Publicado em 9 de março de 2026 às 09:12
"Ao grande e orgulhoso povo do Irã, digo esta noite que a hora de sua liberdade está próxima", disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 28/2, dia em que, junto com Israel, atacou o Irã.>
Pergunto sobre essa frase a Mansoureh Shojaee, ativista iraniana pelos direitos das mulheres e pesquisadora da Universidade Vrije, em Amsterdã (Holanda).>
Falando da Holanda à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, Shojaee questiona: "Como se pode pensar que uma intervenção militar, um ataque, pode trazer democracia?".>
"A democracia não vem pelas mãos do inimigo: ele e seu exército estão atacando a nossa nação", continua.>
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Shojaee acrescenta que "o Irã tem uma longa história de luta contra o totalitarismo, a ditadura, especialmente dentro do movimento feminista".>
"Nós, como nação, não precisamos que o senhor Trump nos imponha a democracia nas mãos com bombas e mísseis. Não. Não aceitamos esse presente", afirma.>
De acordo com o embaixador iraniano nas Nações Unidas (ONU), Amir Saeid Iravani, 1.332 civis, entre eles crianças, morreram em ataques dos EUA e de Israel desde 28/2.>
Para Shojaee, como para muitos iranianos na diáspora, tem sido difícil se comunicar com familiares e amigos em seu país desde o início da guerra.>
"Não temos nenhuma conexão direta, nem por telefone fixo, nem por celular, nem por internet", conta.>
"Não tenho a menor ideia do que está acontecendo com a minha terra natal, minha cidade, meus familiares, meus colegas no ativismo e meu único filho.">
Quando conversei com Naghmeh Sohrabi, professora iraniana-americana de História do Oriente Médio na Universidade Brandeis (EUA), ela também não tinha notícias sobre seus parentes.>
Sohrabi, que nasceu no Irã e se mudou com os pais para os EUA quando ainda era criança, é autora de The Intimate Lives of a Revolution: Iran 1979 ("As vidas íntimas de uma revolução: Irã 1979", em tradução livre).>
Também lhe perguntei sobre a mensagem de "liberdade" que o presidente americano dirigiu aos iranianos.>
"A verdade é que, até que as bombas começaram a cair, havia uma parte importante da população no Irã, não sei se era majoritária, ninguém sabe, que sentia que nunca conseguiria se livrar da República Islâmica", diz Sohrabi, falando de Massachusetts.>
Ela lembra os protestos que sacudiram o Irã entre o fim de dezembro e o início de janeiro, os maiores desde a Revolução Islâmica de 1979.>
Segundo organizações de direitos humanos, pelo menos 6.480 pessoas morreram em consequência da repressão do governo.>
As autoridades iranianas reconheceram no fim de janeiro que mais de 3.100 pessoas morreram, mas disseram que a maioria eram integrantes das forças de segurança ou civis atacados por "manifestantes".>
A acadêmica também menciona a forte crise econômica enfrentada pelo país, as sanções internacionais e "o fechamento de espaços dentro do Irã para expressar dissidência".>
Tudo isso, afirma, "estava levando a população ao limite", e a sensação de que era necessário que o regime chegasse ao fim estava presente em parte da população.>
"Mas acho que uma guerra dessa magnitude de destruição muda as condições no terreno.">
"Se antes da guerra as pessoas diziam: 'Queremos ser libertadas (desse governo) para poder ter liberdade', é bastante possível que, sob esse tipo de bombardeio, logicamente, elas queiram outra coisa.">
"A liberdade se torna uma prioridade menor diante da vida. A liberdade é uma prioridade menor quando você vê o seu filho morrer ou sofrer uma mutilação", afirma.>
As duas especialistas alertam para o impacto devastador da guerra sobre a população civil.>
Sohrabi cita números verificados por uma organização independente de direitos humanos que indicavam que, nos primeiros quatro dias de ataques, apenas no Irã foram registradas mais de 1.000 mortes e 5.000 feridos.>
"Entre os mortos estavam meninas, estudantes do ensino fundamental que, na manhã de sábado, tinham ido às aulas e uma bomba caiu sobre a escola", afirma.>
A professora se refere a um ataque que atingiu uma escola na manhã de 28/2 e que, segundo autoridades iranianas, deixou pelo menos 165 mortos e 96 feridos.>
O Irã afirma que o ataque foi realizado pelos EUA e por Israel, mas nenhum dos dois países assumiu a responsabilidade.>
Os EUA nega ter atacado a infraestrutura civil, embora esteja investigando o ocorrido na escola, enquanto Israel acusa o Irã de atacar civis israelenses.>
Em 28/2, ao anunciar os ataques militares contra o Irã, Trump justificou a decisão dizendo: "Nosso objetivo é defender o povo americano eliminando as ameaças iminentes do regime iraniano, um grupo implacável de pessoas muito duras e terríveis".>
"Suas atividades ameaçadoras colocam em perigo direto os EUA, nossas tropas, nossas bases no exterior e nossos aliados em todo o mundo", continuou.>
O presidente de Israel, Isaac Herzog, disse à BBC que os supostos planos do Irã para "desenvolver uma bomba" são, por si só, motivo suficiente para os ataques.>
O governo do Irã — que tem insistido que seu programa nuclear tem fins pacíficos — alegou legítima defesa e atacou Israel e países do Oriente Médio que abrigam bases militares dos EUA. Algumas dezenas de militares e civis morreram em decorrência dos ataques.>
No sábado (7/3), o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, pediu desculpas aos países vizinhos "que foram atacados".>
Para a pesquisadora Shojaee, esta guerra não é uma guerra do povo iraniano, "não é nossa guerra", mas um conflito que envolve três Estados.>
"E nenhum deles vai levar direitos humanos, democracia ou paz ao Irã. Isso é algo que se conquista tendo como base a sociedade civil iraniana", diz, "por meio do diálogo nacional e da autodeterminação".>
"É claro que precisamos de ajuda, de apoio internacional, mas não dos EUA e de Israel, e sim de organizações internacionais de direitos humanos", continua.>
Por seu trabalho como ativista dos direitos das mulheres, Shojaee esteve presa no Irã várias vezes.>
A última foi entre dezembro de 2009 e janeiro de 2010. Em agosto daquele ano, entrou em exílio.>
Shojaee guarda muitas lembranças de sua vida no Irã e, nas circunstâncias atuais, recorda a guerra entre Irã e Iraque, que começou em 1980 e durou oito anos.>
"Construímos instituições civis entre o movimento de mulheres, o movimento estudantil, o movimento operário, a maioria dos movimentos sociais que se formaram após a guerra de oito anos", conta.>
"Tenho medo, não apenas da guerra, das vidas perdidas, mas porque tenho a experiência da guerra que durou oito anos e sei que a guerra pode destruir tudo o que conquistamos." E explica: "Quando há guerra, as ruas ficam vazias, as pessoas só pensam em sobreviver.">
"Primeiro, devemos nos ajudar a parar esta guerra. A mudança de regime é nosso compromisso, não é tarefa dos EUA, não é tarefa de Israel. É nosso trabalho e devemos fazer isso por conta própria.">
Para Shojaee, na situação atual não há espaço para ambivalências.>
"Quando você é contra a guerra e a favor da paz, quando apoia a Declaração Universal dos Direitos Humanos, quando respeita o direito de uma nação à autodeterminação em vez de uma intervenção militar destrutiva e desumana, você pode se opor à República Islâmica ao mesmo tempo em que se opõe às ações de Israel e dos EUA.">
Sohrabi, da Universidade Brandeis, menciona uma declaração assinada por mais de 500 pensadores e acadêmicos que argumenta que "a repressão do regime" é tão condenável quanto a guerra.>
Organizações de direitos humanos têm acusado o governo iraniano de cometer violações de direitos humanos.>
Em 2023, por exemplo, um especialista da ONU advertiu que, desde que os protestos de 2022 começaram, as autoridades iranianas cometeram violações de direitos humanos que poderiam constituir crimes contra a humanidade.>
O governo iraniano alegou que as acusações eram falsas.>
Os protestos de 2022 ocorreram após a morte, sob custódia policial, de Mahsa Amini, que havia sido presa por supostamente usar o véu de forma incorreta.>
"Agora mesmo, digo aos seus leitores: sou absolutamente contra a República Islâmica do Irã e o que ela fez com seu povo, e sou contra esta guerra", afirma Sohrabi.>
De acordo com a autora, especialistas que investigaram eventos semelhantes ao longo da história concluíram que, em pouquíssimos casos, a democracia surge da destruição deixada por uma guerra.>
"Isso simplesmente não acontece. Até agora não aconteceu. Não digo que não existam exceções, mas, como regra geral, não pensamos na guerra como criadora das condições para a democracia", afirma Sohrabi.>
"Sou contra tanto à guerra quanto à repressão da República Islâmica porque acredito que os iranianos merecem um futuro melhor, um futuro mais democrático.">
Sohrabi diz ainda: "E isso não vai acontecer por causa de uma bomba nem de uma arma disparando contra manifestantes inocentes. Nenhuma dessas coisas vai trazer democracia ao Irã.">
Sohrabi afirma que é importante lembrar que muitos iranianos já estavam pensando em seu futuro antes de começarem os ataques dos EUA e de Israel.>
"Eles estavam fazendo duas coisas realmente importantes: uma era pensar em opções além das alternativas nas quais a diáspora e os meios de comunicação ocidentais estão presos, que são a restauração da monarquia ou a continuidade da República Islâmica.">
"Além disso, estavam fazendo algo que fazemos cada vez menos: reunir pessoas que discordam para estarem fisicamente no mesmo espaço e dialogarem", diz Sohrabi.>
Sohrabi conta sobre um debate, de várias horas, realizado dentro do Irã e transmitido na plataforma de vídeos YouTube, entre um defensor da monarquia, um republicano laico e alguém que defende uma reforma da República Islâmica.>
Após a morte do aiatolá Ali Khamenei, em meio aos ataques de Israel e dos EUA em 28/2, houve celebrações no Irã e também manifestações de luto.>
Os meios de comunicação estatais mostraram multidões de simpatizantes da República Islâmica que protestavam em Teerã, capital do Irã, contra os ataques.>
Para Sohrabi, os iranianos não precisam que ninguém lhes apresente cenários sobre o futuro.>
"O que eles precisam é deixar de morrer nas mãos de seu governo ou de potências estrangeiras para ter a oportunidade de ver como suas ideias se tornam realidade.">
"Enquanto continuarmos matando-os com bombas, sanções ou balas, nunca teremos a oportunidade de saber que tipo de futuro sonham para si mesmos", continua Sohrabi.>
Os iranianos, afirma ela, não precisam que ninguém "sonhe por eles".>
Shojaee tinha 19 anos quando ocorreu a Revolução Islâmica, em 1979.>
Poucas semanas depois, o então líder supremo do Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini, decretou que as mulheres deveriam usar véu em seus locais de trabalho e em repartições governamentais.>
Em 8 de março daquele ano, no Dia Internacional da Mulher, milhares de mulheres saíram às ruas para protestar contra a medida.>
Shojaee, que era estudante, se uniu à marcha.>
"Eu não sabia nada sobre feminismo. A única grande feminista que conhecia era Simone de Beauvoir. Depois ficaria sabendo que muitas feministas ocidentais apoiaram a nossa manifestação", recorda.>
"Foi um protesto muito inclusivo, do qual participaram mulheres das classes populares, da elite e feministas", lembra.>
Já se passaram 47 anos daquela marcha histórica, e Shojaee pede que nos lembremos das iranianas como "mulheres independentes, que buscam a autodeterminação, desde seus corpos até o futuro de seu país".>
Para Shojaee, "as mulheres iranianas demonstraram isso lutando, escrevendo e protestando.">
Sohrabi, da Universidade Brandeis, destaca como mulheres e homens no Irã têm pressionado para que a sociedade iraniana tenha espaços com mais equidade.>
"Às vezes eles conseguem, e às vezes não", diz.>
Sohrabi cita como exemplo o movimento "Mulheres, Vida, Liberdade", que surgiu após a morte de Mahsa Amini.>
"Embora o governo nunca tenha mudado as leis, na prática, nos espaços urbanos, as mulheres podem andar sem véu. Se isso não é uma conquista, sinceramente não sei o que é", afirma Sohrabi.>
"Mas, ao mesmo tempo, é muito difícil imaginar como pode haver uma luta por igualdade nas circunstâncias atuais, em que há bombardeios diários.">
"Então, depois que a guerra terminar, o país ficará em ruínas", diz Sohrabi.>
A história demonstrou, segundo Sohrabi, que, em momentos de crise, os direitos das mulheres são relegados a segundo plano e passam a ser muito menos importantes.>
"Mas, se você prestar atenção às vozes das mulheres dentro do Irã", diz, encontrará que "algumas delas, que usam véu por motivos pessoais, têm lutado para que outras tenham o direito de não usá-lo".>
"E essas pessoas — e tantas outras que tiveram décadas de experiência lutando por seus direitos nas situações mais adversas —, não acredito que se possa silenciá-las tão facilmente", conclui Sohrabi.>
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