Publicado em 2 de março de 2026 às 07:11
Linhas brancas riscam o céu azul de Abu Dhabi sobre as vilas cor de areia e os jardins bem cuidados da cidade.>
Não são rastros deixados por aviões trazendo a próxima leva de turistas e trabalhadores estrangeiros para a capital dos Emirados Árabes Unidos (EAU). São mísseis balísticos lançados por um vizinho que está do outro lado do Golfo: o Irã.>
Na tarde de domingo (1/3), o Ministério da Defesa dos Emirados informou que já havia "lidado" com 165 mísseis balísticos, dois mísseis de cruzeiro e 541 drones iranianos.>
No Bahrein, um amigo que havia passado a noite em claro me avisou na manhã de domingo que o aeroporto do país estava sob ataque.>
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"Acordei com estrondos enormes e sirenes tocando", ele escreveu. "Acho que foram uns 20 estrondos e explosões. Pelo menos dois impactos.">
Essas cenas não são comuns nesta região, mas desde o início do conflito na manhã de sábado (28/2), o Irã parece ter ampliado seus alvos, indo além de infraestruturas militares, como o quartel-general da 5ª Frota da Marinha dos EUA no Bahrein, para aeroportos e outras áreas civis.>
Agora, hotéis de luxo e shoppings, prédios residenciais de vários andares e terminais de embarque de aeroportos de última geração estão sendo atingidos à medida que surgem brechas nas defesas aéreas dos Estados árabes no Golfo.>
Esses lugares não foram construídos com a perspectiva de que um dia seriam atacados por drones e mísseis balísticos.>
O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, negou que os países do entorno fossem alvo: "Não estamos atacando nossos vizinhos nos países do Golfo Pérsico, estamos mirando a presença dos EUA nesses países", disse ele à rede de televisão Al Jazeera. >
"Os vizinhos devem direcionar suas queixas aos responsáveis por esta guerra", completou.>
Parte dos danos à infraestrutura civil nos países do Golfo é acidental, resultante de destroços de mísseis interceptados.>
Mas nem tudo. O número de ataques a aeroportos no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos aponta para algo mais do que coincidência.>
O Irã sempre afirmou que, se fosse atacado, retaliaria contra qualquer país que considerasse cúmplice da ofensiva.>
Os países do Golfo se esforçaram para sinalizar ao Irã que, aos seus olhos, não faziam parte do ataque lançado pelos Estados Unidos e por Israel.>
Ainda assim, essencialmente acabaram punidos por serem parceiros militares de longa data de Washington.>
Antes da Revolução Islâmica, nos tempos do xá, o Irã era conhecido como "a polícia do Golfo". Desde a revolução, o país sempre tentou convencer seus vizinhos de que deveria retomar esse papel, "assumindo a responsabilidade pela segurança" no que chama de Khaleej-e-Fars, o Golfo Pérsico (os árabes o chamam de Golfo Arábico).>
Por anos os líderes iranianos tentaram, sem sucesso, persuadir os Estados árabes do Golfo a expulsarem a Marinha dos EUA da região e se voltarem ao antigo aliado para proteção.>
Nesse contexto, para os governantes dos Estados do Golfo — monarquias conservadoras e dinásticas para quem o fervor revolucionário da República Islâmica é um anátema — uma linha foi cruzada no episódio atual.>
É difícil imaginar como eles poderão restabelecer relações minimamente normais com a atual liderança iraniana, isso se ela sobreviver a esta guerra.>
A Arábia Saudita e Omã, dois países que há muito abrigam forças militares americanas e ocidentais, escaparam por pouco dos impactos negativos em comparação com os outros quatro Estados árabes do Golfo.>
Omã, que mantém boas relações com a república islâmica e mediava as negociações nucleares entre os EUA e o Irã, sofreu um ataque com drone no porto comercial de Duqm, na costa do Mar Arábico.>
A capital saudita, Riad, parece ter sido alvo de um ataque no sábado, o que provocou uma declaração inflamada do governo local.>
"O Reino da Arábia Saudita expressa sua rejeição e condenação nos termos mais fortes aos ataques iranianos flagrantes e covardes que visaram a região de Riad e a Província Oriental, os quais foram interceptados com sucesso. Esses ataques não podem ser justificados sob nenhum pretexto", dizia o comunicado.>
Esta não é a primeira vez que o Irã ataca os vizinhos árabes no Golfo, direta ou indiretamente, mas a escala não tem precedentes.>
Em 2019, uma milícia apoiada pelo Irã no Iraque lançou uma série de drones contra as instalações petroquímicas da Saudi Aramco em Abqaiq e Khurais, interrompendo temporariamente metade de sua capacidade diária de exportação.>
Em junho passado, o Irã disparou mísseis balísticos contra a base aérea de al-Udaid, no Catar, mas o episódio foi visto como uma resposta performática à Operação Martelo da Meia-Noite dos Estados Unidos, que destruiu as instalações nucleares iranianas em Isfahan, Natanz e Fordo — Teerã emitiu um aviso prévio discreto ao governo do vizinho antes da ação.>
O Bahrein, que é governado por uma monarquia sunita e tem uma grande população xiita, por vezes descontente, há muito acusa o Irã de financiar, treinar e armar insurgentes em seu país.>
Nada disso, porém, se compara com a situação que os Estados árabes do Golfo estão vivenciando agora.>
Para o presidente dos EUA, Donald Trump, para Israel, para muitos governos do Oriente Médio e, claro, para muitos iranianos, o melhor resultado neste momento seria um fim rápido do regime da República Islâmica do Irã, seguido por uma transição tranquila para a democracia e um mundo onde o país possa desfrutar de relações normais com o resto do mundo.>
Isso, porém, está longe de ser algo certo.>
Atualmente, EUA e Israel correm para tentar destruir a capacidade do Irã de continuar lançando mísseis e drones antes que eles possam dispará-los.>
Para a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), o dilema é se devem intensificar ataques a alvos importantes, como um navio de guerra americano, na tentativa de se sobrepor à defesa americana, ou segurar grande parte do arsenal na esperança de durarem mais que a paciência de Trump.>
O Irã também sabe que, embora tenha um número finito de mísseis e drones, as defesas aéreas que ainda restam de seus adversários também são limitadas.>
Se, ou quando, esses recursos se esgotarem antes que o Irã fique sem mísseis, drones ou lançadores, a situação daqueles que estão na região do Golfo Pérsico poderá se tornar ainda mais preocupante.>
O equilíbrio de poder está fortemente a favor dos EUA e de Israel, que detêm duas das forças armadas mais poderosas e tecnologicamente avançadas do mundo.>
Há duas unidades de ataque de porta-aviões dos EUA na região com mais de 200 aviões de guerra, enquanto o Irã, sob sanções abrangentes há anos, não possui uma força aérea significativa.>
Tanto Israel quanto os EUA desfrutam de completa superioridade aérea.>
Mas Teerã ainda tem alguns trunfos.>
O regime, embora enfraquecido e impopular entre grande parte de sua população, só precisa sobreviver para se proclamar vencedor a longo prazo neste conflito.>
A república islâmica, com seu culto ao martírio, pode suportar muito mais sofrimento do que os EUA, e quanto mais tempo o conflito durar, mais ansioso Trump estará para encontrar uma saída.>
Os EUA e o Irã retornarão às negociações?>
Se o regime iraniano entrar em colapso, isso não será necessário. Mas se sobreviver, e é bem possível que sobreviva, as três exigências de Washington para Teerã voltarão ao foco, a saber: uma contenção do suposto programa nuclear iraniano, incluindo o retorno das inspeções, o fim do programa de mísseis balísticos do Irã e o fim do apoio do Irã a milícias aliadas na região, como o Hezbollah, o Hamas e os Houthis.>
Omã afirma que progressos reais foram feitos nas discussões em Genebra no mês passado sobre a questão nuclear.>
Mas o Irã descartou discutir os outros dois pontos, levando Donald Trump a dizer que "não estava satisfeito com o rumo das negociações".>
É possível que contatos por canais paralelos possam levar a um cessar-fogo, seguido pelo retorno ao diálogo.>
Mas se as posições de negociação de ambos os lados não avançarem, a ação militar poderá ser retomada.>
O conflito, portanto, ainda tem seu curso natural para seguir.>
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