Publicado em 3 de janeiro de 2026 às 13:10
Mesmo em meio à incerteza e com poucos sinais claros sobre o que pode acontecer com a Venezuela, há três nomes fortes do chavismo que, após a detenção de Nicolás Maduro, podem ficar à frente do país.>
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou neste sábado que o presidente da Venezuela e sua esposa, Cilia Flores, foram detidos e retirados do país após um ataque "em grande escala".>
A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, exigiu do governo dos Estados Unidos "uma prova de vida do presidente Maduro e da primeira-dama".>
Por sua vez, o governo da Venezuela denunciou neste sábado a "gravíssima agressão militar" dos Estados Unidos, depois que foram registradas explosões e o sobrevoo de aeronaves em Caracas e em outras partes do país.>
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Ao lado da vice-presidente Rodríguez, o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López, e o ministro do Interior, Diosdado Cabello, são considerados as vozes mais autorizadas dentro do chavismo.>
Apesar de diferenças de abordagem e de políticas, os três fizeram parte até agora do círculo mais próximo do mandatário.>
Há mais de uma década, além disso, ocupam cargos-chave no governo não como simples representantes, mas como figuras com peso próprio no processo de tomada de decisões.>
São também os nomes que agora aparecem com mais força para assumir o poder na Venezuela, caso os Estados Unidos se deem por satisfeitos com a detenção de Maduro e não pressionem ainda mais por uma mudança total de regime.>
A atual vice-presidente executiva da Venezuela seria a responsável por assumir o poder na ausência de Maduro, segundo o que prevê a Constituição do país.>
Delcy Rodríguez é uma peça fundamental que o governo de Maduro tem utilizado como operadora política tanto dentro quanto fora da Venezuela.>
Rodríguez afirmou, em declarações transmitidas pela televisão estatal venezuelana, que seu governo "desconhece o paradeiro de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores" e pediu prova de vida de ambos.>
"Exigimos do governo dos Estados Unidos uma prova de vida do presidente Maduro e da primeira-dama. O presidente já havia nos dito que essa situação poderia acontecer. Ele disse ao povo ativado. O presidente deu instruções claras para que, em perfeita união, fossem ativados todos os planos de defesa da nação", segundo a Agência Venezuelana de Notícias.>
Rodríguez chegou pela primeira vez ao gabinete ao ocupar, por alguns meses, o Ministério do Despacho da Presidência durante o governo de Chávez.>
Mas foi após a chegada de Maduro ao poder que ela passou a ocupar diversos cargos no topo do Poder Executivo, tendo sido ministra da Comunicação e Informação, ministra da Economia e chanceler. Há alguns meses, somou à lista de funções o cargo de ministra do Petróleo.>
Ela também foi a primeira presidente da polêmica Assembleia Nacional Constituinte eleita em 2017.>
Formada em Direito pela Universidade Central da Venezuela, Rodríguez cursou estudos de Direito do Trabalho e Sindical na França.>
Isso não impediu que ela se tornasse uma entre mais de cinquenta altos funcionários venezuelanos sobre os quais a União Europeia impôs sanções devido a violações de direitos humanos e ao enfraquecimento da democracia na Venezuela.>
Rodríguez também foi sancionada pelos Estados Unidos em 2018, quando o Tesouro americano aplicou medidas semelhantes contra seu irmão Jorge Rodríguez, assim como contra Vladimir Padrino e Cilia Flores.>
Delcy Rodríguez denunciou essas medidas como uma "forma de extorsão".>
O ministro da Defesa foi um dos primeiros a se pronunciar sobre os acontecimentos deste sábado, ao anunciar o deslocamento imediato de forças militares por todo o país.>
Em um discurso transmitido por vídeo, fez um apelo à unidade diante da "pior agressão" já sofrida pela Venezuela e acrescentou que o país estava seguindo "as ordens de Maduro" para mobilizar todas as Forças Armadas.>
"Fomos atacados, mas não nos submeterão", afirmou o ministro da Defesa.>
Padrino López exerce o comando das Forças Armadas desde 2014, sendo um dos ministros da Defesa que mais tempo permaneceu no cargo em toda a história da Venezuela.>
E há uma razão por trás desse dado: sua lealdade, primeiro a Chávez e depois a Maduro, ficou demonstrada ao longo dos anos.>
Ele foi uma peça importante durante o breve golpe de Estado contra Chávez, em abril de 2002, já que, na época, comandava uma unidade de blindados aquartelada em Fuerte Tiuna (Caracas), que não aceitou aderir ao levante.>
Em julho de 2012, Chávez o promoveu a segundo comandante do Exército e chefe do Estado-Maior.>
Maduro o nomeou general-em-chefe em 2013 e, um ano depois, ele chegou ao Ministério da Defesa.>
Segundo explica Sebastiana Barráez, jornalista venezuelana especialista no tema militar, Padrino teve um papel-chave ao assumir o cargo, já que havia dentro das Forças Armadas uma situação de "reacomodação interna" como consequência da morte de Chávez.>
Com Maduro na presidência e Padrino no Ministério da Defesa, os militares na Venezuela passaram a se envolver cada vez mais em áreas ligadas à segurança nacional e ganharam espaço dentro do governo, a ponto de mais de um terço do gabinete ter sido integrado por militares da ativa ou da reserva.>
Em 2016, Maduro criou uma empresa voltada ao setor militar — a Camimpeg — com poderes legais para explorar, buscar e distribuir petróleo. Também concedeu aos militares o controle do chamado Arco Mineiro, uma região no sul do país que concentra uma das maiores reservas de ouro do mundo.>
Quanto ao nível de influência exercido por Padrino dentro da instituição castrense, diversos especialistas afirmam que a força armada venezuelana "hoje é Padrino López".>
Até o momento, o ministro do Interior é o único membro da cúpula do poder que foi visto nas ruas de Caracas após o ataque dos Estados Unidos.>
E não se trata de um dado menor. Cabello não é uma peça qualquer dentro do chavismo. É considerado por muitos uma das figuras mais poderosas e, também, uma das mais temidas.>
Neste sábado, ele foi visto pela televisão estatal cercado por policiais e usando um capacete e um colete à prova de balas.>
Cabello afirmou que estavam avaliando os danos causados pelo "ataque criminoso, ataque terrorista contra o nosso povo".>
Disse ainda que as forças policiais estavam mobilizadas para garantir a paz.>
"Confiem na liderança, confiem na direção do alto comando político-militar para a situação que estamos atravessando", afirmou o ministro.>
"Muita calma, que ninguém caia no desespero. Que ninguém caia em facilitar as coisas ao inimigo invasor. (…) Nós soubemos sobreviver a todas essas circunstâncias e além. Para além de qualquer um de nós, aqui há um povo que está organizado", declarou diante das câmeras.>
Em suas redes sociais, ele se define como "venezuelano, bolivariano, revolucionário e chavista radical" e, desde julho/agosto de 2024, é ministro do Interior, Justiça e Paz.>
Quando era tenente, Cabello participou da tentativa fracassada de golpe liderada por Chávez em fevereiro de 1992. Por esse levante, passou 22 meses preso até ser beneficiado por uma anistia decretada pelo então presidente Rafael Caldera.>
Desde a chegada do chavismo ao poder, Cabello ocupou diversos cargos de destaque.>
Ele era vice-presidente executivo durante o breve golpe de Estado ocorrido em 11 de abril de 2002, o que fez com que assumisse a presidência por algumas horas, até que Chávez fosse reconduzido ao cargo.>
"Ele faz parte do chamado chavismo originário. Não é madurista, no sentido de que não pertence à facção que chegou ao poder com Nicolás Maduro. De fato, nos primeiros anos de Maduro, ficou claro que tentaram reduzir sua cota de poder", explicou à BBC Mundo uma fonte consultada que, por viver na Venezuela, prefere manter o anonimato.>
"Cabello sempre representou a 'ala dura', o poder nos bastidores da inteligência de Estado, mas sem estar claramente representado na hierarquia de um organograma", afirmou a cientista política Carmen Beatriz Fernández à BBC Mundo.>
A partir de 2018, começaram as sanções pessoais contra ele. Primeiro pela União Europeia, depois pelo governo suíço e pelo Panamá, que o classificou como pessoa de alto risco "em matéria de lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo e financiamento da proliferação de armas de destruição em massa".>
Por fim, foi a vez do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que também sancionou seu irmão, José David, e sua esposa, Marleny Contreras.>
Cabello classificou as sanções como "imorais" e afirmou que a medida "demonstra que estamos no caminho certo, que avançamos em uma revolução autêntica".>
Ele é ainda uma das faces mais visíveis do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) e comanda a maior plataforma de propaganda do chavismo: o programa de televisão "Con el mazo dando", exibido no canal estatal desde 2014.>
"Cabello foi capaz de construir sua própria plataforma, sua própria estrutura de poder. A presença midiática que ele tem é superior à de qualquer outro membro da elite chavista e lhe confere certo nível de influência sobre as Forças Armadas, embora isso tenha se reduzido de forma significativa nos últimos anos", contou à BBC Mundo outra fonte na Venezuela que também pediu anonimato.>
*Com informações de Ángel Bermúdez>
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