Publicado em 26 de outubro de 2025 às 12:33
"Todos os olhares estarão voltados para você", alertou em abril de 1770 a imperatriz da Áustria, Maria Teresa (1717-1780), à sua filha, a arquiduquesa Maria Antônia, durante as preparações para o seu casamento com o futuro rei Luís 16 da França (1754-1793), no Palácio de Versalhes.>
Mas o julgamento enfrentado pela rainha Maria Antonieta (1755-1793), como ficaria conhecida, foi muito mais cruel do que o que previra sua mãe. Ela foi vilipendiada como libertina, conspiradora e gastadora implacável. Manter seu estilo de vida estaria levando a França à bancarrota.>
Todas estas acusações precipitariam a Revolução Francesa (1789-1799), que culminou com um espetáculo raro e assustador: a execução pública da rainha.>
Nossa fascinação por Maria Antonieta nunca se esvaneceu, mas sua história é cada vez mais questionada.>
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Será que ela mereceu a rejeição ou terá sido encurralada e martirizada entre conflitos de interesse e destruída por mentiras?>
No dia 20 de setembro, o Museu Victoria & Albert, em Londres, abriu a exposição Marie Antoinette Style ("O Estilo de Maria Antonieta", em tradução livre).>
Sua curadora, Sarah Grant, considera Maria Antonieta "a rainha mais elegante, criticada e controversa da história".>
Para marcar os 270 anos de nascimento desta figura difamada, que rompeu os padrões da época, a exposição mostra seu senso de estilo e questiona alguns dos mitos associados à rainha.>
Um desses mitos é o famoso comentário apócrifo "que eles comam brioche", uma reação malcriada à devastadora falta de pão que ocorria na França.>
Ele foi atribuído a "uma grande princesa" em As Confissões, de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Mas o livro foi escrito em 1765, quando Maria Antonieta tinha 10 anos de idade e ainda estava na Áustria. Por isso, o comentário não pode ter vindo dela.>
Outras fake news surgiram na forma do "caso do colar de diamantes" (1785-1786), uma encomenda falsa de um colar com mais de 600 diamantes em nome da rainha, que solidificou sua fama de cometer excessos, apesar da justificativa durante seu julgamento.>
Uma réplica do colar, ao lado do colar Sutherland (que, supostamente, contém pedras do original) foi incluída na exposição.>
Outros objetos da exposição contam seu legado como formadora de opinião, como a opulência dos móveis franceses do século 19, que copiavam elementos do estilo da rainha; e os rebuscados sapatos cor-de-rosa do filme de Sofia Coppola, vencedor do Oscar de melhor figurino, Maria Antonieta (2006).>
Os sapatos foram criados por Manolo Blahnik — que confessa, na introdução do catálogo, que permanece "maravilhado por tudo o que se refira a ela".>
O extravagante estilo de vida da jovem rainha certamente era uma pedra no sapato dos pobres que passavam fome na França.>
Presa a um marido fraco e um tanto sem graça (mais interessado em caçar do que na rainha e, por sete anos, incapaz de consumar seu casamento por razões médicas), ela encontrou diversão em festas extravagantes, jogos e roupas.>
Seus vestidos caprichosamente decorados, com imensos suportes estruturais, coroados por cortes de cabelo ornamentais gigantescos, foram largamente copiados na época.>
Posteriormente, eles inspiraram estrelas do pop, como Madonna e Rihanna, além de estilistas como Vivienne Westwood (1941-2022), Christian Dior (1905-1957) e Franco Moschino (1950-1994).>
Mas seu apelido de "Madame Déficit" era injustificado.>
Ela gastava menos que os irmãos do rei e era apenas uma dentre uma sucessão de monarcas franceses extravagantes. Mas a rainha estrangeira se tornou um conveniente bode expiatório para a gestão dos fundos do governo francês.>
"Os gastos com as guerras é que, na verdade, levaram a França à falência, certamente não o dinheiro gasto por Maria Antonieta", declarou Grant à BBC.>
"O orçamento do seu guarda-roupa era o equivalente, hoje, a cerca de US$ 1 milhão [cerca de R$ 5,3 milhões], mas a França gastou US$ 11,25 bilhões [cerca de R$ 60 bilhões], só na Guerra da Independência Americana.">
Até a redução de gastos criou novos inimigos para a rainha.>
"Quando ela para de vestir seda, a indústria da seda entra em alvoroço porque a sobrevivência do negócio fica ameaçada", explica Grant.>
E, em 1783, quando ela tentou projetar uma imagem diferente, com um retrato seu em trajes "do campo" mais casuais, que ela viria a popularizar, ele foi rapidamente substituído por algo mais formal e elaborado.>
"Esperava-se que ela criasse um espetáculo majestoso", prossegue Grant. "É desta forma que a monarquia mantém sua autoridade.">
O folclore em torno dessa celebridade do início da era moderna também despreza sua filantropia.>
Maria Antonieta reciclava seu guarda-roupa todos os anos e o doava às suas funcionárias. Ela adotou diversas crianças, incluindo Jean Amilcar, originário do Senegal, que ela própria libertou da escravidão.>
A rainha também "recusou ofertas de presentes caros do seu marido" e "fez generosas doações para instituições de caridade", segundo a escritora Melanie Burrows, que escreveu extensamente sobre aquele período da história da França.>
Burrows defende que, longe de ser a "idiota de cabeça oca frequentemente retratada", ela era "bem intencionada, bondosa e generosa".>
Apresentada pela Áustria à corte francesa como uma oferenda de paz, após anos de hostilidade, a fidelidade dividida de Maria Antonieta mergulhava a rainha em suspeitas (nem todas infundadas) de que ela repassaria segredos militares para a Áustria.>
Ela também era considerada indiferente em relação ao povo francês. E referências pejorativas à rainha, como L'Autri-chienne (um jogo de palavras em francês, que unia os termos "austríaca" e "cadela"), exemplificam o tipo de desconfiança que marcava o sentimento público.>
Ao contrário do rei, a rainha não tinha poder oficial e sua função era permanecer à sombra.>
Maria Antonieta foi considerada proeminente demais, muito vivaz e disposta a usar seu charme para interferir em questões políticas. Ela fazia secretamente lobby com os ministros e se opunha às reformas constitucionais reivindicadas pelo país.>
Segundo seus inimigos, ela precisava ser deposta. Circulavam panfletos difamatórios, alguns deles pornográficos, acusando a rainha de promiscuidade, orgias, relações lésbicas e até de incesto.>
Mas seu único amante conhecido foi o conde Axel von Fersen (1755-1810).>
Todas essas fofocas eram "geradas pela misoginia", defende Grant. "Muitos dos mitos que permaneceram [...] surgiram no século 19, quando suas biografias [eram] escritas por homens.">
A rainha, na verdade, era bastante recatada, segundo Burrows. Ela raramente bebia, praticava apenas "flertes muito suaves" e "odiava ser vista nua, até mesmo pelas próprias criadas". Mas a hostilidade se mantia.>
No livro de 2020 Marie Antoinette's World: Intrigue, Infidelity and Adultery in Versailles ("O Mundo de Maria Antonieta: Intrigas, Infidelidade e Adultério em Versalhes", em tradução livre), Will Bashor especula que seu sangramento uterino crônico pudesse ter sido causado por alguma doença venérea.>
Mas o autor também defende que a rainha foi "abusada emocionalmente", "entediada" e "negligenciada". E, embora ele a considere culpada de buscar prazer fora do casamento, Bashor conclui que, pelo menos por ele, ela foi "perdoada".>
Na verdade, Maria Antonieta "era uma mãe dedicada", segundo a professora de História Europeia Moderna Laura O'Brien, da Universidade da Nortúmbria, no Reino Unido.>
Ela descreve a "conexão mais suave e emocional" que a rainha tinha com seus filhos, contrariando sua própria criação.>
Maria Antonieta foi a primeira rainha francesa a amamentar e a se vestir, como se observa no retrato rejeitado, de forma apropriada à maternidade e à vida no seu retiro rural.>
A longa fascinação pela rainha mais odiada da Europa também está relacionada à sua história de vida: uma noiva criança, de uma dinastia real, forçada a enfrentar uma situação impossível e, por fim, reduzida a uma figura trágica, em uma camisola branca, com seu cabelo raspado, levada de carroça até a morte.>
Para os revolucionários, ela se tornou um símbolo de tudo aquilo que a França precisava mudar. E sua execução, em 1793, tentou limpar o país do pior que havia no antigo regime.>
Fosse ou não justificada a morte de Maria Antonieta, ela não conseguiu sufocar sua influência. Surgiu a moda de cortes de cabelo curtos como "porco-espinho" e gargantilhas de tom vermelho-sangue, que relembram o corte da guilhotina.>
Os que acreditavam nas histórias ao seu redor a detestavam, mas ela também era imensa e persistentemente adorada.>
"Para mim, esta exposição é outro sonho realizado", comentou Blahnik em uma entrevista recente. "A recuperação de Maria Antonieta.">
A exposição Marie Antoinette Style (O Estilo de Maria Antonieta) está em cartaz no Museu Victoria & Albert de Londres, entre 20 de setembro de 2025 e 22 de março de 2026. O livro que acompanha a exposição foi publicado pela V&A Publishing.>
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.>
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