda fase, que é a deposição do poder político propriamente.>
Só que não vejo isso [acontecendo], não vejo esse horizonte, não considero plausível. Então, não é possível ainda ter um prognóstico para o final dessa guerra.>
BBC News Brasil - Já tivemos a retaliação do Irã contra outros países da região, especialmente os do Golfo, e agora tivemos um ataque ao Azerbaijão. É um sinal de uma expansão maior da guerra?>
Carmona - Parece que o que o Irã tem primordialmente atacado objetivos militares. O território de Israel, por um lado, e, por outro lado, alvos militares americanos.>
Os alvos militares americanos incluem tanto as instalações militares, as diversas bases que eles possuem ao longo do Golfo Pérsico em especial, mas também locais de concentração de americanos e de oficiais de inteligência que por vezes se instalam em locais de natureza civil. >
Mas, claro, estamos falando de uma guerra. Guerra é uma mobilização militar de alta intensidade, que também gera erros de parte a parte. Vimos no início da guerra essa história do colégio de meninas [atingido no Irã]. >
Então, quando você tem uma saraivada de mísseis é evidente que parte deles vão ter a sua capacidade degradada, seja por ações cibernéticas, seja mesmo por erros no sistema inicial do míssil. Esse tipo de coisa acontece.>
BBC News Brasil - Muito se falou nos últimos anos e até décadas que os combates iriam evoluir para uma guerra mais voltada para o ciberconflito, para os ataques cibernéticos contra infraestruturas etc. Mas estamos vendo uma guerra quase 'tradicional', não?>
Carmona - Tem um certo exagero nisso, né? Esse debate sobre a mudança da natureza da guerra é uma coisa eu sempre digo que comporta alguns exageros retóricos. >
Sempre tem alguém que fala de uma nova forma de guerra como se ela substituísse as antigas e, na verdade, elas coexistem. E coexistem em métodos novos, fruto inclusive do desenvolvimento tecnológico, com, digamos assim, a boa e a velha artilharia, como é o caso agora.>
BBC News Brasil - Nesse cenário todo, como é que o Brasil se equilibra tanto do ponto de vista militar e diplomático?>
Carmona - O Brasil mantém uma equidistância. Ele condenou fortemente a agressão, ou seja, a violação da soberania do Irã. O Brasil tem essa posição, que é uma posição de princípio. Mas o Brasil não é parte desse conflito, nem deseja ser. >
As repercussões para nós aparentemente são mais de natureza econômica, relacionadas às oscilações do preço do petróleo e os derivados disso, inclusive no que diz respeito à importação de fertilizantes. Tem alguns algumas derivações econômicas. A própria economia mundial pode entrar em recessão. >
Mas nós podemos falar de uma forma mais ampla dos ensinamentos em termos militares. Tanto o episódio da Venezuela quanto o do Irã mostram que um país precisa possuir capacidade de se defender, de dissuadir uma agressão, mesmo de uma potência militarmente superior a você. Isso é uma lição que o Brasil tem a tirar.>
BBC News Brasil - O sr. acha que a dissuasão nuclear vai ganhar força de novo?>
Carmona - Esse debate já acontece solto, vide, por exemplo, na Alemanha. Hoje tem um forte debate sobre criar a capacidade nuclear, assim como essa semana o [presidente francês Emmanuel] Macron propôs esse "guarda-chuva nuclear", embora seja um cara, como diria Trump, já no finalzinho de seu mandato. >
Por um lado, você tem essa visão européia que vê a Rússia como seu inimigo principal e busca se armar para uma hipótese de conflito com a Rússia. Essa é a visão europeia hoje, incluindo o Reino Unido.>
Já do ponto de vista do Sul global, eu diria que a percepção que há é exatamente essa de que as fragilidades militares implicam em riscos para o poder político nacional, para o status quo de um país, à medida que ele pode ser coagido a uma ação de mudança de regime. Isso é o que tem mostrado a prática dessa doutrina Trump. >
BBC News Brasil - No caso venezuelano, explorando muito a fragilidade interna da própria posição chavista...>
Carmona - Ah, sim, sim, jogando com o jogo político interno.>
BBC News Brasil - E a posição da China?>
Carmona - Duas questões sobre a China: primeiro, no que diz respeito ao conflito em si, a China condena muito fortemente. Aliás, em termos similiares ao que o Brasil, condenando a agressão ao direito internacional, a violação da autonomia dos povos, autodeterminação dos povos. >
Agora, a China, obviamente, não pode se envolver diretamente no conflito, até porque a ela não interessa o prolongamento do conflito, por várias razões. >
Primeiro, porque ela ainda trabalha com um cenário em que é preciso ter um ambiente internacional de paz ou, digamos, não conflitivo para favorecer a sua ascensão. Essa é a análise dos chineses. E obviamente, ela jamais se meteria militarmente no terreno. Isso não é o perfil da China.>
BBC News Brasil - O presidente Trump disse que o conflito deveria durar 3 a 4 semanas, talvez um pouco mais. É possível fazer esse tipo de cálculo ou ele estava sendo otimista?>
Carmona - Eu acho que isso revela que o Trump espera uma campanha militar intensa por parte das forças dos Estados Unidos. >
Fala-se que as forças americanas estacionadas lá nessa campanha contra o Irã "queimam" o equivalente a US$ 1 bilhão por dia. Ou seja, é um esforço substancial.>
E eu imagino que os Estados Unidos pensem em prosseguir a guerra nas próximas semanas exatamente para buscar o seu objetivo estratégico que é degradar as capacidades do Irã a ponto de ter uma desestabilização do poder político, tenha isso o formato que tiver. >
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