Publicado em 5 de setembro de 2025 às 16:33
Era uma sexta-feira como outra qualquer na ilha taiwanesa de Kinmen, a poucos quilômetros da costa da China, quando uma sirene de ataque aéreo rompeu com a calmaria. >
Em um escritório do governo local, pessoas apagaram as luzes e se esconderam debaixo das mesas. Outras correram para um estacionamento subterrâneo. >
Em um hospital próximo, funcionários corriam para atender pessoas com ferimentos sangrentos.>
Mas o sangue era falso, e os feridos eram atores voluntários. Junto com os funcionários do governo, eles participavam de exercícios obrigatórios de defesa civil e militar realizados em toda a Taiwan no mês passado. >
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O motivo? Ensaiar uma resposta a um possível ataque da China. >
A China promete, há muito tempo, a reunificação com a Taiwan autônoma e não descartou o uso da força. É uma ameaça que Taiwan está levando cada vez mais a sério. >
Nesta quarta-feira (03/09), a China revelou uma série de novas armas, drones e outros equipamentos militares em um grande desfile, visto por muitos como um recado claro aos Estados Unidos e seus aliados.>
O evento reuniu mais de 20 chefes de Estado estrangeiros, entre eles Vladimir Putin, da Rússia, e Kim Jong Un, da Coreia do Norte, ambos dependentes de apoio econômico da China.>
Foi uma demonstração da força militar chinesa — o desfile militar exibiu um míssil apelidado de Destruidor de Guam (em referência a um território dos EUA no Oceano Pacífico onde há instalações militares americanas), um drone apelidado de Fiel Escudeiro e até lobos-robôs.>
Já o presidente de Taiwan, William Lai, que assumiu o cargo no ano passado, está por trás de uma das maiores iniciativas em anos para fortalecer a defesa do país.>
Um dos seus desafios principais, contudo, é convencer seu próprio povo da urgência. Embora sua campanha de defesa tenha ganhado apoio, também gerou controvérsias. >
"Nós precisamos desses exercícios de defesa, eu acredito que há alguma ameaça da China" diz Ben, um profissional de finanças que trabalha em Taipei. >
"Mas as chances de uma invasão chinesa são baixas. Se eles realmente quisessem nos atacar, já teriam feito isso.">
Assim como Ben, a maioria das pessoas em Taiwan — 65% de acordo com uma pesquisa divulgada em maio pelo Instituto de Defesa Nacional e Pesquisa Estratégica (INDSR), ligado ao Exército — acredita ser improvável um ataque da China nos próximos cinco anos, mesmo com o alerta dos Estados Unidos de que a ameaça a Taiwan era "iminente" e de que Pequim está preparando seu exército para uma invasão até 2027.>
Lai e seu governo costumam repetir uma frase para explicar o que está acontecendo: "Ao nos prepararmos para uma guerra, nós evitamos uma guerra".>
Eles enfatizam que não buscam o conflito, mas estão exercendo o direito de Taiwan de fortalecer sua defesa.>
Além de terem iniciado grandes reformas militares, eles também querem aumentar os gastos com a defesa em 23% no próximo ano, chegando a 949,5 bilhões de dólares novos taiwaneses (R$ 169 bilhões, na conversão atual) — o que representaria mais de 3% do PIB —, seguindo a pressão dos EUA em investir mais em defesa.>
Lai prometeu elevar esse percentual para 5% até 2030. >
Após o prolongamento do seu programa de serviço militar obrigatório, Taiwan aumentou agora o pagamento e os benefícios para os militares, e introduziu treinamentos mais rigorosos. >
Essas medidas têm como objetivo enfrentar os problemas crônicos de escassez de tropas e baixa moral — anteriormente, os soldados reclamavam de treinamento deficiente e eram apelidados de "soldados de papel" por uma suposta fragilidade. >
Os exercícios anuais de guerra Han Kuang, que ensaiam uma reposta militar a um ataque chinês, foram reformulados para substituir os exercícios roteirizados por simulações mais realistas.>
A edição deste ano foi a maior e mais longa de todas, com 22 mil reservistas participando, cerca de 50% a mais do que no ano passado. >
Além de combater a guerra em zonas cinzentas e as campanhas de desinformação, um dos principais focos foi a preparação para combates urbanos.>
Os soldados treinaram a defesa contra tropas inimigas no sistema de transporte público, nas rodovias expressas e nos subúrbios da cidade. >
Em Taipei, eles praticaram o carregamento de mísseis em helicópteros de ataque em um parque à beira do rio e transformaram uma escola em uma estação de reparo de tanques de guerra. >
Mas o governo também está preparando seus cidadãos para uma possível invasão, aumentando a frequência e a escala dos exercícios de defesa civil. >
Um dos maiores treinamentos já realizados, chamado de Exercício de Resiliência Urbana, aconteceu no mês de julho. >
Ao longo de vários dias, todas as principais áreas urbanas de Taiwan realizaram, em turnos, simulações de ataque aéreo. >
Moradores de distritos designados tinham que permanecer dentro de casa, enquanto hotéis, lojas e restaurantes tiveram que suspender as atividades. >
Passageiros não podiam embarcar ou desembarcar de trens e aviões. Quem fosse pego desrespeitando as ordens, corria risco de ser multado. >
No centro de Taipei, equipes de emergência e voluntários praticaram a evacuação de pessoas feridas, o combate a incêndios e descida por cordas de prédios que foram preparados para simular estruturas atingidas por mísseis. >
Equipes médicas realizaram a triagem de pessoas em um estacionamento, tratando ferimentos e pendurando bolsas de soro para aplicações intravenosas em tendas.>
Alguns taiwaneses aprovaram. >
"Acho que é uma coisa boa. Porque eu realmente acredito que a ameaça tenha aumentado", disse Stanley Wei. >
"Olhe como a China continua nos cercando", pontuou, lembrando como a China tem realizado exercícios militares para cercar Taiwan com navios de guerra.>
"Acredito em uma co-existência pacífica com a China, mas nós precisamos aumentar nossa defesa também" diz Ray Yang, que trabalha na área de TI. >
"Antes da guerra na Ucrânia, eu não me preocupava com isso [possível ataque chinês]. Mas depois do que aconteceu na Ucrânia, eu comecei a acreditar que isso poderia acontecer.">
Alguns, contudo, são indiferentes. >
"Mesmo se um ataque ocorrer, o que podemos fazer?", argumenta Liu, que é engenheiro. >
"De toda forma, não tenho certeza se eles invadiriam. Essa ameaça sempre existiu.">
Em Kinmen, o ceticismo é ainda mais evidente. >
A pequena ilha, que foi palco de confrontos sangrentos entre as forças chinesas e taiwanesas no fim da década de 1940 e nos anos 1950, é considerada a linha de frente de um possível ataque. >
Mas, com a melhora nas relações por meio de laços econômicos, muitas pessoas em Kinmen veem sua proximidade com a China como uma vantagem e não uma ameaça. >
Boa parte da economia de Kinmen é hoje voltada para atender turistas chineses que atravessam o estreito de balsa saindo de Xiamen, a cidade chinesa mais próxima.>
Yang Peiling, 77 anos, tem uma loja em Kinmen que vende petiscos tradicionais. Quando era criança, testemunhou as forças chinesas de Xiamen bombardeando sua ilha durante a Segunda Crise do Estreito de Taiwan, em 1958.>
"Estávamos na montanha, colhendo alguns vegetais silvestres, quando vimos eles atirando canhões contra Kinmen", lembra. >
"As pessoas gritavam: 'Xiamen está em guerra.' Tudo ficou vermelho.">
Yang e sua família sobreviveram escondendo-se em cavernas das montanhas. Outros moradores de sua vila foram mortos.>
Décadas depois, ela recebe com naturalidade os viajantes vindos de Xiamen em sua loja. >
"A China não vai nos atacar agora", argumenta. "Somos todos chineses, somos todos uma família. Por que eles machucariam pessoas como nós?">
Um pouco mais à frente, em uma loja de souvenirs, a atendente Chen concorda. >
"Se eles destruírem nossos prédios e matarem a gente, qual o sentido de reivindicar uma terra assim? Eles herdariam uma Taiwan sem nada, o que não lhes traria nenhuma vantagem.">
Essa ideia, de que invadir Taiwan seria caro demais e sem propósito para a China, é compartilhada por muitos taiwaneses. >
Pequim tem reiterado que quer uma "reunificação pacífica", o que para alguns é um sinal de que prefere uma Taiwan intacta. >
Mas Lai argumenta que a China é uma "força hostil estrangeira" que planeja "anexar" Taiwan e continuar com sua "intimidação política e militar". >
Outro fator que há muito tempo tranquiliza os taiwaneses é que os EUA estão, por lei, obrigados a ajudar Taiwan a se defender. >
Embora pesquisas sugiram que essa sensação de segurança tenha diminuído com a volta de Donald Trump à Casa Branca, alguns ainda acreditam que os EUA ajudariam Taiwan em caso de um ataque — e que a China seria relutante em se envolver em um conflito direto com os americanos.>
"Não é uma visão ingênua e inocente pensar que a China não representa ameaça a Taiwan e que nunca atacaria a ilha", disse Shen Ming-shih, analista de defesa do INDSR.>
"Sim, Xi Jinping tem intenções estratégicas de guerra em relação a Taiwan. Mas a força militar da China atualmente não se compara com a dos Estados Unidos.">
Há ainda uma crença de que a comunidade internacional enviaria ajuda a Taiwan, diante da sua importância na indústria global de semicondutores.>
Mas, após décadas de ameaças, existe hoje "uma sensação de Pequim como 'o menino que gritava lobo'", diz Wen-ti Sung, cientista política do Taiwan Center da Australian National University. >
"Psicologicamente, você não pode levar toda a ameaça a sério sem enlouquecer. Então as pessoas passam a ignorar algumas coisas para priorizar sua saúde mental.">
Se a China vai invadir ou não é um debate antigo em Taiwan. >
Mas a urgência dessa questão aumentou com uma escalada recente nas tensões, especialmente após a eleição de William Lai para presidente. >
Lai, que insiste que Taiwan nunca fez parte da China, e seu Partido Progressista Democrático (DPP, na sigla em inglês) são vistos pelo governo chinês como "separatistas".>
Pequim acusa o governo de Lai de provocá-los deliberadamente, especialmente com a campanha de defesa. >
Em julho, o Ministério de Defesa da China chamou os treinamentos em Han Kuang como "nada além de um blefe e um truque de autoengano jogado pelas autoridades do DPP para sequestrar os compatriotas taiwaneses para sua carruagem da guerra pela 'Independência de Taiwan'".>
Qualquer declaração formal de independência por Taiwan poderia desencadear uma ação militar da China, que possui uma lei declarando que recorrerá a "meios não pacíficos" para impedir a "secessão" de Taiwan.>
Lai afirma que Taiwan já é uma nação soberana e, portanto, não precisa declarar formalmente a independência. >
Além de intensificar sua retórica, a China também tem aumentado o envio de aviões e navios de guerra para o espaço aéreo e as águas de Taiwan.>
A China nunca confirmou a alegação dos EUA de que estaria preparando suas forças militares para ser capaz de invadir Taiwan até 2027. Mas tem ficado cada vez mais claro que o país tem fortalecido seu exército, marinha e arsenal, exibidos em um desfile no início de setembro. >
Os especialistas estão divididos se a China está realmente planejando uma invasão em breve. Mas muitos concordam que as tensões, junto com os movimentos militares da China, aumentam a possibilidade de confronto. >
Existem inúmeras formas pelas quais a China poderia atacar. >
Além de desembarcar nas praias de Taiwan e lançar ataques com mísseis, a China poderia realizar bloqueios aéreos ou navais, ou mesmo cortar cabos de comunicação submarinos. >
Muitos desses cenários são retratados em uma série de TV financiada pelo governo de Taiwan, que mostra uma invasão chinesa fictícia. >
Contudo, o governo de Taiwan acredita que uma invasão mais sutil pode já estar acontecendo: a que tenta conquistar os corações e as mentes dos taiwaneses na esperança de que, um dia, eles escolham a unificação. >
Oficialmente, a China tem encorajado o comércio e laços econômicos com Taiwan, assim como conexões culturais. >
De forma não oficial, analistas e autoridades taiwanesas afirmam que Pequim tem investido em campanhas de desinformação e operações de influência. >
Um estudo conduzido pelo Instituto V-Dem da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, concluiu que, por muitos anos, Taiwan tem sido o lugar mais visado do mundo por campanhas de desinformação iniciadas por um governo estrangeiro. >
Em março, Lai alertou sobre a crescente influência da China na economia, cultura, mídia e até mesmo no governo de Taiwan, e anunciou várias medidas para reforçar a segurança. >
Diversos soldados e oficiais militares taiwaneses foram presos por supostamente espionar em favor da China. Membros do DPP, incluindo um ex-assistente de Lai, também foram acusados de espionagem. >
Enquanto isso, celebridades taiwanesas simpáticas à China, influenciadores de redes sociais e cônjuges chineses de cidadãos taiwaneses passaram a ser alvo de rigorosa vigilância, com alguns sendo deportados ou obrigados a deixar o país. >
Lai também tem apoiado um movimento popular profundamente controverso, com o objetivo de afastar políticos da oposição que são vistos como muito próximos da China. >
Há alguns sinais de apoio público à campanha de defesa. A pesquisa do INDSR revelou que mais da metade dos taiwaneses aprovam o aumento dos gastos com defesa, e apoiam ainda mais a compra de armamentos dos EUA. >
Mas também há apreensão. Uma visão é que a campanha de defesa e a retórica de Lai estão provocando a China, o que poderia levar a uma guerra.>
"Eu sinto que lidar com a China é muito simples", diz Chen, assistente de loja em Kinmen. >
"Contanto que você não diga a eles que quer independência, eles não farão nada com você. Mas William Lai fala com a China de um jeito completamente louco. Isso vai provocar a ira deles. Você nunca sabe, um dia Xi Jinping pode ficar muito irritado e nos atacar.">
As pesquisas mostram que a maioria dos taiwaneses quer o "status quo", ou seja, eles não querem nem unificar com a China e nem declarar formalmente a independência.>
A oposição política, dominada pelo partido Kuomintang (KMT), acusa o governo do DPP de usar a possibilidade de invasão chinesa para espalhar medo e ganhar apoio político. >
Alexander Huang, diretor de assuntos internacionais do KMT, caracterizou o governo do DPP como "verbalmente intimidando os chineses desnecessariamente e prejudicando a estabilidade no Estreito de Taiwan". >
Ainda assim, outros defendem que os taiwaneses precisam adotar uma posição firme contra a China.>
"[Os cidadãos] precisam reconhecer que a China é uma ameaça a Taiwan, que pode usar a força, e está se preparando atualmente para isso", afiram Shen. >
"E, por isso, os responsáveis pela segurança nacional e os militares devem primeiro se preparar para isso.">
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