Publicado em 31 de janeiro de 2026 às 09:09
A chegada do porta-aviões USS Abraham Lincoln à zona de responsabilidade do Comando Central dos EUA, perto das águas do Irã, aprofundou a sensação de que um confronto maior pode estar tomando forma.>
Em meio à mais extensa e violenta repressão a protestos da história recente do Irã, o destacamento militar enfatiza como Washington e Teerã podem estar próximos de um embate direto, mais do que em qualquer outro momento nos últimos anos.>
Os líderes iranianos se encontram pressionados entre os protestos que exigem, cada vez mais, a derrubada do regime e um presidente americano que mantém suas intenções deliberadamente obscuras, alimentando a ansiedade não só em Teerã, mas em toda a região — que, normalmente, já é marcada pela instabilidade.>
A resposta do Irã a um possível ataque militar americano pode não seguir o padrão familiar, cuidadosamente calibrado, observado nos confrontos anteriores com Washington.>
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As recentes ameaças do presidente Donald Trump, no contexto da violenta supressão da instabilidade doméstica, vieram em um momento de excepcional tensão interna para a República Islâmica. Por isso, qualquer ataque americano traz, agora, um risco significativamente maior de uma rápida escalada, tanto regionalmente quanto dentro do Irã.>
Nos últimos anos, Teerã demonstrou preferência por retaliações posteriores, de forma limitada.>
Após os ataques dos Estados Unidos a instalações nucleares iranianas, em 21 e 22 de junho de 2025, o Irã respondeu no dia seguinte com um ataque com mísseis à Base Aérea de al-Udeid, no Catar, operada pelos Estados Unidos.>
Segundo o presidente Trump, o Irã havia alertado antecipadamente sobre o ataque, o que permitiu que as defesas antiaéreas interceptassem a maior parte dos mísseis. Nenhuma morte foi registrada.>
O ataque foi interpretado, de forma geral, como uma tentativa deliberada do Irã de sinalizar sua determinação, mas evitando uma guerra maior.>
Um padrão similar já havia surgido em janeiro de 2020, durante o primeiro mandato de Donald Trump.>
No dia 3 de janeiro daquele ano, os Estados Unidos assassinaram o comandante da Força Quds (a unidade de elite da Guarda Revolucionária iraniana), Qassem Soleimani, perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque.>
O Irã retaliou cinco dias depois, disparando mísseis contra a base aérea americana de Ain al-Asad, também no Iraque.>
Da mesma forma que no ano passado, Teerã alertou com antecedência sobre o ataque. Nenhum militar americano foi morto, mas dezenas relataram posteriormente lesões cerebrais traumáticas.>
O episódio reforçou a percepção de que o Irã buscava gerenciar a escalada das agressões, em vez de provocá-las.>
Mas o momento atual é muito diferente.>
O Irã está emergindo de uma das ondas mais sérias de distúrbios domésticos desde a fundação da República Islâmica, em 1979.>
Os protestos que irromperam no final de dezembro e início de janeiro foram violentamente reprimidos. Organizações de defesa dos direitos humanos e profissionais médicos do país relatam que milhares de pessoas foram mortas e muitas outras ficaram feridas ou foram detidas.>
É impossível verificar os números exatos, devido à falta de acesso aos dados e a um apagão da internet, mantido por mais de duas semanas.>
As autoridades iranianas não assumiram a responsabilidade pelas mortes, culpando o que descrevem como "grupos terroristas" e acusando Israel de incentivar os distúrbios.>
Esta narrativa foi defendida pelos níveis mais altos do Estado iraniano. O secretário do Conselho Nacional Supremo de Segurança do país afirmou recentemente que os protestos devem ser considerados uma continuação da guerra de 12 dias contra Israel, no ano passado.>
Este enquadramento fornece uma ideia da reação das autoridades, colocando em primeiro lugar a segurança, que pode ter sido usada como justificativa para a escala e a intensidade da repressão.>
A escala dos protestos nas ruas diminuiu desde então, mas não terminou. As acusações permanecem sem solução e a divisão entre grandes setores da sociedade e o sistema governante raramente pareceu tão ampla.>
Nos dias 8 e 9 de janeiro, forças de segurança teriam perdido o controle de parte de diversas cidades e de certos bairros das cidades principais. Elas teriam recuperado o controle à força, de forma contundente.>
Esta rápida perda de controle parece ter inquietado profundamente as autoridades. A calma que se seguiu foi imposta e não negociada, deixando a situação altamente volátil.>
Em um cenário como este, a natureza de qualquer ataque dos Estados Unidos se torna crítica.>
Um ataque limitado pode permitir a Washington reivindicar sucesso militar, evitando uma guerra regional imediata. Mas também poderá fornecer às autoridades iranianas um pretexto para mais uma rodada de repressão interna.>
Este cenário apresenta o risco de mais repressão, prisões em massa e uma nova onda de sentenças rigorosas, incluindo condenações à morte, para manifestantes já detidos.>
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No outro extremo, uma campanha militar americana maior, que enfraqueça significativamente ou paralise o Estado iraniano, poderá colocar o país à beira do caos.>
O súbito colapso da autoridade central em um país com mais de 90 milhões de habitantes dificilmente irá gerar uma transição limpa ou rápida. Pelo contrário.>
Poderá haver um período de instabilidade prolongada, violência entre facções e prejuízos para toda a região, com consequências que podem perdurar por anos até sua resolução.>
Estes riscos ajudam a explicar a retórica cada vez mais inflexível de Teerã.>
Os principais comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e das Forças Armadas comuns, ao lado das principais autoridades políticas, alertaram que um eventual ataque norte-americano, independentemente da escala, será tratado como um ato de guerra.>
Estas declarações inquietaram os países vizinhos do Irã, particularmente os Estados do Golfo que mantêm bases americanas no seu território.>
Uma rápida reação iraniana colocaria esses países, ao lado de Israel, em risco imediato, independentemente do seu envolvimento direto. E isso cria a perspectiva de um conflito que pode se espalhar muito além do Irã e dos Estados Unidos.>
E Washington também enfrenta restrições.>
Trump alertou repetidas vezes às autoridades iranianas sobre o uso de violência contra os manifestantes. E, no auge dos distúrbios, o presidente dos Estados Unidos declarou aos iranianos que "a ajuda está a caminho".>
Estas observações circularam amplamente dentro do Irã e aumentaram a expectativa entre os manifestantes.>
Os dois lados estão conscientes do quadro estratégico como um todo.>
Donald Trump sabe que o Irã, hoje, é militarmente mais fraco que durante a guerra dos 12 dias. E Teerã está consciente de que o presidente americano tem pouca disposição para um conflito aberto em larga escala.>
Esta consciência mútua pode oferecer uma certa tranquilidade, mas também poderá criar visões equivocadas e perigosas, com cada lado potencialmente superestimando sua força ou interpretando erroneamente as intenções do seu oponente.>
Para Trump, é fundamental encontrar o equilíbrio, seja ele qual for. Ele precisa de um resultado que possa apresentar como vitória, sem levar o Irã a um novo ciclo de repressão ou declínio rumo ao caos.>
Para os líderes iranianos, o perigo está no momento e na percepção.>
O modelo anterior do Irã, de retaliação simbólica posterior, pode não ser mais suficiente, se seus líderes acreditarem que a rapidez é fundamental para reafirmar a dissuasão no lado externo e o controle dentro do país, abalado pela escala dos distúrbios recentes.>
Mas uma reação rápida aumentaria em muito o risco de erros de cálculo, levando as forças regionais a um conflito a que poucos podem se permitir.>
Com os dois lados sob intensas pressões e pouco espaço de manobra, um longo jogo de temeridade política pode estar se aproximando do seu momento mais perigoso.>
Afinal, o custo de atingir o equilíbrio errado prejudicaria não só os dois governos, mas milhões de iranianos comuns e a região como um todo.>
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