Publicado em 19 de setembro de 2025 às 14:33
Alguns franceses se irritaram nesta semana ao descobrir que o caos político do país virou alvo de piadas dos… italianos.>
Em menos de dois anos, a França teve cinco primeiros-ministros, feito político insuperável mesmo nos tempos de turbulência política italiana depois da Segunda Guerra Mundial (1939-45).>
Agora, o Parlamento francês — reconfigurado após a decisão do presidente Emmanuel Macron de convocar eleições antecipadas em julho de 2024 — enfrenta dificuldades para formar uma maioria capaz de aprovar o orçamento.>
A isso se soma uma greve geral de quinta-feira (19/09), convocada por sindicatos que se opõem às propostas orçamentárias apresentadas anteriormente.>
>
Centelhas de milhares de trabalhadores participaram da greve. Os organizadores disseram que 1 milhão de pessoas entraram em greve, enquanto o Ministério do Interior francês estimou esse número em 500.000, com 80.000 policiais mobilizados para protestos ligados à paralisação. Mais de 300 pessoas foram detidas em toda a França, segundo o Ministério do Interior.>
As greves ocorreram apenas uma semana depois de Sébastien Lecornu, um aliado próximo de Macron, ter sido nomeado primeiro-ministro após a queda do governo de François Bayrou, também escolhido por Macron.>
Jornais das cidades italianas de Roma e Turim exibiram uma distinta gioia maligna (alegria maliciosa) ao relatar eventos recentes na França.>
Entre eles, a humilhação do recém-destituído primeiro-ministro François Bayrou, os alertas sobre o aumento da dívida e a possibilidade de a economia francesa precisar de socorro do Fundo Monetário Internacional (FMI).>
Acima de tudo, porém, está o declínio do prestígio do presidente francês.>
"Então, onde está a grandeza agora?", questionou o jornal Il Messaggero, de Roma.>
O custo da dívida pública francesa neste ano é estimado em €67 bilhões (cerca de R$ 436,2 bilhões) — valor que consome mais recursos do que todos os ministérios, exceto Educação e Defesa.>
As previsões sugerem que até o final da década, esse gasto deve ultrapassar até mesmo esses dois setores, chegando a €100 bilhões (cerca de R$ 652 bilhões) ao ano.>
Na última sexta-feira, a agência de classificação Fitch rebaixou a dívida francesa, o que pode encarecer os empréstimos do governo francês, refletindo dúvidas crescentes sobre a estabilidade do país e a sua capacidade de pagar essa dívida.>
Deixa de ser apenas hipotética a possibilidade de ter que recorrer, de chapéu na mão, ao FMI para obter um empréstimo ou precisar da intervenção do Banco Central Europeu.>
Tudo isso em um contexto de turbulência internacional: guerra na Europa, distanciamento dos Estados Unidos, ascensão inexorável do populismo.>
Na última quarta-feira (10/09), houve um dia nacional de protestos organizado por um grupo chamado Bloquons Tout (Vamos Bloquear Tudo, em tradução livre). Dominado pela extrema esquerda, o protesto teve pouco impacto, exceto por alguns confrontos visíveis nas ruas.>
Mas o teste mais importante veio em 18/09, quando sindicatos e partidos de esquerda organizaram grandes manifestações contra os planos do governo.>
Para o veterano comentarista político Nicolas Baverez, "neste momento crítico, em que estão em jogo a própria soberania e liberdade da França e da Europa, o país se encontra paralisada pelo caos, pela impotência e pela dívida.">
O presidente Macron insiste que pode tirar o país dessa situação, mas restam apenas 18 meses de seu segundo mandato.>
Uma possibilidade é que os inerentes pontos fortes do país — riqueza, infraestrutura e resiliência institucional — permitam atravessar o que muitos consideram um ponto de virada histórico.>
Mas há outro cenário: a França pode sair permanentemente enfraquecida, à mercê de extremistas de esquerda e de direita, tornando-se um novo "homem doente da Europa". Esse apelido foi dado à Alemanha nos anos 1990 sob o peso da reunificação pós-queda do Muro de Berlim. Em geral, esse termo usado é para rotular as nações que atravessam dificuldades econômicas.>
Tudo isso remonta à dissolução desastrosa da Assembleia Nacional por Macron, no início do verão de 2024. Longe de criar uma base mais sólida para governar, o novo Parlamento ficou dividido em três partes: centro, esquerda e extrema-direita.>
Nenhum grupo isolado poderia formar um governo funcional, pois os outros dois se uniriam contra ele.>
Michael Barnier e, depois, François Bayrou passaram por alguns meses como primeiros-ministros, mas ambos naufragaram na questão central que desafia todos os governos: como o Estado deve arrecadar e gastar seu dinheiro.>
Bayrou, um centrista de 74 anos, fez da dívida francesa um totem, que agora é superior a €3 trilhões (cerca de R$18,8 trilhões), ou cerca de 114% do Produto Interno Bruto (PIB).>
Ele queria estabilizar os pagamentos cortando €44 bilhões (cerca de R$286,9 bilhões) do Orçamento de 2026.>
Bayrou foi derrubado quando os parlamentares de esquerda e extrema-direita se uniram em uma moção de confiança na semana passada. Pesquisas mostraram também que muitos eleitores também eram contrários às ideias do primeiro-ministro, como extinguir dois feriados nacionais para financiar aumentos no orçamento para a Defesa.>
A saída imediata de Emmanuel Macron foi confiar a um membro de seu círculo íntimo a tarefa de testar uma nova abordagem.>
Sébastien Lecornu, de 39 anos, nomeado primeiro-ministro na semana passada, é um normando de fala mansa que se tornou confidente presidencial em sessões noturnas de conversa e uísque no Palácio do Eliseu.>
Após a nomeação, Macron afirmou estar convencido de que "um acordo entre as forças políticas é possível, respeitando as convicções de cada um".>
Dizem que Macron valoriza a lealdade de Lecornu e o fato de que seu primeiro-ministro não é obcecado com o próprio futuro político.>
Depois das tensões com seus dois antecessores — os veteranos Michel Barnier e François Bayrou —, hoje o presidente e o primeiro-ministro estão alinhados.>
"Com Lecornu, basicamente significa que Macron é o primeiro-ministro", argumenta Philippe Aghion, economista que já assessorou o presidente e o conhece bem.>
"Macron e Lecornu são, essencialmente, um só.">
Macron quer que Lecornu promova uma mudança. De uma inclinação predominantemente política para a direita, Macron agora busca um acordo com a esquerda – especificamente com o Partido Socialista (PS).>
Por lei, Lecornu precisa apresentar um Orçamento até meados de outubro, que deve ser aprovado até o final do ano.>
A única forma, aritmeticamente, de conseguir isso é se seu bloco centrista receber apoio dos "moderados" à direita e à esquerda — ou seja, dos conservadores Republicanos (LR) e dos socialistas (PS).>
Mas o problema é: toda concessão feita a um lado aumenta a probabilidade de que o outro lado se retire.>
Por exemplo, os socialistas — que se sentem fortalecidos — exigem uma meta muito menor de redução da dívida. Eles defendem um imposto sobre empresários ultrarricos e a revogação da reforma da Previdência de 2023, de Macron, que elevou a idade de aposentadoria para 64 anos.>
Mas essas ideias são inaceitáveis para os Republicanos considerados pró-negócios, que ameaçaram votar contra qualquer Orçamento que inclua essas ideias.>
A principal federação de empregadores, Medef (Movimento das Empresas da França, em tradução livre), chegou a declarar que promoverá suas próprias "manifestações em massa" caso a resposta de Lecornu ao impasse orçamentário seja aumentar impostos.>
O momento torna a situação ainda mais intratável: a iminente saída de Macron torna improvável que qualquer lado faça concessões. Em março, ocorrerão importantes eleições municipais, seguidas pelas presidenciais em maio de 2027.>
Nos extremos do tabuleiro político estão partidos poderosos — o Rassemblement National (Agrupamento Nacional, o RN), à direita, e La France Insoumise (França Insubmissa, o LFI), à esquerda — que gritarão "traidor" ao menor sinal de compromisso com o centro.>
Para qualquer político relevante, pode haver, ainda, o instinto de reduzir ao mínimo absoluto o contato com o ativo que se esfarela rapidamente, Emmanuel Macron.>
A alternativa é o fracasso, e a renúncia de mais um primeiro-ministro.>
Esse é o cenário apocalíptico de Macron: outra dissolução levando a mais eleições que o Rassemblement National, de Marine Le Pen, pode vencer desta vez.>
Ou até — como alguns exigem — a renúncia do próprio Macron por seu papel na presidência do impasse.>
Ao analisar a França, sempre é possível adotar um tom menos "catastrofista". Afinal, o país já enfrentou crises no passado e sempre conseguiu sobreviver, e alguns enxergam aspectos a admirar na França de Macron.>
Para o ex-presidente dos Republicanos (LR) Jean-François Copé, "os fundamentos da economia francesa, incluindo o equilíbrio entre importações e exportações, continuam sólidos. Nosso nível de desemprego é tradicionalmente maior que o do Reino Unido, mas nada desastroso. Temos um alto nível de criação de empresas e crescimento melhor que o da Alemanha.">
Aghion, ex-assessor de Macron, também se mostra relativamente otimista. "Não estamos prestes a afundar, como a Grécia", afirma. "E o que Bayrou disse sobre a dívida foi um alerta eficaz.">
Mas, para outros, o estado mutável das relações mundiais torna tais observações excessivamente otimistas, se não complacentes.>
Segundo o economista Philippe Dessertine, diretor do instituto de finanças da Universidade Sorbonne (IHFI), "não podemos simplesmente ignorar a hipótese de intervenção do FMI, como fazem os políticos. É como se estivéssemos sobre um dique. Parece sólido o suficiente. Todos estão em cima dele, e continuam nos dizendo que é firme. Mas por baixo, o mar vai corroendo, até que um dia tudo desmorona de repente.">
"Infelizmente, é isso que acontecerá se continuarmos a não fazer nada.">
De acordo com Françoise Fressoz, do jornal Le Monde, "todos nós nos tornamos totalmente viciados em gastos públicos. Tem sido o método usado por todos os governos, de esquerda e direita, nos últimos cinquenta anos — para apagar os incêndios da insatisfação e comprar paz social".>
"Hoje, todos percebem que esse sistema já deu o que tinha que dar. Estamos no final do antigo Estado de bem-estar social. Mas ninguém quer pagar o preço ou enfrentar as reformas necessárias.">
O que acontece na França agora é a conjunção de várias crises ao mesmo tempo: política, econômica e social — e é isso que torna o momento tão significativo.>
Nas palavras do pesquisador Jérôme Fourquet, na semana passada, "é como uma peça incompreensível sendo encenada diante de um teatro vazio.">
Os eleitores são informados de que a dívida é uma questão de vida ou morte nacional, mas muitos não acreditam nisso ou não entendem por que deveriam ser eles a pagar.>
No centro de tudo está um homem que chegou ao poder em 2017 carregado de esperança, prometendo aproximar esquerda e direita, empresas e trabalhadores, crescimento e justiça social, eurocéticos e euroentusiastas.>
Após o mais recente fiasco, o contundente comentarista francês Nicolas Baverez chegou a uma conclusão devastadora no jornal Le Figaro: "Emmanuel Macron é o verdadeiro alvo do desdém popular e assume inteira responsabilidade por este naufrágio".>
"Como todos os demagogos, ele transformou nosso país em um campo de ruínas.">
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta