Publicado em 21 de março de 2025 às 07:44
A sensação de que o chocolate vendido pela grande indústria no Brasil piorou está na boca do povo e nas redes sociais. A chegada da Páscoa deu novo gás às reclamações de consumidores, que se queixam do sabor e dos preços dos ovos.>
Segundo especialistas ouvidas pela BBC News Brasil, a percepção de que o chocolate vendido em larga escala no país hoje "é pura gordura e açúcar" faz sentido e reflete fatores como a qualidade baixa do cacau utilizado e mudanças nas composições dos produtos para reduzir custos ao longo de décadas.>
As especialistas ouvidas também alertam que o cenário tem se agravado com a disparada do preço do cacau nos últimos dois anos. O valor da commodity chegou a quadruplicar atingindo o recorde de mais de US$ 10 mil dólares por tonelada, sob impacto de quebras de safra na África Ocidental, maior região produtora do mundo, devido a questões climáticas e pragas.>
Um exemplo da ira dos consumidores é o vídeo compartilhado no início de março no Instagram pela conta Nostalgia Pura (@nostalgiapuraaa1) sobre como os ovos de Páscoa seriam melhores e mais baratos em 1995. A postagem acumulou mais 1,3 milhão de visualizações em duas semanas e centenas de comentários reclamando que o produto de hoje não tem mais "chocolate de verdade".>
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"Nessa época chocolate era chocolate. Agora é só açúcar e gordura com sabor de chocolate ?", reclama um deles.>
"Estamos vivendo a era do 'ovo fake' ?. Tem formato de ovo, cheiro de ovo, saco de ovo, mas, quando você abre, o 'ovo é falso'", comentou outra pessoa.>
Outro alvo de polêmica é o aumento dos produtos "sabor chocolate", que levam menos de 25% de cacau na composição. Reclamações sobre a recente mudança na fórmula do Choco Biscuit, da Bauducco, viralizaram na virada do ano.>
O produto, que antes era composto de um biscoito com cobertura de chocolate ao leite ou meio amargo, passou a ser feito com cobertura "sabor chocolate ao leite" ou "sabor chocolate meio amargo".>
A mudança do nome indica que a cobertura deixou de ter em sua composição o mínimo de 25% de cacau exigido pela legislação brasileira para um produto ser chamado de chocolate — percentual já baixo para padrões internacionais, segundo especialistas entrevistadas.>
Na União Europeia, onde as regras são mais duras, o mínimo exigido é de 35% para chocolate em geral, e de 30% para chocolate ao leite.>
Um vídeo do consultor gastronômico Davi Laranjeira criticando o novo Choco Biscuit acumula mais de 8 milhões de visualizações e mais de 11 mil comentários no Instagram, desde 27 de dezembro.>
"Eles não cansam de fazer pegadinha, piorar os produtos, tentar te ludibriar, pra te vender produto de má qualidade", reclama.>
No vídeo, ele diz que esse tipo de produto não é exclusividade da Bauducco.>
"Também tá aqui ó: Choco Biscuit da Garoto, sabor chocolate ao leite. Que é o que? Uma base de gordura hidrogenada e puro açúcar com um pouquinho de cacau para dar sabor de chocolate, mas não é chocolate, não é saboroso, não faz bem pra sua saúde, não é de alta qualidade", continua.>
O sabor chocolate aparece também em outros produtos das grandes marcas, como biscoitos wafer e bombons. O clássico Serenata de Amor, da Garoto, é um exemplo, em que a cobertura não tem mais chocolate de verdade, assim como seu concorrente, o Sonho de Valsa, da Lacta.>
Especialistas em chocolate ouvidas pela BBC News Brasil dizem que a percepção de que houve uma piora na qualidade dos produtos da grande indústria está correta.>
"Sim, o chocolate piorou. Isso não é uma sensação, é realidade", afirma a engenheira de alimentos Luciana Monteiro, fundadora e diretora da Ara Cacao, uma consultoria para inovação em chocolates.>
Antes de se tornar consultora, Monteiro atuou dez anos em grandes empresas, como a multinacional Bunge, onde desenvolvia gorduras para substituir manteiga de cacau na produção de chocolates, e a suíça Barry Callebaut, uma das gigantes mundiais em processamento de cacau.>
Também se especializou academicamente na área, com mestrado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um ano como pesquisadora convidada na Universidade Estadual de Utah, nos Estados Unidos.>
Monteiro diz que a piora do produto é consequência de mudanças no processo de produção e nos insumos utilizados ao longo de décadas, em ações da indústria para reduzir custos.>
Esse processo, ressalta, começa com a crise que assolou as fazendas de cacau na Bahia há quarenta anos, quando uma praga, a vassoura-de-bruxa, fez a produção brasileira encolher quase 80% entre 1985 e 1999, de cerca de 449 mil toneladas ao ano para apenas 96 mil.>
Na época, o país era o segundo maior produtor mundial. Hoje é o sexto, com cerca de 300 mil toneladas de cacau ao ano, segundo a Organização Internacional do Cacau (ICCO)>
Os dois primeiros, Costa do Marfim e Gana, chegaram a produzir juntos quase três milhões toneladas de cacau na safra 2022/2023, mas a produção caiu 23% para 2,22 milhões toneladas na safra seguinte, segundo projeções iniciais da ICCO, o que impactou na disparada do preço recente.>
A crise da vassoura-de-bruxa, nota Monteiro, levou à piora da qualidade do cacau brasileiro.>
E, nesse contexto de menos oferta da matéria prima básica do chocolate, a exigência mínima de sólidos de cacau foi reduzida para 25%, como uma nova regulamentação adotada em 2005 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).>
Além do percentual baixo, a norma também dá flexibilidade aos tipos de sólido que podem ser utilizados para atingir o mínimo.>
"Em 2005, vem uma regulamentação que simplifica muito o que se pode chamar de chocolate. Esse sólido de cacau [para cumprir o mínimo de 25%] pode ser pó de cacau, manteiga de cacau e massa de cacau. Isso também é uma grande diferença da nossa indústria. O pó de cacau entra muitas vezes ali como um redutor de custo", explica.>
"Então, ele não tem a mesma performance [que a massa ou a manteiga], não tem o mesmo sabor, mas ele, dentro da legislação, tá incluso [no que pode ser usado]", continua.>
"E há também uma margem muito grande para gorduras substitutas da manteiga de cacau. Então, gorduras vegetais podem entrar na formulação sem problema nenhum, vai continuar sendo chamado de chocolate", disse ainda.>
Monteiro ressalta que isso viabilizou o crescimento da indústria no país. Mas, como a produção de cacau não se recuperou na mesma velocidade, a qualidade piorou.>
"Até início dos anos 1990, as fazendas cuidavam melhor do seu cacau, no processo de fermentação, de secagem. Então, tinha uma matéria-prima de maior qualidade", avalia.>
"Como a indústria se desenvolveu, cresceu, e a matéria-prima estava escassa, os critérios de qualidade foram muito reduzidos. Até porque a qualidade não é reconhecida. Se eu faço cacau de boa qualidade e você faz um cacau pior, a indústria vai pagar o mesmo para mim e para você. Não existe um incentivo para agregação de valor", destaca.>
Professora do curso de Lazer e Turismo da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do projeto de extensão Cacau e Cultura, Mariana Bueno também vê grande pressão na indústria por redução de custos e substituições nos insumos.>
A manteiga de cacau, nota ela, é um ingrediente importante para garantir que o chocolate derreta na temperatura da boca, que é de 37 graus.>
Como o insumo é demandado também pela indústria de cosméticos, esse é mais um fator que pressiona as empresas de chocolate a buscarem gorduras mais baratas.>
"O óleo de palma é um tipo de gordura vegetal usado em substituição à manteiga de cacau. Mas, muitas vezes, a indústria ainda substitui esse óleo de palma por óleo de palmiste, que é muito inferior. Então, é a substituição da substituição", exemplifica.>
"O cacau chegou a preços inimagináveis do ano passado pra cá. Em consequência, os produtos tendem a ter cada vez menos cacau, cada vez mais substituições", prevê.>
A cotação internacional quadruplicou em dois anos. Segundo monitoramento da Organização Internacional do Cacau, o valor médio mensal de uma tonelada do produto, que estava em US$ 2.587 em fevereiro de 2023, atingiu um pico de US$ 9.876 em abril do ano seguinte. Após um período de recuo e instabilidade, alcançou novo recorde em janeiro deste ano, US$ 10.709.>
Outro insumo que tem sido substituído pela indústria de chocolate é o leite. Na lista de ingredientes de produtos de grandes marcas, é fácil encontrar o permeado de soro de leite em pó e soro de leite em pó.>
Estudiosa do assunto há mais de uma década, Zélia Frangioni é autora do Chocólatras Online, que começou em 2014 como blog e hoje está presente nas principais redes sociais.>
Na sua visão, a piora do chocolate nas últimas décadas reflete um mercado muito competitivo no país e a demanda dos consumidores por produtos baratos. "As empresas tentam ganhar de qualquer jeito, fazem produtos cada vez mais doces".>
Em contraponto, ela diz que tem crescido a oferta de chocolates de excelente qualidade no Brasil, que seguem os princípios do movimento "bean to bar" [do grão à barra], método de produção que controla toda a cadeia produtiva, com cuidados especiais na plantação e processamento do cacau, inclusive ambientais e sociais.>
Além do cacau melhor, ressalta, esse tipo de chocolate é feito com poucos insumos, sem usar as substituições da grande indústria.>
"O cacau é igual às uvas dos vinhos. Então, dependendo da região onde ele foi plantado, como foi fermentado, como foi secado, você vai ter diferentes notas de sabores". explica.>
"Mas não é só uma questão sensorial, é também de sustentabilidade. O produtor do bean to bar paga muito melhor o produtor de cacau. Ele vai ser valorizado da forma justa", diz ainda.>
Todos esses cuidados, ressalta, impactam os preços.>
"Falando dos melhores chocolates no Brasil, você compra uma barra [de 80 gramas] por R$ 30 a R$ 35. É caro, sim, comparado com a barra de uma grande marca, que vai custar R$ 9 a R$ 10. É três, quatro vezes mais caro", compara.>
Em um país desigual e de renda média baixa como o Brasil, Frangioni sabe que o chocolate "bean to bar" não cabe em todos os bolsos. Por outro lado, ela vê esse produto como "um luxo acessível para a classe média".>
Uma boa troca, diz, é reduzir o consumo e investir na qualidade.>
"Eu prefiro comprar um chocolate de melhor qualidade e comer menos quantidade, mesmo porque chocolate em quantidade, não importa a qualidade, não vai fazer bem pra saúde. É para consumir com moderação", recomenda.>
"Então, escolha que tipo de chocolate você quer e o quanto você está disposto a pagar por isso. Tem os intermediários", reforça.>
Uma dica para identificar um bom produto, diz, é ler seu rótulo, pois os insumos são listados em ordem decrescente de quantidade — ou seja, os mais presentes aparecem primeiro.>
"O cacau tem que ser um dos principais ingredientes. O açúcar não deve ser o primeiro ingrediente. Chocolate Bom, não tem aromatizante. Por uma coisa muito simples, se você usa um cacau bom, você não precisa de aromatizante [que serve para realçar o sabor e o aroma dos alimentos]", orienta.>
Esse cuidado é importante inclusive com os chocolates mais caros.>
"Não tem como ter um chocolate bom e barato, mas não quer dizer que os chocolates caros sejam sempre bons. Às vezes é só marketing. Tem marcas muito chiques que você olha a lista de ingredientes e vê que não é ingrediente bom".>
Nutricionista do programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), Mariana Ribeiro reforça que o excesso de chocolate é prejudicial à saúde, ainda mais quando se trata de produtos ultraprocessados, que usam muitos aditivos, como espessantes, emulsificantes, corantes e aromatizantes.>
"Essas substâncias aumentam a incidência de diabetes, obesidade e hipertensão", alerta.>
Ela também recomenda especial atenção ao rótulo porque, muitas vezes, as embalagens podem confundir o consumidor. Produtos sabor chocolate, por exemplo, costumam trazer essa informação sem destaque, em letras pequenas.>
"Muitas vezes o produto está de acordo com as regras de rotulagem e informam que é sabor chocolate, ou sabor outra coisa. Mas, por outro lado, também vemos jogos de palavras, uma comunicação visual muito semelhante [ao chocolate real]. Isso pode levar o consumidor ao engano em relação às características daquele produto", reforça.>
A BBC News Brasil encontrou diversos produtos "sabor chocolate" vendidos na internet com comunicação pouco clara sobre a composição do produto.>
O Choco Biscuit da Garoto, por exemplo, é vendido em sites de grades varejistas como "Biscoito + Chocolate". Procurada, a Nestlé, dona da Garoto, não se pronunciou.>
Procurada pela reportagen, a Pandurata Alimentos, dona da Bauducco, diz que a mudança do Choco Biscuit para sabor chocolate buscou "equilibrar qualidade e acessibilidade".>
A empresa ressaltou que a alteração foi comunicada nas embalagens, conforme previsto na legislação.>
"Em um contexto de pressão inflacionária, especialmente nos custos do cacau, a Pandurata Alimentos reforça sua responsabilidade de garantir o acesso ao seu portfólio", disse a empresa.>
"O estudo encomendado pela marca mostrou que, considerando todas as métricas avaliadas, a receita atingiu 99% de performance comparativa à receita original entre os consumidores habituais do produto", afirmou ainda a dona da Bauducco.>
A reportagem também entrou em contato com a Nestlé, dona da Garoto, e a Mondelez, dona da Lacta, mas não obteve retorno. >
Já a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab) ressaltou em nota à reportagem que a indústria oferta uma variedade de produtos, com diferentes percentuais de cacau, para escolha do consumidor.>
"A preferência nacional é o chocolate ao leite, mas os produtores têm feito composições com frutas, castanhas, amendoim, pistache. A Anvisa estabelece que um produto, para ser considerado chocolate, tenha, no mínimo 25%, de cacau. Mas, todas as indústrias oferecem produtos com mais intensidade de cacau e menos açúcar", diz a nota.>
"Ano passado, foram colocados 611 itens no mercado nessa época de Páscoa. 115 deles foram lançamentos. Gramaturas diferentes, barras, coelhinhos. A indústria se adapta ao gosto do consumidor e ao poder de compra de cada camada da população", continuou a Abicab.>
A associação também destacou que a Organização Internacional do Cacau (ICCO na sigla em inglês) concedeu ao chocolate brasileiro o certificado de 100% de aroma e sabor. >
O certificado, porém, só atesta a qualiade do cacau fino exportado pelo Brasil, não analisando a qualidade do cacau produzido em larga escala. >
Segundo publicação do governo brasileiro de 2022, apenas 3% da produção de cacau brasileira é do tipo fino. >
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