Publicado em 9 de março de 2026 às 17:11
Os Estados Unidos voltaram à guerra no Oriente Médio, uma região com longo histórico de intervenções militares dos EUA, muitas delas com resultados questionáveis.>
O ataque lançado em 28 de fevereiro contra o Irã matou o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, um dos alvos do presidente americano, Donald Trump, que pretende acabar com o programa nuclear iraniano e provocar uma mudança de regime na República Islâmica.>
Trump não é o primeiro presidente americano a intervir na região.>
Seus antecessores, George Bush (pai e filho) e Barack Obama (2009-2017), já haviam intervido na região, derrubando Saddam Hussein no Iraque ou Muamar Gaddafi na Líbia, autocratas cuja queda não trouxe democracia ou liberdade a seus países, mas um período de guerra civil e instabilidade que dura até hoje.>
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Na Síria, os EUA ajudaram a derrotar o autodenominado Estado Islâmico, mas, após a queda de Bashar al-Assad em 2024, outros grupos islamistas tomaram o poder sem participação direta americana.>
Enquanto isso, no Afeganistão, o regime do Talebã voltou ao poder em 2021, após quase duas décadas de intervenção americana no país.>
Em um artigo famoso de 2015, Philip Gordon, diplomata e assessor de segurança durante o governo Obama, resumiu assim as intervenções dos EUA na região:>
"No Iraque, os EUA intervieram e ocuparam o país, e o resultado foi um desastre muito caro. Na Líbia, os EUA intervieram, mas não ocuparam o país, e o resultado foi um desastre muito caro. Na Síria, os EUA não intervieram nem ocuparam o país, e o resultado é um desastre muito caro.">
Caro não apenas para os próprios EUA, mas para toda a região, afirmam os especialistas.>
"A instabilidade na região se deve em grande parte às intervenções externas", explicou Ibrahim Awad, professor de Assuntos Globais da Universidade Americana do Cairo, no Egito, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.>
Embora Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria e Iêmen fossem países com graves problemas de governança ou regimes autoritários, esses não eram problemas que, na opinião de Awad, "pudessem ser resolvidos por uma intervenção estrangeira".>
Nas últimas décadas, os EUA intervieram militarmente em vários países do Oriente Médio e do norte da África, às vezes como principal ator e outras com um papel mais limitado ou como parte de uma coalizão mais ampla.>
Relembramos aqui as principais.>
Nas últimas décadas, os EUA realizaram várias intervenções militares no Iraque.>
Quando o país, liderado por Saddam Hussein (1937-2006), invadiu o Kuwait em 1990 para assumir o controle de seus recursos petrolíferos e fortalecer sua posição regional, uma coalizão militar liderada pelos EUA e apoiada pela Organização das Nações Unidas (ONU) mobilizou sua enorme superioridade militar na chamada Operação Tempestade no Deserto.>
Com uma intensa campanha aérea e uma rápida intervenção terrestre, a coalizão conseguiu libertar o Kuwait e expulsar os iraquianos em poucas semanas. >
Hussein permaneceu no poder, mas o país passou a enfrentar sanções e um período de instabilidade interna que aumentou tensões sectárias.>
A operação foi considerada um sucesso militar que restabeleceu o direito internacional. >
Por ter sido a primeira após a queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da Guerra Fria (1991), a Guerra do Golfo (1990-1991) também inaugurou uma nova era de intervenções militares dos EUA, estabelecendo uma ordem mundial em que os EUA não tinham rival.>
Em 2003, outra coalizão liderada pelos EUA e pelo Reino Unido invadiu o Iraque alegando que o regime possuía armas de destruição em massa e tinha vínculos com o terrorismo internacional. Essas armas nunca foram encontradas.>
A coalizão chegou a Bagdá, capital do Iraque, em poucas semanas, e Saddam Hussein foi capturado e executado.>
No entanto, o país mergulhou em uma profunda crise de violência, alimentada pela insurgência, pela disputa sectária entre sunitas, xiitas e curdos e pelo surgimento de grupos extremistas que levaram à criação do autoproclamado Estado Islâmico, que entre 2014 e 2015 chegou a controlar um terço do território do Iraque e metade do da Síria.>
A falta de um plano sólido para o período após a invasão, somado a erros estratégicos como o desmantelamento do Exército e das forças de segurança iraquianas, que deixou milhares de homens armados desempregados, muitos dos quais se juntaram à insurgência, contribuiu para a instabilidade que ainda afeta o país.>
Segundo o projeto Iraq Body Count, que registra as mortes no país desde 2003, pelo menos 300 mil pessoas morreram, entre civis e combatentes, como consequência direta da violência. Outras organizações consideram que o número é ainda maior.>
A intervenção dos EUA "resultou em uma fragmentação do Iraque em linhas comunitárias, que negam um sistema político democrático, moderno e laico, e em uma guerra civil na qual centenas de milhares perderam a vida e na qual surgiram organizações como o ISIS (Estado Islâmico)", resume Awad, da Universidade Americana do Cairo.>
Em 2001, os EUA lançaram no Afeganistão, em coalizão com outros países membros da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a Operação Liberdade Duradoura contra o regime do Talebã.>
Os EUA decidiram invadir depois que esse movimento fundamentalista islâmico, que havia assumido o controle do país em 1996, se recusou a entregar Osama bin Laden, líder do grupo Al Qaeda responsável pelos ataques de 11 de Setembro contra as torres gêmeas de Nova York e o Pentágono.>
A intervenção derrubou o regime comandado pelo Talebã em poucas semanas e instalou um novo governo apoiado pela comunidade internacional, mas isso não pôs fim à guerra.>
O conflito se prolongou por mais de duas décadas porque membros do Talebã, longe de desaparecer, conseguiram se reorganizar e continuar combatendo as tropas dos EUA e da Otan.>
Em 2020, com muito território já perdido, os EUA negociaram com lideranças do Talebã sua retirada do país, iniciada em maio do ano seguinte e acelerada após a tomada de Cabul, capital do Afeganistão, pelos islamistas em agosto de 2021.>
A guerra no Iraque, iniciada em 2003, desviou muita atenção e recursos militares americanos do Afeganistão.>
Além disso, o objetivo principal passou de combater a Al Qaeda para um projeto de "construção nacional", para o qual, como também ocorreu no Iraque, a intervenção não tinha uma estratégia clara nem consenso sobre como realizá-lo.>
O novo exército e a força policial criados após a queda do regime então comandado pelo Talebã eram muito frágeis e dependiam do financiamento e do apoio das forças ocidentais. Por isso, colapsaram rapidamente quando essas forças se retiraram e não conseguiram conter o avanço dos fundamentalistas, que voltaram o poder.>
Mais de 176 mil pessoas morreram (entre civis, militares afegãos, combatentes do Talebã e tropas ocidentais) como resultado direto dos 20 anos de intervenção americana e da violência ligada a esse conflito, segundo o projeto Costs of War, da Universidade Brown, dos EUA. >
Esse cálculo não inclui mortes por doenças ou fome relacionadas à instabilidade, que, segundo outras estimativas, seriam ainda maiores.>
O então líder da Líbia Muamar Gaddafi foi outro ditador derrubado após uma intervenção militar da qual os EUA participaram em 2011.>
Sua queda ocorreu no contexto da Primavera Árabe, quando protestos populares contra o regime que Gaddafi liderava com mão de ferro desde 1969 foram reprimidos com violência.>
Isso desencadeou um conflito entre as forças do regime e grupos rebeldes, que se espalhou por todo o país.>
Em resposta, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma zona de exclusão aérea e os EUA se uniram a uma coalizão, que também incluía aliados da Otan como Reino Unido e França, para ajudar os rebeldes, proteger a população civil e bombardear tropas do regime.>
Os rebeldes conseguiram tomar Trípoli, capital da Líbia, e capturar e depois matar Gaddafi em outubro de 2011. Mas, como ocorreu no Afeganistão e no Iraque, o conflito não terminou ali.>
A queda de Gaddafi deixou um vazio de poder para o qual a coalizão não tinha uma solução. Também facilitou o surgimento de vários grupos armados e milícias, incluindo grupos extremistas como o Estado Islâmico.>
As tropas internacionais, que não queriam uma nova intervenção longa e custosa, encerraram as operações de combate após a morte do ditador e passaram apenas a oferecer apoio e treinamento, com ataques aéreos pontuais contra extremistas.>
Para Awad, da Universidade Americana do Cairo, a intervenção na Líbia foi feita "sem qualquer plano para governar o país, o que também resultou em conflito interno", e com sérias repercussões econômicas, porque a Líbia era um país exportador de petróleo e receptor de migrantes.>
Hoje, o país segue dividido e instável, com um Governo de Unidade Nacional em Trípoli, reconhecido internacionalmente, mas sem controle total do território, fragmentado entre diferentes estruturas de poder.>
A Síria também foi sacudida pela Primavera Árabe, a onda de protestos populares que buscava democracia e o fim de regimes autoritários em vários países árabes em 2011.>
O regime de Bashar al-Assad reprimiu protestos pacíficos com violência, desencadeando uma guerra civil que durou mais de 15 anos e que, apesar da queda do regime, ainda não terminou.>
O conflito se transformou em uma guerra complexa com atores internos e externos. >
Uma constelação de grupos distintos, como milícias aliadas do regime, rebeldes moderados, forças curdas e grupos fundamentalistas islâmicos como a Al Qaeda e o Estado Islâmico, disputaram o território, mudando constantemente o mapa de poder do país.>
Mas eles não estavam sozinhos: Rússia e Irã apoiaram militarmente o regime de Assad, enquanto a Turquia armou e treinou grupos rebeldes sunitas em sua luta contra as forças governamentais.>
Em 2014, os EUA também entraram no conflito com o objetivo principal de combater o Estado Islâmico, que chegou a controlar metade da Síria e um terço do Iraque, onde treinava terroristas que depois cometeram atentados na Europa e em outros lugares.>
Os bombardeios americanos enfraqueceram os extremistas, que perderam o controle territorial da Síria e cujas forças, embora não tenham desaparecido completamente, ficaram muito debilitadas.>
Os EUA também prestaram apoio a grupos rebeldes, principalmente às Forças Democráticas Sírias, no Curdistão.>
Durante o primeiro mandato de Donald Trump, inclusive, foram realizados ataques pontuais em 2017 com mísseis Tomahawk para punir o governo de Bashar al-Assad por supostos ataques químicos contra a população civil, embora não tenham buscado diretamente derrubar o regime.>
Em contraste, anos antes, Obama foi criticado por não agir com mais firmeza quando o regime sírio ultrapassou as "linhas vermelhas" estabelecidas pelos EUA e usou armas químicas contra sua própria população em 2013.>
Obama também foi criticado por não ter sido mais duro com o líder sírio, que, graças ao apoio da Rússia, conseguiu permanecer no poder até que, no fim de 2024, o grupo rebelde Hayat Tahrir al-Sham, liderado por Ahmed Sharaa, chegasse a Damasco, capital da Síria, e o regime colapsasse como um castelo de cartas.>
Os EUA estabeleceram relações com o novo governo interino liderado por Sharaa, um ex-líder da Frente Nusra (ou Jabhat al-Nusra), antiga filial da Al Qaeda, da qual depois se separou, e por quem os EUA chegaram a oferecer uma recompensa de US$ 10 milhões (cerca de R$ 50 milhões).>
Apesar da redução da violência, o país permanece profundamente dividido e em um equilíbrio muito frágil.>
Os EUA também intervieram várias vezes no Iêmen com operações antiterrorismo contra Al Qaeda na Península Arábica desde os ataques de 11 de setembro.>
O país mergulhou em guerra civil em 2014, quando os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, tomaram a capital, Sanaa.>
Em 2015, uma coalizão de países árabes liderada pela Arábia Saudita interveio contra os rebeldes. Os EUA venderam armas e forneceram apoio logístico e de inteligência, embora não tenham enviado tropas.>
O movimento xiita houthis controla hoje cerca de 30% do território do país, onde impuseram um regime fundamentalista acusado de violações de direitos humanos.>
No contexto da guerra em Gaza, o grupo lançou ataques contra navios no Mar Vermelho. Em resposta, os EUA, em coordenação com aliados como o Reino Unido, bombardearam posições e infraestruturas militares houthis para proteger o transporte marítimo.>
O Iêmen é o país mais pobre do Oriente Médio e enfrenta uma grave crise humanitária agravada por anos de instabilidade.>
Até 2023, mais de 377 mil pessoas haviam morrido, segundo a organização Campaign Against Arms Trade, a maioria por causas indiretas da guerra, como fome, doenças e falta de acesso a serviços básicos.>
Quase 80% da população depende de ajuda humanitária para sobreviver, e mais de 4 milhões de crianças estão fora da escola, segundo dados da ONU.>
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