Publicado em 10 de março de 2026 às 16:09
Pouco depois da meia-noite de domingo (8/3), hora local, a TV estatal iraniana interrompeu sua programação normal para um anúncio incomum e emotivo.>
O apresentador confirmou a escolha de Mojtaba Khamenei, filho do ex-líder supremo do Irã, Ali Khamenei (1939-2026), para substituir seu pai.>
O anúncio veio apenas oito dias depois que Ali Khamenei foi morto na primeira onda de ataques aéreos israelenses e americanos ao Irã, no dia 28 de fevereiro — o primeiro dia da guerra atual entre o Irã, os Estados Unidos e Israel.>
Sua morte marcou o choque de liderança mais dramático da história da República Islâmica desde a sua criação, durante a revolução de 1979.>
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A escolha do líder supremo do Irã ocorreu a portas fechadas. A decisão fica a cargo da Assembleia de Peritos, um grupo de 88 membros clérigos xiitas. >
Seu papel constitucional é supervisionar a liderança da República Islâmica e selecionar o sucessor na vacância do cargo.>
Em tempos normais, este processo já é obscuro. Em meio a uma guerra e uma crise nacional, ainda mais.>
O público tem pouco conhecimento sobre Mojtaba Khamenei. Ele tem 56 anos e nunca foi eleito nem nomeado a nenhum cargo oficial dentro do Estado.>
Ele estudou teologia nos seminários da cidade sagrada de Qom, considerada um importante centro da teologia xiita.>
Por alguns anos, ele lecionou religião, um passo comum entre os clérigos que esperam, algum dia, atingir o cargo de aiatolá, um dos sábios líderes dos xiitas.>
As aulas teriam sido interrompidas no ano passado por sua própria iniciativa, sem explicações claras. Mas acredita-se que seu pai não quisesse que ele fosse visto como se preparando para assumir a liderança do país no futuro.>
Ali Khamenei relutava em envolver abertamente seus filhos em política ou em questões públicas, devido à sua rejeição a qualquer ideia de sucessão hereditária, após a retirada do trono da monarquia Pahlavi pela Revolução Islâmica de 1979.>
Mas, nos bastidores, Mojtaba Khamenei era considerado profundamente envolvido na administração do escritório do líder — a mais poderosa instituição do país, com influência em questões de inteligência, militares, comerciais e políticas.>
Analistas defendem que ele exercia silenciosamente considerável influência sobre a política iraniana.>
Mais evidências da sua suposta interferência na política do país surgiram durante a eleição presidencial iraniana de 2005, que levou ao poder o presidente Mahmoud Ahmadinejad.>
Muitos dentro do sistema político iraniano acreditam que o apoio de Mojtaba Khamenei durante a eleição de 2005 ajudou a mobilizar redes religiosas conservadoras e ligadas às forças de segurança para apoiar Ahmadinejad.>
O anúncio da segunda vitória eleitoral de Ahmadinejad, em 2009, gerou protestos em massa. Figuras da oposição contestaram os resultados, incluindo o ex-primeiro-ministro Mir-Hossein Mousavi.>
As manifestações receberam forte repressão, e Mousavi permanece em prisão domiciliar há mais de 16 anos.>
Ahmadinejad governou o Irã até 2013.>
As circunstâncias em torno da ascensão de Mojtaba dificilmente poderiam ser mais complexas.>
O Irã enfrenta um confronto militar direto com os Estados Unidos e Israel, enquanto ainda combate as consequências de um importante levante doméstico que buscava questionar o regime.>
Há mais de quatro décadas, a República Islâmica do Irã opera de acordo com uma clara lógica interna: existe forte concorrência entre facções políticas e instituições em níveis inferiores de poder, mas a palavra final sempre pertence ao líder supremo.>
A semana que se seguiu à morte de Ali Khamenei demonstrou simplesmente como o sistema depende desta estrutura. Sem um líder no poder, a tomada de decisões ficou paralisada e a incerteza se espalhou pelo sistema político.>
Ao se movimentar rapidamente para nomear Mojtaba, o sistema parece disposto a enviar um sinal claro: não houve mudanças fundamentais e, como dizem as autoridades de forma privada, "o trabalho continua como de costume".>
Mas aceitar um novo líder não é tão simples quanto anunciar um.>
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Nas horas que se seguiram ao anúncio, começou a crescer a pressão dentro do sistema.>
Instituições políticas e militares começaram a anunciar publicamente sua lealdade ao novo líder. E o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) chegou a ir mais além.>
Figuras importantes dentro da organização não só declararam obediência, mas também teriam se referido a Mojtaba como o novo "vice do Imã Oculto", uma poderosa expressão religiosa do discurso político xiita.>
Paralelamente, foram emitidos alertas a potenciais manifestantes, indicando que o aparato de segurança pretende reagir com firmeza a qualquer questionamento, quando Mojtaba Khamenei assumir o poder.>
Estas medidas pretendem demonstrar unidade no topo do Estado, mas também servem a outro propósito.>
Se as promessas de lealdade não forem claramente estabelecidas, a sucessão poderá criar a oportunidade de que facções políticas rivais ou críticos do sistema defendam mudanças. E os líderes parecem determinados a evitar que isso aconteça.>
Apesar da rápida consolidação do apoio da elite, o novo líder enfrenta sérias questões de legitimidade.>
Ao contrário de muitos clérigos experientes, Mojtaba Khamenei não é amplamente reconhecido nos círculos religiosos como aiatolá.>
A TV estatal aparentemente preencheu esta lacuna ao se referir imediatamente a ele como "aiatolá Mojtaba Khamenei". O título parece ter sido adotado da noite para o dia, por muitos daqueles que já declararam sua lealdade.>
Seu pai enfrentou questionamento similar em 1989, quando se tornou líder supremo sem as credenciais tradicionais. Mas existem importantes diferenças entre os dois.>
Ali Khamenei havia servido por quase uma década como presidente e tinha aliados poderosos em todo o sistema político. Já seu filho passou a maior parte da sua carreira fora da visão do público.>
Muitas das figuras que, um dia, formaram o círculo próximo de Ali Khamenei (comandantes sênior, chefes de inteligência e operadores políticos) foram mortas durante a Guerra dos 12 Dias, em 2025, ou nos ataques aéreos da semana passada que mataram o pai, a mãe e a esposa de Mojtaba Khamenei.>
Acreditou-se por vários dias que o próprio Mojtaba tivesse morrido naqueles ataques.>
Antes de formar a estratégia geral do Irã, o novo líder deve primeiro se estabelecer dentro da complexa estrutura de poder da República Islâmica.>
Isso significa emergir de décadas de discrição e demonstrar autoridade sobre comandantes militares recém-nomeados, facções políticas rivais e um sistema clerical que talvez não o aceite automaticamente.>
Paralelamente, ele precisa tomar decisões relativas a uma guerra contra dois dos exércitos mais poderosos do planeta, que também alertaram que podem atacar o novo líder.>
Entre o público em geral, a situação é ainda mais incerta. Muitas das pessoas que foram às ruas do Irã durante os recentes protestos esperavam que a morte de Ali Khamenei pudesse levar a um caminho político diferente.>
Mas, agora, eles enfrentam um novo Khamenei — mais jovem, talvez mais enérgico, mas fortemente associado às mesmas instituições de segurança que ajudaram a sustentar o governo do seu pai.>
Por enquanto, a República Islâmica tenta projetar estabilidade em uma época muito difícil. Mas será que Mojtaba Khamenei poderá transformar estas projeções em verdadeira autoridade?>
Esta é outra questão totalmente diferente, que pode definir não apenas o resultado desta guerra, mas o futuro do próprio Estado iraniano.>
A BBC News Persa é o serviço de notícias da BBC em língua persa, utilizado por 24 milhões de pessoas ao redor do mundo — a maioria no Irã — apesar de ser bloqueado e rotineiramente alvo de interferência pelas autoridades iranianas>
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