Publicado em 7 de setembro de 2025 às 20:32
Ramez Al-Souri mora na Igreja Ortodoxa de São Porfírio, na Cidade de Gaza. >
Ele perdeu 12 pessoas na família, incluindo três de seus filhos, no mesmo local, em 19 de outubro de 2023, após um ataque aéreo israelense que teve como alvo a terceira igreja mais antiga ainda em uso — atrás apenas da Igreja da Natividade, em Belém, e a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. >
Ainda assim, o pai enlutado insiste em permanecer no local e não ser deslocado, apesar das ordens de evacuação emitidas recentemente pelo exército de Israel a todos os moradores da cidade. >
"Estamos aqui, entre familiares, amigos, entes queridos. Juntos, enfrentamos todos os atos de violência a que fomos expostos desde o começo da guerra. As igrejas foram atacadas diretamente, o que provocou o martírio de muitos dos meus familiares, inclusive meus filhos", afirmou ao programa de rádio Middle East Diaries (Diários do Oriente Médio), da BBC. >
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"Falo com vocês apesar da minha doença, da minha dor e da perda dos meus filhos, porque as cenas de destruição sem precedentes nos bairros de Sabra e Zeitoun não são um bom presságio", afirmou. >
"Certamente, todos nós, como cristãos e deslocados na igreja, tememos que ela volte a ser atacada. Mas acataremos a decisão tomada pelo Conselho Supremo da Igreja para os Cristãos em Jerusalém de não sermos removidos da Cidade de Gaza.">
Al-Souri enfatizou que a igreja é quem toma as decisões corretas para os cristãos, e que todos os membros da comunidade cristã estão comprometidos com as decisões eclesiásticas mais importantes tomadas pelo Patriarcado Ortodoxo Grego e o Patriarcado Latino em Jerusalém. >
Ao fim de agosto, o exército israelense ordenou a evacuação da Igreja Ortodoxa Grega de São Porfírio e de seu complexo na Cidade de Gaza, segundo o jornal The Times of Israel. >
Esses acontecimentos ocorrem enquanto o exército israelense se prepara para iniciar uma evacuação em grande escala de civis na Cidade de Gaza, como preparação para uma ofensiva militar mais ampla destinada a dominar a maior cidade da Faixa. >
O padre Issa Musleh, porta-voz oficial do Patriarcado Grego Ortodoxo de Jerusalém, declarou que a decisão de não se deslocar foi tomada diretamente pelo patriarca Teófilos 3, patriarca de Jerusalém, de toda a Palestina e da Jordânia, e pelo patriarca Latino de Jerusalém. >
O padre Musleh destacou que o comunicado de imprensa emitido por ambos os patriarcados tem como objetivo "prevenir o deslocamento dos cristãos em particular, e dos palestinos em geral, de Gaza", para frustar o que ele chamou de "tentativas israelenses de se apoderar da terra e varrer seus habitantes". >
Os patriarcados Grego Ortodoxo e Latino de Jerusalém declararam, em um comunicado conjunto publicado em 26 de agosto que "abandonar a Cidade de Gaza e tentar fugir para o sul equivaleria a uma sentença de morte para eles".>
Por essa razão, os religiosos decidiram ficar e continuar cuidando de todos os que permanecerem nos dois complexos. >
O padre Musleh disse, em seu discurso, que "apesar da decisão do exército de Israel de expulsar os cristãos do Mosteiro de São Porfírio e da Igreja de Santa Porchina, o clero ortodoxo, junto com as comunidades cristãs, se negou categoricamente a sair, insistindo que seu dever era cuidar do povo palestino, já que esses mosteiros e igrejas acolhem palestinos deslocados, tanto muçulmanos quanto cristãos". >
O clero ortodoxo decidiu, de forma unânime, permanecer nos mosteiros e igrejas para "frustrar o plano de deslocamento e preservar o valioso patrimônio herdado de seus pais e avós".>
O padre Musleh descreveu a tentativa de expulsá-los de seus locais de culto como um "crime atroz contra a humanidade" e concluiu seu discurso dizendo: >
"Acompanhamos de perto a situação porque estamos realmente preocupados com a situação em Gaza, mas, por mais difíceis que sejam as circunstâncias, não os abandonaremos. É a nossa decisão final." >
Já o padre Abdulla July afirmou que "os cristãos na Palestina e no Oriente Árabe, em geral, não são seitas, mas parte integral do povo árabe palestino e dos povos árabes da região". >
"Partindo dessa perspectiva, nós, como pastores, devemos ajudar os cristãos a sobreviver, porque a sobrevivência e perseverança são uma forma de resistência contra o objetivo que o exército israelense pretende impor, que é se apoderar da terra sem seu povo.">
O padre July alertou que, sem os árabes cristãos na região, as igrejas e os mosteiros seriam meros museus e santuários para lamentar entre as ruínas, um povo deslocado.>
Elias al-Jida, deslocado da igreja e membro do Conselho de Representantes da Igreja Ortodoxa Árabe de Gaza, destacou: >
"Permanecer é uma realidade. A realidade é que há centenas de deslocados neste lugar que não podem ser abandonados, além de várias crianças com deficiência que não poderão ser transferidas se a decisão de deslocamento for implementada.">
Segundo Al-Jilda, a maioria das pessoas que se encontram nos templos cristãos da Cidade de Gaza são mulheres, idosos e crianças com deficiência, que foram deslocados de suas casas há cerca de dois anos e buscaram refúgio nessas igrejas após destruição de seus lares.>
"A igreja decidiu que não sairíamos daqui, porque é impossível ir e abandonar as pessoas, especialmente as pessoas com deficiência e os idosos. Não é nem religioso e nem humano deixá-los sozinhos para enfrentar o desconhecido. Isso equivale a uma sentença de morte", acrescentou. >
Como cristão palestino, Al-Jilda afirmou que nunca considerou ir embora, porque se deslocar ao sul significaria partir para o desconhecido e para um mundo de perdas insuportáveis. >
"Nascemos na Cidade de Gaza e estamos acostumados a viver aqui. Não conhecemos outro lar que não seja a Cidade de Gaza.">
"Se a morte é inevitável, que seja dentro da igreja. Não escolhemos entre a vida e a morte, mas entre a morte e a morte.">
Essa firmeza cristã em Gaza não representa apenas um repúdio ao deslocamento. >
É uma mensagem clara ao mundo de que a presença cristã na Terra Santa é parte integrante do tecido social palestino e, que as igrejas não são meros edifícios, mas refúgios e símbolos da humanidade.>
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