Publicado em 30 de outubro de 2025 às 21:33
As autoridades do Rio de Janeiro não divulgaram, até o momento, os nomes de 117 mortos e dos 113 detidos na megaoperação contra o Comando Vermelho, a ação policial mais letal da história do Brasil. >
Oficialmente, os únicos nomes divulgados foram os dos quatro policiais que morreram na operação: >
"Meu filho era amor, meu filho era sorriso. Os bandidos encurralaram ele, assim como o delegado. Aquele infeliz do [governador do Rio] Cláudio Castro sabia que os policiais não tinham condição de encarar o CV. Meu filho só tinha 40 dias de corporação", lamentou a mãe de Rodrigo, Débora Velloso Cabral, no enterro do policial na quarta-feira, segundo o registro do jornal O Globo.>
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A operação provocou críticas de movimentos de direitos humanos, que classificam a ação no Rio como uma chacina e questionam sua eficácia como política de segurança. >
O grande número de mortos também foi criticado pelo Alto Comissariado dos Direitos Humanos das Nações Unidas, que se disse "horrorizado" com a operação nas favelas.>
Na madrugada de terça para quarta-feira, moradores do Complexo da Penha levaram dezenas de corpos para a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, uma das principais da região. >
Os corpos foram retirados, em sua maioria, da mata, uma região conhecida como Pedreira, área de floresta no Complexo da Penha, e fizeram dobrar o total de mortos da operação até então.>
Ali, familiares iniciaram o reconhecimento de alguns corpos. >
Isabela Nascimento foi uma dessas pessoas. Madrinha de Jonatha Barreto da Silva, de 18 anos, ela afirmou ter ficado espantada com o estado em que encontrou o afilhado na Praça São Lucas. >
"O meu afilhado não vai poder ter velório, vai ser caixão fechado por causa do estado dele", disse ela à BBC News Brasil, em frente ao Instituto Médico Legal (IML) Afrânio Peixoto, no Rio, na quarta-feira (29/10), onde ela e outros parentes aguardavam chamados para identificação e liberação dos corpos.>
"Ele é do Pará, veio para cá pequeno. A mãe dele é presidiária e ele não conhecia o pai", contou, explicando porque se considerava responsável por encontrá-lo e por enviar o corpo de volta ao Estado de origem do rapaz.>
Além de Isabela, a BBC News Brasil conversou com outros seis familiares de pessoas que morreram durante a operação, constituindo uma lista de 7 nomes: >
Questionadas, a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Civil do Rio de Janeiro não responderam, até o fechamento desta reportagem, por que as identidades dos mortos nem dos presos ainda não foram reveladas, nem mesmo parcialmente. A Polícia Militar direcionou a demanda à Polícia Civil.>
Segundo a assessoria da polícia, até o momento, cerca de 100 corpos já passaram por exame de necrópsia e parte deles foi liberada para a retirada pelas famílias.>
Em entrevista coletiva de imprensa, Felipe Curi, secretário de Polícia Civil, disse que espera que o trabalho seja concluído até o fim da semana.>
Na porta do IML na quarta-feira, Marcela Alves Martins, de 25 anos, contou que veio com os pais do Espírito Santo para liberar o corpo do irmão, Fabian Alves Martins, de 22 anos.>
"A gente pediu tanto para ele sair dali e ir para casa", disse ela.>
Eduardo Brasil, amigo de Fabian que trabalhava com ele em forros de PVC em Cachoeira de Itapemirim (ES), acompanhou a família do amigo até o Rio de Janeiro. >
"Ele disse que veio para tentar mudar de vida, conseguir buscar novas oportunidades. E acabou acontecendo isso", diz>
De acordo com balanço oficial, além dos mortos, 113 pessoas foram presas, sendo que 33 de outros Estados. >
Assim como Fabian e Jonatha, Luiz Carlos de Jesus Andrade, de 23 anos, também não era do Rio de Janeiro.>
Maria Clara, de 17 anos, mãe do filho de dois anos de Luiz Carlos, disse que eles eram da Bahia e que ele não era envolvido com o crime.>
"Ele trabalhava lá na Penha de mototáxi, não era envolvido com nada disso. Se levassem preso, até por ele não ter feito nada, a Justiça ia ver que ele era inocente. Mas não, preferiram matar porque não tem volta", disse.>
Maria Clara afirmou que Luiz Carlos enviou mensagens para ela entre as 8h e 10h da terça-feira (28/10), pedindo ajuda para não morrer. >
"Ele mandou o áudio falando 'eu vou morrer, eu vou morrer. A gente está encurralado, não consegue sair'.">
Da mesma forma, Aline Alves da Silva, de 20 anos, contou que seu irmão, Alessandro Alves da Silva, de 19 anos, enviou um áudio pedindo ajuda.>
"[Mandou áudio] pedindo pra ir socorrer ele. Ele estava no meio do tiroteio. Mandou para minha mãe, mandou para a ex-mulher dele, mandou para minha irmã. E elas tentaram ir lá, todo mundo. Eu tentei também", diz.>
O Ministério Público Federal pediu, na terça-feira, ao IML do Rio de Janeiro acesso em até 48 horas a todos os dados da perícia dos corpos das vítimas da megaoperação policial realizada no Rio de Janeiro. Entre outros detalhes, o MPF quer saber de que distância foram feitos disparos, por exemplo.>
Nesta quinta, a Defensoria Pública da União (DPU) protocolou medida cautelar pedindo autorização para acompanhar perícias técnicas dos corpos. A solicitação foi feita no âmbito da ADPF 635 — conhecida como "ADPF das Favelas" — que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) e regula as operações policiais para reduzir a letalidade.>
"Infelizmente alguns [corpos] que vi enfileirados aguardando remoção apresentavam marcas [de tortura]", disse à BBC News Brasil Fabiana da Silva, da ouvidoria da Defensoria Pública do Rio de Janeiro.>
Parte dos corpos foi levado para o Hospital Getúlio Vargas, que fica na Penha. Foi lá que Mariana Chaves, ex-companheira de Juan Souza Maciel, de 20 anos, reconheceu o corpo do ex-marido no hospital e que, além da perda, foi alvo de constrangimento. >
"Eu entrei no hospital para reconhecer o corpo dele, e os próprios policiais riram da nossa cara. Isso é desumano, não entra na minha cabeça. Independentemente da vida que ele levam, são seres humanos", afirmou.>
Fabiana da Silva diz que a Defensoria também tomou conhecimento dessa informação, por meio de familiares. Um documento foi produzido por ela com relatos de moradores, e enviado para o núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública e outros organismos do poder público e organizações da sociedade civil.>
"Ela cuidou dele desde quando tava na minha barriga", disse Rosiane Costa da Silva, na porta do IML, se referindo à dona Selma, tia-avó de Márcio da Silva de Jesus, 22 anos, também morto na operação.>
Elas foram reconhecer o corpo do rapaz. "Era o nosso filho, meu e dela. Ela pariu e eu criei", disse Selma, que é tia-avó de Márcio e entrou na mata atrás do corpo do rapaz.>
Já Joyce, esposa de Aleilson da Cunha, 26 anos, lamentava sobre a filha de seis anos do casal já ter tomado conhecimento de que o pai morreu.>
"Eu tentei negar, mas ela disse: mamãe para de mentir, eu sei, já sei que meu papai morreu. Como que eu vou falar que não?", contou.>
O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) pediram na terça-feira explicações do governador do Rio de Janeiro sobre a operação policial, considerando, entre outros pontos, sua alta letalidade.>
Os órgãos pediram que o governo de Cláudio Castro demonstre se não havia "meio menos gravoso" — ou seja, menos violento — de atingir seus objetivos na segurança pública.>
Até o momento, não há inquérito instaurado para investigar possíveis abusos cometidos por policiais. O Ministério Público do Rio de Janeiro está fazendo uma "investigação independente" dos fatos relacionados à operação. >
Na quarta-feira, o delegado Felipe Curi afirmou que a Polícia Civil está instaurando inquérito para investigar moradores da Penha por fraude processual, pois, segundo ele, teriam tirado a roupa de combate de alguns dos corpos levados à Praça São Lucas. >
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