Publicado em 2 de abril de 2025 às 07:39
Muitas pessoas vão à academia com um objetivo em mente: queimar gordura. No entanto, o corpo não começa imediatamente esse processo assim que o exercício começa. >
Em vez disso, o organismo utiliza um sistema complexo de energia, que varia de acordo com a intensidade do exercício, a duração e a disponibilidade de combustível. >
Para entender como fazer seu corpo queimar gordura, é essencial compreender como ele utiliza energia.>
A reserva imediata de energia do corpo é o glicogênio, uma forma de carboidrato armazenada principalmente nos músculos e no fígado, explica Paulo Correia, professor de fisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Brasil).>
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"Ele fornece energia imediata para atividades que exigem explosões rápidas de esforço, como correr 100 metros em alta velocidade ou levantar pesos pesados.">
Quando o corpo detecta a necessidade urgente de energia para um esforço intenso, o glicogênio é rapidamente convertido em glicose, que é utilizada pelas células para gerar ATP (adenosina trifosfato), a principal molécula de energia. >
Mas essa reserva é limitada e, por isso, atividades de alta intensidade podem rapidamente levar à fadiga, especialmente em pessoas que não estão bem treinadas.>
O glicogênio provém dos carboidratos que consumimos, incluindo opções saudáveis como frutas, legumes e grãos integrais, além de escolhas menos saudáveis, como doces, pão branco e refrigerantes. >
Embora ambos os tipos de carboidratos forneçam energia, as opções menos saudáveis tendem a ser mais calóricas e menos nutritivas.>
Já a gordura funciona como uma reserva de energia quando o corpo não precisa de energia imediata e armazena o excedente de calorias para uso futuro. Ela fornece mais energia por molécula do que o glicogênio, mas o processo de conversão da gordura em energia utilizável é mais lento.>
Ed Merritt, professor de cinesiologia da Southwestern University, no Texas, utiliza uma analogia para explicar esse processo. >
"A vela representa a gordura—queima de forma lenta e constante, fornecendo energia ao longo do tempo—enquanto a madeira queima rápido. Nosso corpo funciona de forma semelhante. Quando precisamos de energia rápida, queimamos carboidratos. Mas, quando a demanda de energia é mais moderada, o corpo recorre principalmente à gordura." >
Merritt explica à BBC que esse conceito se relaciona ao que se popularizou como a "zona de queima de gordura", na qual o corpo a utiliza como combustível principal em atividades de baixa e moderada intensidade.>
Mas ele destaca que essa zona pode ser alcançada mesmo durante atividades sedentárias, como ficar sentado à mesa ou assistir TV— e isso não significa que a perda de peso está ocorrendo.>
"Confiar exclusivamente na zona de queima de gordura para emagrecimento é um equívoco. A história é muito mais complexa do que isso", acrescenta.>
Uma ideia comum — e equivocada — é que exercícios cardiorrespiratórios (como corrida, caminhada e ciclismo) são a única forma eficaz de perder gordura. >
Embora essas atividades geralmente queimem um número mais alto de calorias quando comparadas com outras, como a musculação, o treinamento de força é igualmente importante.>
Construir massa muscular aumenta o metabolismo basal, já que o tecido muscular exige que o corpo queime mais energia para se manter do que a gordura. Em outras palavras, isso ajuda com que você queime mais calorias mesmo quando não está se exercitando.>
Além disso, massa muscular desempenha um papel fundamental na saúde geral, ajudando a prevenir condições crônicas, como diabetes, doenças cardíacas e osteoporose (enfraquecimento dos ossos).>
Exercícios intensos queimam principalmente glicogênio, enquanto a gordura se torna a principal fonte de energia durante caminhadas de intensidade moderada e prolongada — tempo suficiente para o glicogênio se esgotar, mas não tão intenso a ponto de faltar a energia rápida necessária para manter o movimento. >
Essa faixa de intensidade é conhecida como "Zona 2", que corresponde a cerca de 60-70% da sua frequência cardíaca máxima. Embora tenha benefícios para a saúde cardiovascular e para a oxidação da gordura, ela não é necessariamente a mais eficaz para a perda de gordura.>
Quando se trata de exercício, a chave para a perda de gordura é queimar calorias — não importa tanto de onde elas vêm. O corpo armazena gordura quando a ingestão de calorias excede o gasto. Por outro lado, quando você queima mais do que consome, perde peso.>
"Em intensidade baixa, você queima mais gordura, mas menos calorias totais. Em alta intensidade, uma porcentagem menor das calorias vem da gordura, mas você queima mais calorias no total", diz o professor Merritt.>
Mesmo o treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT), que não queima principalmente gordura durante o exercício, pode ajudar na perda de gordura ao longo do tempo.>
"Após o exercício, o consumo de energia continua—isso é conhecido como 'efeito after burn'. O corpo continua utilizando glicogênio dos músculos e do fígado até que os níveis de atividade retornem ao normal", explica o professor Correia.>
Fatores individuais, como genética, idade e nível de condicionamento físico, desempenham um papel significativo na eficiência com que uma pessoa queima gordura. >
A genética pode fazer com que algumas pessoas tenham um metabolismo naturalmente mais rápido, permitindo que acessem as reservas de gordura com mais facilidade. À medida que envelhecemos, o metabolismo desacelera, a massa muscular diminui e as mudanças hormonais afetam o armazenamento e uso da gordura.>
Como você reabastece as energias quando termina um treino também pode desempenhar um papel significativo.>
"Após o exercício, o corpo trabalha para repor o combustível de queima rápida (glicose) que foi utilizado. Se você não se alimentar imediatamente, o corpo pode recorrer à gordura armazenada para restaurar esses níveis", explica o professor Merritt.>
No entanto, se o seu objetivo é maximizar o desempenho — seja levantando mais peso, correndo mais rápido ou melhorando a resistência — alimentar-se logo após o treino é essencial.>
"Isso ajuda na recuperação, para que você consiga treinar com intensidade novamente na próxima vez. No fim das contas, tudo depende do seu objetivo. A perda de peso e a performance muitas vezes entram em conflito", ele acrescenta.>
Reduzir a ingestão de carboidratos pode promover a queima de gordura e ser eficaz em alguns casos. No entanto, quando combinado com exercícios regulares, isso pode ser contraproducente.>
Uma dieta baixa em carboidratos pode levar à fadiga, fraqueza muscular e até perda de massa muscular, pois o corpo pode começar a quebrar o tecido muscular para produzir glicose quando a gordura sozinha não consegue suprir suas necessidades energéticas.>
Além disso, pode comprometer o sistema imunológico, já que o glicogênio é essencial para a recuperação e defesa do organismo.>
A atividade física dificulta o acúmulo de gordura, mas há um limite para a quantidade de calorias que o exercício pode queimar. Por isso, a dieta e o equilíbrio energético são fundamentais para a perda de gordura.>
"A gordura só é armazenada quando o excesso de energia não é utilizado", afirma o professor Correia.>
Para colocar isso em perspectiva, um quilo de gordura equivale a aproximadamente 7 mil calorias. Uma sessão de 30 minutos de ciclismo pode queimar até 300 calorias, mas isso pode ser facilmente anulado ao consumir apenas uma fatia de pizza ou um brownie.>
"O exercício é essencial para a saúde geral, mas as calorias queimadas durante o exercício podem ser facilmente repostas pela alimentação", conclui o professor Merritt.>
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