Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 09:09
Pessoas que interrompem o uso de canetas emagrecedoras, como Mounjaro ou Wegovy, podem recuperar os quilos perdidos até quatro vezes mais rápido do que aquelas que abandonam dietas convencionais e exercícios físicos, sugere uma nova pesquisa.>
Dados publicados na revista científica britânica British Medical Journal indicam que pessoas com sobrepeso perdem grandes quantidades de peso ao usar as injeções — cerca de um quinto do peso corporal —, mas, após a interrupção do tratamento, recuperam em média 0,8 kg por mês.>
Isso significa que elas retornam ao peso anterior ao tratamento em cerca de um ano e meio.>
"As pessoas que compram esses medicamentos precisam estar cientes do risco de rápida recuperação de peso quando o tratamento termina", alertou a pesquisadora Susan Jebb, da Universidade de Oxford (Reino Unido).>
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Jebb ressaltou que os resultados se baseiam em ensaios clínicos, e não em situações da vida real, e que mais estudos sobre os efeitos de longo prazo das novas injeções para emagrecimento são necessários.>
Os pesquisadores analisaram 37 estudos, com mais de 9 mil pacientes, para comparar as chamadas "canetas emagrecedoras" para perda de peso com dietas convencionais ou outros medicamentos.>
Apenas 8 dos 37 estudos avaliaram tratamentos com os novos medicamentos GLP-1, como Wegovy (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida). O período máximo de acompanhamento nesses estudos foi de um ano após a interrupção da medicação, de modo que os números são estimativas.>
Segundo os pesquisadores, quem opta apenas por dieta tende a perder menos peso do que com as injeções, mas a recuperação posterior ocorre de forma mais lenta, cerca de 0,1 kg por mês, embora haja variações.>
O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês) recomenda essas injeções (por meio de canetas) para pessoas com excesso de peso associado a riscos de saúde relacionados à obesidade, e não para quem deseja apenas emagrecer um pouco.>
Os médicos em geral prescrevem mudanças de estilo de vida, incluindo alimentação saudável e prática de exercícios físicos para ajudar as pessoas a manter o peso perdido.>
Muitos especialistas afirmam que o tratamento deve ser considerado para toda a vida, diante do risco de recaída.>
No Brasil, quatro doses de Mounjaro de 2,5 mg, a dose mais baixa, estão à venda nas farmácias por cerca de R$ 1.400. Ou seja, continuar o tratamento por um longo período também não é barato. Então, o que acontece quando você tenta parar?>
As pessoas que tentaram interromper o uso das injeções relatam a experiência como "um interruptor que liga e você fica instantaneamente faminto".>
Uma mulher disse: "Foi como se algo se abrisse na minha mente e dissesse: 'Coma tudo, vá em frente, você merece, porque não come nada há muito tempo'.">
Segundo Adam Collins, especialista em nutrição da Universidade de Surrey (Reino Unido), a forma como essas injeções atuam no cérebro e no corpo pode explicar por que a recuperação de peso se intensifica após a interrupção do tratamento.>
Elas imitam um hormônio natural chamado GLP-1, que regula a fome.>
"Fornecer artificialmente níveis de GLP-1 várias vezes acima do normal por um período prolongado pode fazer com que o organismo produza menos do seu próprio GLP-1 e também se torne menos sensível aos seus efeitos.">
"Isso não é um problema enquanto [a pessoa] está usando os medicamentos, mas, assim que esse 'reforço' de GLP-1 é retirado, o apetite deixa de ser controlado e a probabilidade de comer em excesso aumenta muito.">
Parar abruptamente, diz Collins, é um grande desafio.>
"Isso se agrava ainda mais quando a pessoa depende exclusivamente do GLP-1 para fazer o trabalho pesado… suprimindo artificialmente o apetite sem estabelecer mudanças alimentares ou comportamentais que ajudem no longo prazo.">
Segundo as estimativas mais recentes, cerca de 1,6 milhão de adultos no Reino Unido usaram essas injeções no último ano, em sua maioria adquiridas por meio de prescrições privadas, e não pelo sistema público de saúde (o NHS).>
Outras 3,3 milhões de pessoas afirmam ter interesse em usar as chamadas "injeções para emagrecer" no próximo ano, o que significa que 1 em cada 10 adultos no país já usou ou gostaria de usar esses medicamentos, segundo a entidade beneficente Cancer Research UK, com base em pesquisas nacionais representativas realizadas no primeiro trimestre de 2025.>
O uso foi duas vezes mais comum entre mulheres do que entre homens e mais frequente entre pessoas na faixa dos 40 e 50 anos.>
O professor Naveed Sattar, da Universidade de Glasgow (Reino Unido), afirmou que as injeções podem trazer benefícios adicionais à saúde por promoverem rápida redução de peso.>
"É plausível que, ficar mais magro por dois ou três anos, mesmo com uso de curto prazo das injeções, ajude a retardar danos às articulações, ao coração ou aos rins. Ensaios maiores e de mais longa duração serão necessários para responder a essa questão", disse Sattar.>
Mas acrescentou: "Mais importante: o uso contínuo desses medicamentos por três a quatro anos permite que as pessoas mantenham um peso significativamente mais baixo do que manteriam de outra forma, um benefício que geralmente não se observa com a perda de peso obtida apenas por mudanças de estilo de vida, em que muitos recuperam o peso ao longo do tempo.">
No Reino Unido, clínicos gerais e especialistas em manejo do peso do sistema público de saúde não estão autorizados a prescrever automaticamente Mounjaro e Wegovy, ainda que o paciente já tenha recebido esses medicamentos por meio de prescrição privada.>
Os medicamentos podem ser oferecidos a pessoas com maior necessidade clínica que atendam a critérios específicos, como a presença de problemas de saúde relacionados ao peso.>
Atualmente, não há limite de tempo definido para prescrições de Mounjaro no NHS, enquanto o Wegovy só pode ser prescrito por um período máximo de dois anos.>
No Brasil, Wegovy e Mounjaro são aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e podem ser prescritos por médicos no tratamento da obesidade. Em dezembro de 2025, a Anvisa ampliou a indicação do Wegovy, à base de semaglutida 2,4 mg, para incluir também o tratamento de gordura no fígado associada a inflamação.>
A tirzepatida (Mounjaro) passou a ser comercializada nas farmácias brasileiras no início de maio de 2025, embora sua liberação pela Anvisa tenha ocorrido ainda em outubro de 2023.>
Por enquanto, esses medicamentos não estão disponíveis na rede pública. Há discussões preliminares sobre uma eventual incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), mas, até lá, o tratamento exige desembolso próprio, com custo mensal superior a R$ 1,2 mil.>
Uma porta-voz da farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, disse que o uso de medicamentos para perda de peso precisa ser acompanhado de alimentação saudável, atividade física e acompanhamento médico.>
"Quando o tratamento é interrompido, o peso pode retornar, o que reflete a biologia da condição, e não falta de esforço.">
A farmacêutica Novo Nordisk, fabricante do Wegovy, afirmou: "Esses achados destacam a natureza crônica da obesidade e sugerem que o tratamento contínuo é necessário para manter as melhorias de peso e de saúde geral dos pacientes, de forma semelhante ao manejo de outras condições crônicas, como diabetes ou hipertensão.">
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