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Os segredos sobre a saúde da mulher escondidos no sangue da menstruação

Os segredos sobre a saúde da mulher escondidos no sangue da menstruação

Desde endometriose e câncer cervical até diabetes e distúrbios da tireoide, os cientistas estão descobrindo que o sangue menstrual oferece uma visão sobre o bem-estar das mulheres

Publicado em 28 de março de 2026 às 20:31

Imagem BBC Brasil
null Crédito: Serenity Strull/ BBC

Como muitas mulheres que menstruam, Emma Backlund preferia não pensar muito sobre o sangue que perdia todos os meses.

Mas, quando a startup de biotecnologia NextGen Jane pediu seu sangue menstrual em 2023, Backlund prontamente guardou oito absorventes internos de um ciclo e os enviou pelo correio para o laboratório da empresa em Oakland, na Califórnia.

Claro, era um pedido incomum, mas relativamente simples — e ela ficou mais do que feliz em ajudar, especialmente se isso significasse que outras meninas no futuro poderiam evitar o sofrimento que ela enfrentou ao crescer.

"Quando eu tinha 11 anos, tive minha primeira menstruação e achei que estava morrendo", diz Backlund, uma estudante de pós-graduação de 27 anos, de Minnesota, nos Estados Unidos. "Lembro de dizer para minha mãe que eu precisava ir ao hospital. E praticamente todas as menstruações que tive desde então foram assim. Eu vomitava todo mês. Perdia atividades sociais e aulas. Era uma dor ardente, lancinante, dilacerante, que não passava."

Backlund levou 13 anos para descobrir que tinha endometriose, um distúrbio crônico e debilitante no qual o tecido que reveste o útero começa a crescer fora dele.

A endometriose faz com que 190 milhões de pessoas no mundo — cerca de um décimo das mulheres em idade reprodutiva — sofram com menstruações intensas, dor pélvica agonizante, problemas urinários ou intestinais e até infertilidade.

O pior é que o diagnóstico costuma levar entre cinco e 12 anos, como aconteceu com Backlund. A confirmação exige uma laparoscopia, um procedimento médico no qual uma pequena câmera é inserida na cavidade pélvica, explica Ridhi Tariyal, cofundadora e diretora-executiva da NextGen Jane.

É por isso que Tariyal e outros líderes de startups inovadoras estão trabalhando para desenvolver um teste diagnóstico melhor — que promete ser mais rápido, mais barato e menos invasivo do que a cirurgia, e que pode revelar muito mais do que apenas o diagnóstico de endometriose.

O segredo, acreditam eles, está no sangue menstrual.

Uma mina de ouro médica

A análise de amostras de urina por médicos remonta aos tempos da Babilônia e da Suméria, há cerca de 6 mil anos. As fezes e o sangue venoso passaram a ser estudados um e dois séculos atrás, respectivamente.

Mas o sangue menstrual nunca recebeu muita atenção clínica. Ainda assim, trata-se de um fluido complexo: metade dele é sangue comum, enquanto o restante é composto por proteínas, hormônios, bactérias, tecido endometrial e células eliminadas da cavidade vaginal, do colo do útero, das trompas de falópio, dos ovários, entre outras partes.

"Você tem acesso a tipos de células e outras assinaturas moleculares que simplesmente não aparecem no sangue total, na saliva ou em outros tipos de amostras", diz Tariyal. "É essencialmente uma biópsia natural, que oferece informações sobre os órgãos reprodutivos."

A empresa dela, a NextGen Jane, envia absorventes internos de algodão especialmente desenvolvidos para voluntárias como Backlund e já analisou mais de 2 mil amostras menstruais de mais de 330 mulheres desde sua fundação, em 2014.

Imagem BBC Brasil
Pesquisas iniciais da NextGen Jane identificaram possíveis ligações entre a saúde do útero e o envelhecimento Crédito: NextGen Jane

"Você pode usar [o sangue menstrual] para investigar qualquer condição que afete o útero — e são muitas", diz Christine Metz, bióloga reprodutiva dos Feinstein Institutes for Medical Research, da Northwell Health, nos Estados Unidos.

Metz começou estudando o sangue menstrual para identificar biomarcadores de endometriose há mais de uma década, mas agora também quer entender se esse fluido pode oferecer pistas sobre outras condições, como câncer de endométrio, adenomiose — quando o revestimento do útero cresce para dentro da parede uterina — e endometrite, que é uma inflamação persistente do endométrio.

"O fluxo menstrual tem muito valor para compreender a saúde do útero, algo que não conseguimos acessar por outros meios", afirma Metz. "É um material biológico muito único."

Um estudo, por exemplo, identificou 385 proteínas encontradas exclusivamente no sangue menstrual.

Além de estar disponível mensalmente, outra grande vantagem é que o sangue menstrual oferece uma visão mais completa da saúde do útero em comparação com a pequena fração de tecido retirada em uma biópsia endometrial.

"O útero tem aproximadamente o tamanho de uma toranja, então uma biópsia endometrial não fornece uma avaliação global", explica Metz, que pede às voluntárias de seus estudos que coletem amostras com um coletor menstrual. "Já o fluxo menstrual corresponde a todo o endométrio eliminado."

Uma busca por biomarcadores específicos

Como o sangue menstrual foi por muito tempo negligenciado pela pesquisa científica, ainda não está claro se a endometriose possui biomarcadores exclusivos suficientemente confiáveis para um teste diagnóstico. Mas Metz e seu parceiro de pesquisa, o geneticista Peter Gregersen, já estudaram mais de 3.700 mulheres — com resultados promissores até agora.

"Há muitas diferenças", diz Metz. Para começar, mulheres com diagnóstico de endometriose têm uma quantidade muito menor de células "natural killer" uterinas — células do sistema imunológico que desempenham um papel importante no início da gravidez, ao facilitar a implantação do embrião, o desenvolvimento da placenta e a proteção contra infecções.

"Elas estão ligadas à fertilidade, então ter poucas dessas células não é algo bom", afirma Metz.

A equipe dela também identificou uma diferença importante nas células fibroblásticas do estroma, que ajudam a reparar e regenerar o revestimento do útero após cada menstruação. Quando havia endometriose, essas células apresentavam mais marcadores inflamatórios e tinham menor capacidade de induzir as mudanças que preparam o útero para a gravidez.

Esse último fator também tem sido associado a outras condições, como a síndrome dos ovários policísticos (SOP) e abortos recorrentes.

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O estudo do sangue menstrual pode ser útil para prever o risco de desenvolvimento de doenças futuras, como o diabetes Crédito: Serenity Strull/ BBC

O laboratório de Metz também descobriu que a expressão de certos genes está alterada em pacientes com endometriose. Em conjunto, essas diferenças são o que os médicos poderiam buscar em um teste diagnóstico alternativo e não invasivo baseado na análise do sangue menstrual.

Metz espera solicitar aprovação da Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, para um kit de diagnóstico domiciliar em algum momento de 2027.

Já os pesquisadores da NextGen Jane estão extraindo e sequenciando o RNA mensageiro (mRNA) do sangue menstrual para identificar biomarcadores específicos da endometriose.

Até agora, eles identificaram alguns marcadores que acreditam conseguir diferenciar de forma confiável casos de endometriose de casos saudáveis em mulheres com infertilidade.

Um estudo nos Estados Unidos, envolvendo centenas de mulheres com endometriose, está em andamento para confirmar esses achados, diz Tariyal. Em maio de 2025, a NextGen Jane recebeu um financiamento de US$ 2,2 milhões (£1,62 milhão) para validar clinicamente um teste menstrual para endometriose em pacientes com infertilidade.

Não apenas saúde reprodutiva

Mas o sangue menstrual pode ser útil para além da endometriose. O trabalho da NextGen Jane, por exemplo, já apontou possíveis ligações entre a saúde do útero e o envelhecimento.

"São dados iniciais", diz Tariyal, mas há "claramente uma tendência" entre a queda dos níveis de estrogênio no corpo — que define o envelhecimento — e a menstruação.

As observações da equipe também sugerem que o sangue menstrual pode, no futuro, ajudar a identificar doenças do sistema imunológico, como hipo ou hipertireoidismo, em que a glândula tireoide libera quantidades insuficientes ou excessivas dos hormônios que regulam o metabolismo, a tiroxina e a triiodotironina.

"Acontece que pessoas com endometriose frequentemente também têm alguma condição autoimune", afirma Tariyal.

Como o corpo passa de um estado de inflamação para um processo de cicatrização sem formação de cicatriz ao longo do ciclo menstrual, estudar o sangue menstrual pode oferecer um novo modelo para compreender doenças inflamatórias e mediadas pelo sistema imunológico, como artrite reumatoide, lúpus e esclerose múltipla, acrescenta Tariyal.

Imagem BBC Brasil
Pesquisadores acreditam que o sangue menstrual pode ajudar no diagnóstico de uma série de problemas de saúde que afetam as mulheres, incluindo a endometriose Crédito: Getty Images

O sangue menstrual também tem se mostrado útil para detectar diabetes. Em estudos de 2021 e 2024, pesquisadores da startup Qvin, sediada na Califórnia, descobriram que a média de glicose medida no sangue menstrual refletia de forma confiável os níveis de açúcar no sangue no corpo como um todo.

Esses resultados abriram caminho para o primeiro — e até agora único — teste de glicemia com sangue menstrual aprovado pela FDA, lançado em 2024: um absorvente higiênico chamado Q-Pad, que possui uma tira removível para coletar o sangue e que as usuárias enviam pelo correio para os laboratórios da Qvin para análise.

A Qvin também demonstrou, em um estudo de 2022 realizado na Tailândia, que amostras coletadas com seu absorvente patenteado foram mais eficazes na detecção de cepas de alto risco do papilomavírus humano (HPV) — que podem aumentar o risco de câncer do colo do útero — em comparação com o exame de Papanicolau tradicional. Um estudo mais amplo para validar esses resultados está em andamento nos Estados Unidos.

A partir deste ano, esse ensaio também vai investigar se o Q-Pad pode ser usado para rastrear infecções sexualmente transmissíveis, como clamídia e gonorreia, diz Mads Lillelund, co-CEO da Qvin.

Na sequência, Lillelund espera avançar para a análise de outros marcadores de saúde, como hormônios da tireoide e reprodutivos, marcadores inflamatórios e até anticorpos que indicam resposta imunológica ao SARS-CoV-2.

De forma semelhante, a startup theblood, com sede em Berlim, está atualmente validando um kit de testes para ajudar a prever endometriose, menopausa precoce, síndrome dos ovários policísticos (SOP) e problemas de fertilidade.

A revolução menstrual

Apesar desses avanços, muito sobre o sangue menstrual ainda permanece um mistério. O principal deles, segundo muitos pesquisadores, é que ainda não foram identificados todos os seus componentes — nem como eles podem mudar rapidamente ao longo da menstruação.

A pesquisa ainda está em estágio inicial, em grande parte por causa dos estigmas culturais que cercam o tema.

"Fomos todos ensinados a tratar isso como um tabu, algo sobre o qual nem se deve falar", diz Metz.

A situação é agravada pelo histórico viés em favor de homens na pesquisa médica e pela relativa falta de financiamento para estudos sobre saúde feminina. Globalmente, pesquisas nessa área representaram apenas 5% do financiamento mundial de pesquisa e desenvolvimento em 2020.

"A maior parte da descoberta de medicamentos foi feita principalmente com homens, possivelmente homens brancos, com pouca diversidade étnica ou de gênero", afirma Lillelund. "Gasta-se mais dinheiro com calvície masculina do que com endometriose."

Muitas mulheres, incluindo Backlund, que convivem com a realidade dolorosa da endometriose e de outras condições uterinas, dizem que esse tipo de pesquisa já deveria ter avançado há muito tempo.

Crescer com menstruações dolorosas e sem entender o que estava acontecendo "foi muito solitário e isolador", diz Backlund.

Mas, se os pesquisadores conseguirem desenvolver um teste diagnóstico não invasivo com base no sangue menstrual, ela espera que a próxima geração de meninas receba tratamento mais rapidamente — e evite o sofrimento físico e emocional que ela enfrentou ao longo da vida.

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