Publicado em 14 de novembro de 2025 às 08:03
Com apenas uma semana de vida, Jenifer de la Rosa recebeu o apelido de "filha do vulcão" porque sobreviveu à avalanche que sepultou sua cidade.>
Em 13 de novembro de 1985, e o vulcão Nevado del Ruiz, em erupção, lançou um torrente de lama, água e pedras que arrasou tudo pelo caminho, incluindo a cidade de Armero, onde de la Rosa vivia com os pais.>
Cerca de 20 mil pessoas, de um total de 29 mil habitantes, morreram na cidade colombiana durante a tragédia. Outras cerca de 5.000 pessoas morreram em municípios vizinhos.>
Armero é hoje um memorial a céu aberto no departamento de Tolima, no centro da Colômbia.>
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Turistas e vítimas visitam o local todos os anos e percorrem ruínas, parques, o cemitério e vários monumentos.>
Alguns sobreviventes continuam vivendo em cidades próximas. Outros, entre eles centenas de crianças, tiveram destinos muito diferentes.>
"Fui adotada por um casal espanhol e não voltei à Colômbia por 30 anos. Então, descobri que tinha uma irmã, sobre a qual nunca soube de nada; nem eu, nem meus pais adotivos", conta De la Rosa, hoje jornalista, em entrevista à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).>
Cerca de 500 crianças foram colocadas para adoção por "processos regulares e irregulares" após a tragédia, segundo a Fundação Armando Armero, dedicada a reconstruir a memória do município e a reconectar os adotados às famílias de origem.>
Alguns desses sobreviventes vivem na Colômbia; outros, no exterior — como De la Rosa, que mora na Espanha. A fundação acredita que parte dos chamados "meninos de Armero", hoje adultos, nem sabe que é originária da cidade.>
Para o Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar, devido às lacunas jurídicas vigentes na época, era preciso investigar cada um dos processos irregulares denunciados por sobreviventes como De la Rosa.>
Cinzas caíam sobre Armero desde as primeiras horas da tarde daquele dia 13.>
Era o prenúncio do que ocorreria por volta das 21h (horário local).>
Os fluxos do vulcão, a mais de 5.000m acima do nível do mar, derreteram cerca de 10% do gelo e da neve que havia nas encostas. O derretimento levou a deslizamentos e inundou tudo abaixo.>
No caminho, a água se misturou ao solo e a sedimentos das encostas, que se transformaram em uma espécie de cimento úmido que deslizou sem controle.>
Esses fluxos, conhecidos como lahars (uma mistura de água, gelo, pedra-pomes e outros detritos de rocha), cheios de pedras de vários tamanhos, destruíram Armero e feriram seus habitantes.>
Dezenas de milhares morreram sob escombros ou asfixiados na lama.>
Dorian Tapazco Téllez foi uma das poucas sobreviventes. Com a filha de uma semana nos braços, chegou a um abrigo onde havia outros sobreviventes.>
"Eu era o bebê mais novo ali. Uma socorrista da Cruz Vermelha me contou que minha mãe retornou aos escombros da casa e nunca mais voltou. Da minha mãe, nunca soube de mais nada, só que mudou de nome", diz De la Rosa.>
O pai dela morreu na tragédia, ou ao menos é o que disseram aos pais adotivos.>
Eles nunca souberam que a bebê que acolheram tinha uma irmã mais velha, também havia sido colocada para adoção algum tempo antes, em outro lugar.>
De la Rosa diz que desde cedo quis saber de onde vinha.>
"Ao me olhar no espelho e ver quão diferente sou dos meus pais, da família, das primas e dos amigos, sempre quis saber minhas origens", conta.>
Os pais adotivos a buscaram em um orfanato em Manizales, a 174 km de Armero e muito perto do Nevado del Ruiz, quando ela tinha pouco mais de 1 ano, e a levaram para viver em Valladolid, a 200 km ao norte de Madri, capital da Espanha.>
"Meus pais me contaram desde pequena que eu era da Colômbia e que minha vida tinha relação com o vulcão Nevado del Ruiz", afirma.>
Na Valladolid do fim dos anos 1990 e início dos 2000, ainda não havia chegado a onda migratória latino-americana que se fixaria com força na Espanha nos anos seguintes.>
"Eu era muito visada. A pergunta de onde eu sou era frequente e continuam me fazendo até hoje", conta.>
De la Rosa diz que, na adolescência, decidiu não falar mais da Colômbia. O tema a irritava. Bloqueou o passado por anos e depois se mudou para outros países.>
Um deles foi o Brasil, onde se reconectou com a natureza de seu continente, com outra realidade — e onde, curiosamente, sua melhor amiga era colombiana.>
Ela voltou à Espanha e, pouco depois, aos 30 anos, estabeleceu como meta retornar à Colômbia em seu aniversário.>
Foi então que pensou em buscar respostas e fazer um documentário sobre a própria vida.>
Em 2016, De la Rosa deu os primeiros passos no que chama de obsessão por encontrar a mãe biológica.>
Contatou a Fundação Armando Armero, fez pesquisas, viu vídeos de pessoas adotadas, gravou ligações, viajou pela primeira vez à Colômbia.>
"Lá, soube da realidade de tantos depoimentos; filhos, filhas, pais que buscavam alguém que pudesse perfeitamente ser eu.">
As peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar.>
"Encontrei uma mulher cuja casa frequentei quando pequena e onde aprendi a andar. E a socorrista da Cruz Vermelha que cuidou de mim quando bebê no abrigo e que me falou da minha mãe e de como eu me parecia com ela", conta.>
"Era algo muito forte para uma pessoa adotada. Embora eu não tenha conseguido encontrar minha mãe, entendi seu contexto, sua vida e a Colômbia de 1985, com todos os problemas que resumem o quanto é difícil encontrar minha mãe biológica", continua.>
A vida de De la Rosa é marcada por duas datas que até hoje atormentam o país.>
Ela nasceu em 6 de novembro de 1985, o mesmo dia em que guerrilheiros do M-19 atacaram o Palácio da Justiça, em Bogotá (capital colombiana), e militares responderam com uma operação que deixou cerca de 100 mortos.>
"Era a Colômbia das Farc, do M-19 e do narcotráfico. Quando o vulcão entra em erupção no dia 13 e arrasa uma cidade inteira, o país colapsa. Era o pior momento para nascer", analisa.>
De la Rosa atribui àquele período convulso e caótico parte do que aconteceu com adoções como a dela.>
Ela digitou muitas vezes no Google o nome da mãe sem encontrar resultados, até que um dia chegou a uma nota publicada em um jornal.>
Uma mulher adotada, Ángela Rendón, então com 32 anos e da cidade de Barrancabermeja, também buscava informações sobre a mãe, que a deixou com uma cuidadora quando ela tinha 3 meses de vida e nunca mais voltou.>
O nome da mãe era Dorian Tapazco Téllez.>
"A primeira coisa que fiz foi me proteger e pensar que poderia ter havido uma troca de nomes, mas que eu não poderia ter uma irmã", relata De la Rosa.>
Depois da conexão estabelecida, a Fundação Armando Armero entrou em ação.>
Francisco González, diretor da entidade, procurou Rendón para explicar o caso, coletar uma amostra de DNA e compará-la com a de De la Rosa.>
Semanas depois, o teste deu positivo. De la Rosa e Rendón descobriram que tinham uma irmã três décadas depois.>
"Ai, é verdade, Francisco? Ai, que felicidade", diz Rendón entre lágrimas ao receber a notícia de González e de De la Rosa, em um momento registrado no documentário.>
As irmãs se conheceram na casa de González. Quando se viram, deram-se timidamente a mão e trocaram um "oi, tudo bem?".>
"Na primeira vez em que a vi, o abraço foi sentido, pensei que era uma estranha, alguém de fora. Minha primeira reação foi fria, mas ela transbordou de amor", descreve De la Rosa.>
Ela, em choque, teve dificuldade para demonstrar emoções, mas Rendón a abraçou e pediu que recuperassem o tempo perdido e agissem dali em diante como irmãs.>
"Quando recebi a notícia, meu aniversário estava perto e pensei que era o melhor presente possível. Ao conhecê-la, achei que era um sonho", diz Rendón à BBC News Mundo.>
"No início não vi semelhanças, mas depois conheci Paola, minha sobrinha, e fiquei impressionada com o quanto ela se parecia comigo na adolescência", conta De la Rosa.>
O reencontro ganhou repercussão na Colômbia. As irmãs deram uma entrevista coletiva ao lado da fundação que reuniu dezenas de jornalistas.>
"Essa relação familiar foi crescendo e, ao mesmo tempo, se mostrou tão complexa. Ainda me custa encarar que tenho uma irmã. Para ela, no entanto, custou pouco. Queria compartilhar, encontrar a família", revela De la Rosa.>
Sobre a mãe, as irmãs encontraram poucas respostas.>
Souberam que ela passou pela prisão e mudou de nome, algo difícil de entender para De la Rosa: "As pessoas me dizem que é possível que minha mãe tenha sido uma pessoa deslocada pelo conflito armado e que, por isso, tenha conseguido a mudança de nome.">
Nesse percurso, De la Rosa se deparou com várias frustrações.>
Um silêncio envolve as condições em que muitas crianças foram adotadas — como no caso dela — e informações sobre a existência da outra irmã foram "deliberadamente" ocultadas nos prontuários, segundo a jornalista.>
"Nos dizem que, na época, os funcionários acharam que o melhor era facilitar a papelada e assim tornar mais simples que encontrássemos lares, mas também havia interesses", afirma.>
Ela conheceu o caso de uma pessoa adotada cujo pai pagou US$ 5.000 (cerca de R$ 27 mil em valores convertidos pelo câmbio atual, mas não corrigidos pela inflação).>
"Havia um descontrole tão grande que, na minha casa de acolhida, pensaram por muito tempo que eu tinha ido parar na Itália e não na Espanha", conta.>
De la Rosa sente que algumas pessoas que conheceu sabem mais do que dizem.>
"Entendo que são pessoas desconfiadas pelo trauma da guerra, mas tenho suspeitas. Com Ángela acontece o mesmo. Em relação ao Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar, sinto que há muito verniz e falta transparência.">
A Fundação Armando Armero e outras vítimas pediram repetidamente mais informações ao Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar sobre os protocolos usados para colocar crianças em adoção após a tragédia de Armero.>
Para o 40º aniversário, o Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar anunciou a digitalização e recuperação do chamado "Livro Vermelho" da tragédia, que reúne parte dos registros de menores de idade resgatados e colocados sob proteção do instituto após a avalanche.>
A iniciativa faz parte da estratégia com que o órgão, hoje dirigido por Astrid Cáceres, pretende contribuir para a recuperação da memória das vítimas.>
Sobre possíveis irregularidades em adoções, Cáceres afirmou à BBC News Mundo que, na época, havia "lacunas" na legislação que dificultam classificar casos como irregulares ou não.>
"Para isso, precisamos investigar todos antes de tirar conclusões", disse.>
Segundo Francisco González, diretor da Fundação Armando Armero, mais de 400 famílias e 75 adotados registrados passaram por exames de DNA graças à atuação da fundação.>
Até agora, quatro reencontros foram possíveis por meio da comparação genética.>
Todos os anos, dezenas de sobreviventes continuam chegando a Armero para perguntar, para esperar que seus filhos ou filhas apareçam algum dia.>
"Não são pessoas que buscam ter um corpo de seus filhos de volta, mas que viram os seus filhos nas capas de revistas ou em listas de pessoas resgatados. O país tem uma dívida histórica com elas", conclui De la Rosa.>
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