Publicado em 6 de fevereiro de 2026 às 17:09
O jornalista, crítico literário e escritor Adonias Filho (1915-1990) teve uma carreira notória em seu tempo — mas seu nome não parece ter sobrevivido a ponto de merecer espaço no cânone da literatura brasileira.>
Em vida, costumava ser chamado de "Dostoiévski brasileiro", uma alusão ao russo Fiódor Dostoiévski, comumente apontado como um dos maiores romancistas da humanidade.>
Críticos como Oswaldo Almeida Fischer e Cyro de Mattos não pouparam elogios a ele. >
O primeiro chegou a incluir Adonias Filho entre os maiores da língua portuguesa de todos os tempos. >
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Já Mattos escreveu que a obra dele era "uma das perpendiculares de nossa literatura".>
Segundo o linguista Vicente de Paula da Silva Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), Adonias Filho é frequentemente comparado a Dostoiévski "principalmente pela intensidade com que trata dilemas morais e existenciais".>
Assim como seu homólogo russo, ele "mergulha nas contradições psicológicas dos personagens, explorando o conflito entre moralidade e a necessidade de sobrevivência", destaca.>
Essa comparação faz mais sentido ao pensar nos livrosServos da Morte e Memórias de Lázaro, por exemplo. Mas não compreende toda a produção de Adonias Filho.>
Martins faz a ressalva: o escritor baiano parte de uma ancoragem profunda, lastreada sobretudo nas realidades do nordeste brasileiro, em vez de abordar de forma preponderante as questões filosóficas universais, como fazia Dostoiévski.>
"Enquanto o escritor russo foca nas tensões espirituais do homem diante de Deus e do pecado, Adonias Filho aborda problemas sociais e políticos do Brasil, como o cangaço e a seca, elementos centrais da literatura nordestina", pontua o professor. >
"Seu trabalho reflete não apenas uma busca pessoal por sentido, mas também um confronto com as estruturas opressivas de uma sociedade desigual. Dessa forma, embora existam semelhanças psicológicas, a comparação não captura toda a singularidade de sua obra.">
Nascido na Bahia em 27 de novembro de 1915, Adonias Aguiar Filho publicou dezenas de livros — alguns deles traduzidos para idiomas como inglês, alemão, espanhol, francês, japonês e até eslovaco. >
Ele integrou a Academia Brasileira de Letras (ABL), ganhou prêmios literários importantes e foi amigos de gigantes das literatura como o também baiano Jorge Amado, a cearense Rachel de Queiroz e o colombiano Gabriel García Márquez.>
Politicamente, integrou a Ação Integralista Brasileira (AIB) — movimento ultranacionalista e tradicionalista católico, de inspiração fascista, fundado pelo escritor e jornalista Plínio Salgado.>
Adonias Filho não tinha nem 20 anos quando escreveu seu primeiro romance, que se chamava Cachaça, mas ele destruiu o texto. Seu primeiro livro, o ensaio O Renascimento do Homem, sairia em 1937 — e era baseado na doutrina integralista.>
Já o primeiro romance dele publicado foi Os Servos da Morte, de 1946. >
A essa altura, Adonias Filho já tinha uma atuação conhecida como crítico literário, colaborando com os Diários Associados, O Estado de S. Paulo, e Folha da Manhã, entre outros.>
Também trabalhava como tradutor, vertendo para o português obras de autores como George Sand — pseudônimo de Amandine Aurore Lucile — e Jacob Wassermann.>
Para a crítica, suas grandes obras foram Memórias de Lázaro, de 1952, Jornal de Um Escritor, de 1954, e As Velhas, de 1975. Este último ganhou o Prêmio Jabuti, mais tradicional honraria da literatura brasileira.>
Analistas de seu trabalho percebem nele influências de nomes como James Joyce, Honoré de Bazac, Albert Camus, entre outros, além do já citado Dostoiévski. >
A originalidade de seu texto é atribuída ao estilo conciso e sincopado. Poética, sua prosa é repleta de metáforas e alegorias.>
"Os pontos fortes da literatura de Adonias Filho podem ser atribuídos, de maneira significativa, à sua habilidade de combinar uma crítica social incisiva com uma exploração psicológica e emocional profunda de seus personagens", analisa Martins.>
"Sua obra transcende o simples retrato da miséria nordestina, ao transformar a seca e os dramas humanos em elementos que reverberam não apenas nas questões sociais, mas também na complexidade das relações interpessoais e familiares", acrescenta. >
"Ao contrário de muitos autores contemporâneos, que abordavam a seca de maneira quase documental, Adonias Filho foi capaz de humanizar suas personagens, demonstrando com sutileza o impacto psicológico e moral das dificuldades enfrentadas por essas pessoas.">
Seu perfil oficial registrado pela ABL ressalta que ele fez parte do grupo de escritores rotulados como "terceira fase do Modernismo", os que "se inclinaram para um retorno a certas disciplinas formais, preocupados em realizar a sua obra, por um lado, mediante uma redução à pesquisa forma e de linguagem e, por outro, em ampliar sua significação do regional para o universal".>
O texto lembra das origens do escritor, na zona cacaueira da região de Ilhéus, para enfatizar que ele "retirou desse ambiente o material para a sua obra de ficção">
"Desenvolveu recursos altamente originais e requintados, adaptados à violência interior de seus personagens. É o criador de um mundo trágico e bárbaro, varrido pela violência e mistério e por um sopro de poesia. Seus romances e novelas serão sempre a expressão de um dos escritores mais representativos e fascinantes da ficção brasileira contemporânea", define a ABL.>
Seu pensamento de raízes integralistas permaneceria conservador por toda a vida. Apoiou o golpe militar que instituiu a ditadura no Brasil em 1964 e chegou a ser cogitado para ter um cargo no governo do então estado da Guanabara.>
Era amigo pessoal do general Golbery do Couto e Silva (1911-1987), o criador do Serviço Nacional de Informações (SNI), o principal órgão de espionagem da repressão.>
De 1961 a 1971, Adonias Filho dirigiu a Biblioteca Nacional.>
Durante o regime ditatorial, foi agraciado com a Ordem do Mérito Militar, honraria concedida pela presidência da República. E em 1966 assumiu a vice-presidência da Associação Brasileira de Imprensa — organismo que ele presidiria entre 1972 e 1974.>
De 1977 até sua morte, em 1990, comandou o Conselho Federal de Cultura.>
Para Martins, seu envolvimento com o conservadorismo político pode ter influenciado tanto sua trajetória literária quanto sua recepção crítica.>
"O integralismo, com suas raízes fascistas e nacionalistas, foi visto com desconfiança após o golpe de 1964, e sua associação a esse movimento pode ter ofuscado seu talento literário, marginalizando-o em alguns setores da crítica", pontua. >
Contudo, na avaliação do professor, a reação política de Adonias não deveria obscurecer a importância de sua obra. >
"Adonias Filho tinha uma visão aguçada da literatura e da sociedade brasileira, e sua crítica ao 'romance nordestino' e contribuição ao estudo do romance de 30 foram essenciais para a narrativa literária brasileira. Sua produção não pode ser reduzida apenas a suas escolhas políticas, pois sua reflexão literária e social continua sendo valiosa", argumenta Martins. >
"Embora sua afiliação ao integralismo tenha gerado obstáculos, sua obra ainda carrega um valor significativo na história da literatura brasileira.">
Professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor do livro A Ideologia Modernista: A Semana de 22 e Sua Consagração, o escritor e crítico literário Luís Augusto Fischer concorda que a política tem um peso na visão que se tem sobre a obra de Adonias Filho.>
"O fato de ele ter apoiado o golpe de 64 e integrar órgãos federais era conhecido e, de alguma forma, circulava entre os alunos de Letras, na minha geração", comenta, referindo-se a quem cursou a graduação nos anos 1970. >
"Isso, por certo, era um estigma. Um embaraço para apreciar sua literatura.">
O crítico e ensaísta André Seffrin também reflete sobre o peso das escolhas políticas de Adonias para a posteridade de sua literatura.>
"O fato de Adonias se colocar como um autor, se assim podemos dizer, um tanto à direita, pode ter colaborado, sim. Mas isto é apenas um fator.">
Ele menciona outros "romancistas importantes" que também eram rotulados sob esse espectro político, como Octavio de Faria (1908-1980) e Lúcio Cardoso (1912-1968). >
"Mas o fato de ser de esquerda ou de direita não é determinante, uma vez que Nelson Rodrigues [(1912-1980)] aí está, cada vez mais canônico", ressalta.>
Na opinião do escritor, tradutor e conselheiro editorial Rodrigo Bravo, o esquecimento de certos autores "é parte da própria lógica histórica da leitura".>
"A recepção literária é um campo de forças que envolve disputa de valores, horizontes estéticos, posições de classe, sistemas educativos e, sobretudo, a mutabilidade da sensibilidade humana", afirma Bravo, que é professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). >
"Existem autores que expressaram de modo intenso a temperatura afetiva de seu momento, mas cuja linguagem não se sustenta fora desse microclima. Outros dependem de formas sociais que não existem mais, e a perda desse horizonte desfaz o impacto inicial.">
Bravo argumenta ainda que a literatura também sofre do que podemos chamar de "economia da atenção cultural". Nesse sentido, só alguns textos conseguem reter transmissibilidade quando seus códigos de referência se desgastam.>
"E há ainda o ruído produzido pelos próprios mecanismos editoriais, pelas modas acadêmicas e pela voracidade do mercado que eleva e depõe nomes com a mesma velocidade com que consome tendências", acrescenta. >
Para o professor Fischer, a dinâmica do esquecimento de autores que gozaram de prestígio tem a ver com diversos motivos: o mundo editorial, em que novidades desalojam os títulos de autores já existentes; o envelhecimento da obra e do autor em si — tanto pela linguagem que pode passar a ser vista como "velha ou inadequada" quanto por contarem histórias agora vistas como irrelevantes— ; e a mudança do público leitor, em termos sociológicos, que passa a buscar autores "que dão a ver a experiência social e cultural semelhante" a eles.>
"Difícil avaliar os possíveis motivos do esquecimento de um escritor tão importante como Adonias", diz Seffrin, ressaltando o peso de um romance como Corpo Vivo, publicado em 1962. >
"Costumo dizer que há muito autor bom esquecido, até entre os atuais. Talvez o futuro reserve melhor sorte para alguns desses nomes, o que quer dizer, reserve melhor sorte para os leitores, que existem, da melhor literatura brasileira, em grande parte escondida nos sebos.">
Adonias Filho não é o único autor brasileiro importante de sua época que hoje está fora do cânone, lamenta Seffrin. >
"Cânones, todos sabemos, são flutuantes. Nos anos 60, era relativamente fácil colocar a obra de Adonias dentro de um provável cânone.">
Fato é que toda a notoriedade conquistada por Adonias Filho em vida não garantiu a ele um lugar no chamado cânone da literatura nacional. >
Para o escritor e professor universitário Miguel Sanches Neto, reitor na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), tal fenômeno é comum.>
"O cânone é formado pelo consenso das gerações. Há escritores que são extremamente cultuados por uma, duas gerações, mas que não conseguem transcender a geração que os criou ou a geração que os descobriu. Então ele desaparece", explica.>
De acordo com Sanches Neto, 99,9% do que a gente entende como literatura contemporânea hoje, não vai permanecer reconhecida nas gerações seguintes.>
Segundo o professor Emerson Rossetti, doutor em estudos literários pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), há um conjunto de fatores que determinam a condição de uma obra literária como cânone. >
"Questões de natureza estética e estrutural, inovações relativas às produções em cena até aquela época, importância histórica, mas, principalmente, uma aceitação quase consensual por parte de intelectuais e acadêmicos sobre a relevância do escritor para a cultura", afirma.>
"Penso que também a atemporalidade e a universalidade são aspectos determinantes, pois é primordial que um texto continue a fazer sentido noutros lugares e épocas", completa.>
Para Rossetti — e ele comenta isso refletindo sobre a história de Adonias Filho — mais complexa do que a tarefa de determinar as razões que estabelecem o cânone, "é explicar por que determinados autores outrora prestigiados acabam sendo lançados ao esquecimento".>
Um fator que para ele faz a diferença é se o escritor é ou não estudado nos meios acadêmicos. >
Segundo sua visão, este movimento acaba incentivando mais pesquisas, debates, publicações — e provocando, direta ou indiretamente, que o escritor seja lido por alunos, deixando a obra em circulação.>
"Porém é possível que a própria academia revitalize aqueles que foram esquecidos, discutindo, inclusive, os motivos que levaram a esse período de anonimato", pondera ele. >
"Como já disse, os trabalhos e suas consequências têm o poder de reavivar nomes e obras que não poderiam estar escondidos.">
O professor Fischer pontua que resgates de nomes "esquecidos" costumam ser motivados por "demandas do presente".>
Ele cita como exemplos as obras de Carolina Maria de Jesus e de Maria Firmina dos Reis, que estão em evidência por conta dos fatores de raça e gênero.>
"Outro fator é a hipótese de esse autor antigo ingressar num circuito de leitura impositiva, como as listas de livros de vestibulares", comenta ele. >
"E não se pode descartar outro fator ainda: uma campanha editorial que demonstre para os potenciais leitores a relevância do escritor antigo nos tempos de agora.">
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