Publicado em 20 de outubro de 2025 às 15:32
A eleição da ex-ministra da Segurança Econômica, Sanae Takaichi, para a presidência do Partido Liberal Democrático (PLD), em 4 de outubro, pode ter aberto caminho para que ela se torne a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira‑ministra na história do Japão.>
A votação no Parlamento para escolher o sucessor do atual premiê, Shigeru Ishiba, está prevista para esta terça‑feira (21/10).>
Para vencer no primeiro turno, os candidatos precisam alcançar ao menos 233 votos na Câmara dos Deputados e 125 no Senado. >
Caso ninguém alcance essa maioria, haverá segundo turno entre os dois mais votados, e quem obtiver o maior número de votos será nomeado. Depois, o Imperador Naruhito precisa endossar a escolha — uma etapa que costuma ser apenas protocolar.>
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Takaichi entrou na disputa com uma base parlamentar fragilizada. O PLD detém 196 das 465 cadeiras na Câmara dos Deputados e, sem o apoio do aliado histórico Komeito (24 cadeiras), não alcançaria os 233 votos necessários.>
Por outro lado, a oposição também não possui maioria. O maior partido opositor, o Partido Democrático Constitucional (PDC), conta com 148 cadeiras e não conseguiu fechar candidatura única com outras siglas.>
"O cenário político atual é volátil, e há análises que afirmam que a alternância de poder está surgindo como uma possibilidade real. Mas se a oposição continuar dividida, o PLD tende a se manter no poder", avalia o cientista político Masaya Hiyazaki, diretor da Escola Política Cidadã de Yamanashi.>
Na segunda-feira (20/10), uma reviravolta acabou fazendo a balança pender novamente a favor de Takaichi: o Partido da Inovação (Ishin), com seus 35 assentos, decidiu integrar a coalizão do PLD, segundo noticiou a agência Reuters. >
Com isso, a provável futura premiê consegue chegar aos 228 assentos, com uma diferença para a maioria de 233 que ela deve, segundo analistas, conseguir superar sem grandes dificuldaes.>
Takaichi ascende com um perfil nacionalista e conservador, em um momento em que o Japão vê crescer o número de turistas e residentes estrangeiros, e as tensões sobre imigração entram no debate político. O tema foi colocado por ela entre suas pautas principais, propondo a criação de um centro de comando liderado diretamente pelo primeiro‑ministro para cuidar de questões relacionadas a estrangeiros.>
Em sua campanha no PLD, levantou a acusação — com base em relatos não verificados — de que turistas chutaram cervos no Parque de Nara, considerados sagrados na cultura japonesa. Políticos da oposição criticaram a fala, acusando Takaichi de fomentar a xenofobia.>
Em entrevista ao jornal Asahi Shimbun na véspera da eleição para comandar o PLD, ela defendeu que, ao propor um maior controle sobre estrangeiros, está respondendo a preocupações da população sobre segurança e respeito à cultura local. "Se o público está genuinamente se sentindo angustiado quanto a isso, precisamos encontrar um caminho para resolver essas preocupações. Não tem a ver com xenofobia ou exclusão.">
Segundo o professor Daisuke Onuki, da Faculdade de Estudos Globais da Universidade de Tokai, ideais populistas têm ganhando força no Japão, impulsionados por políticos de direita que se manifestam contra temas como a imigração. "Mas atrás desse medo da invasão dos estrangeiros, está um problema maior que é o enfraquecimento da economia, mais especificamente o da moeda, e a inflação. Entendo que o problema atual é resultado da política adotada pelo falecido premiê Shinzo Abe.">
O conjunto de políticas econômicas conhecido como Abenomics, implantado em 2013 para tirar o Japão da estagnação econômica, não conseguiu acabar com as diferenças de renda. Muitos japoneses não têm visto aumento em sua renda nos últimos 30 anos e ainda vivem em situações econômicas difíceis. Com o sentimento de insegurança sobre o futuro, os estrangeiros se tornaram um alvo fácil de críticas, o que fez com que a ideia de "prioridade para os japoneses" fosse aceita. >
"Atualmente, os partidos políticos estão adotando políticas que limitam os direitos dos estrangeiros, o que reflete essa tendência crescente", diz Onuki.>
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Dados de junho de 2025 divulgados pela Agência de Imigração revelam que o número de estrangeiros no Japão (com vistos temporários ou permanentes) aumentou 5% em relação ao ano anterior, totalizando 3,96 milhões de pessoas — mais de 3% da população total.>
O Brasil, que chegou a ocupar a terceira posição, forma hoje o sétimo maior grupo, com cerca de 211 mil residentes. O ranking é encabeçado pelos chineses (900 mil), seguidos de vietnamitas (660 mil), coreanos (409 mil), filipinos (349 mil), nepaleses (273 mil) e indonésios (230 mil).>
Mesmo com essa crescente diversidade, muitos estrangeiros relatam casos de discriminação sofridos no cotidiano.>
O brasileiro Sakai, engenheiro de automação industrial que vive no Japão há nove anos, relata ter enfrentado resistência para alugar um imóvel — apesar de ser filho de um japonês, ser fluente no idioma e trabalhar em uma multinacional europeia.>
"Só depois de cinco recusas, consegui uma casa. Se os japoneses não mudarem essa mentalidade etnocêntrica, o país não conseguirá avançar", diz ele, que prefere não divulgar seu nome completo por receio de discriminação.>
Com o aumento do turismo e da presença de imigrantes, também cresceu a desinformação nas redes sociais. Mensagens infundadas alegando que "estrangeiros cometem mais crimes", "recebem privilégios indevidos" ou "não pagam impostos" têm se multiplicado, alimentando um sentimento anti-imigração em parte da população.>
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Recentemente, a pauta migratória foi central também na surpreendente ascensão do partido ultranacionalista Sanseito. Em julho, com o slogan "Japan First" ("Japão Em Primeiro Lugar", semelhante ao bordão utilizado pelo presidente americano Donald Trump, que fala em "America First"), a sigla conquistou 14 das 125 cadeiras que estavam em disputa nas eleições para a Câmara Alta.>
Assim, sua bancada saltou de um parlamentar (cujo cargo não entrou em disputa) para 15. O partido atraiu eleitores jovens e conservadores descontentes com o PLD, promovendo um discurso abertamente anti-imigração.>
Diante do novo cenário, o Movimento Brasileiros Emigrados (MBE), em conjunto com outras 1.159 organizações, publicou em julho uma declaração de "emergência contra o incitamento à xenofobia".>
Miguel Kamiunten, cofundador do MBE, lembra que, em 1995, o Japão aderiu à Convenção Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. "Trinta anos depois, o discurso de ódio ainda é forte, e os movimentos xenofóbicos continuam crescendo, especialmente nas redes sociais", alerta.>
A retórica anti-imigrante contrasta com as demandas do mercado de trabalho japonês. Com uma população envelhecida e escassez de trabalhadores em setores essenciais, o governo espera atrair 820 mil estrangeiros nos próximos cinco anos por meio do visto de habilidades específicas.>
Este visto, criado em 2019, busca atrair profissionais de áreas com escassez de mão de obra. Ele já é utilizado por mais de 300 mil imigrantes, a maioria do Sudeste Asiático.>
Governadores e prefeitos de regiões com grande presença estrangeira têm se manifestado contra o endurecimento das políticas migratórias, alertando para os riscos econômicos. Mas essas vozes enfrentam resistência de parte da população, cada vez mais influenciada por discursos nacionalistas.>
Sob a perspectiva da revitalização regional, é necessário promover estrategicamente a aceitação de trabalhadores estrangeiros para conter a queda populacional nas regiões e reconstruir as comunidades locais, defendem especialistas. >
"Se a diminuição populacional continuar, o Japão não conseguirá se manter sem atrair estrategicamente estrangeiros e promover a convivência mútua. É essencial evitar que a sociedade japonesa siga, de forma imprudente, por um caminho xenofóbico", diz o cientista político Masaya Hiyazaki.>
Organizações educacionais também se preocupam com a disseminação do discurso nacionalista, como Japan First, entre crianças e jovens. Isto porque já houve diversos relatos de bullying contra alunos estrangeiros por conta de suas nacionalidades.>
Atsushi Funachi, membro da Associação Nacional de Pesquisa em Educação de Estrangeiros Residentes no Japão, defende maior vigilância nas escolas.>
"Quando adultos naturalizam um slogan como Japan First, as crianças tendem a reproduzi-los", alerta>
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