Publicado em 31 de outubro de 2025 às 11:33
Shirley Chung tinha apenas um ano de idade quando foi adotada por uma família americana, em 1966.>
Nascida na Coreia do Sul, seu pai biológico era membro das forças armadas dos Estados Unidos e voltou para casa pouco depois de seu nascimento. Incapaz de lidar com a situação, a mãe biológica de Shirley a colocou em um orfanato na capital sul-coreana, Seul.>
"Ele nos abandonou — é a forma mais gentil de dizer", conta Shirley, hoje com 61 anos.>
Cerca de um ano depois, ela foi adotada por um casal americano, que a levou para o Texas.>
>
Shirley cresceu levando uma vida parecida com a de muitos jovens americanos. Frequentou a escola, tirou carteira de motorista e trabalhou como bartender.>
"Eu saía, respirava e me metia em encrenca como qualquer adolescente americano dos anos 80. Sou uma criança dos anos 80", diz ela.>
Shirley teve filhos, se casou e se tornou professora de piano. Durante décadas, viveu sem motivos para duvidar de sua identidade americana.>
Mas, em 2012, seu mundo desabou.>
Ela perdeu o cartão da Previdência Social (Social Security) e precisou solicitar uma nova via. Quando foi ao escritório local, disseram que precisava comprovar sua situação no país. Foi então que descobriu que não tinha cidadania americana.>
"Tive uma espécie de colapso mental quando descobri que não era cidadã", conta.>
Shirley não está sozinha. Estimativas sobre quantas pessoas adotadas nos Estados Unidos não têm cidadania variam entre 18 mil e 75 mil. Alguns adotados por famílias americanas nem sequer sabem que não possuem cidadania norte-americana.>
De acordo com o Adoptee Rights Law Center, dezenas de pessoas adotadas foram deportadas para seus países de origem nos últimos anos.>
Um homem nascido na Coreia do Sul, adotado ainda criança por uma família americana — e posteriormente deportado ao seu país de nascimento por ter antecedentes criminais — tirou a própria vida em 2017.>
As razões pelas quais tantos adotados não têm cidadania são diversas. Shirley culpa seus pais por não terem finalizado corretamente a papelada quando ela chegou aos Estados Unidos. >
Ela também responsabiliza o sistema escolar e o governo por não terem alertado sobre a ausência de sua cidadania.>
"Culpo todos os adultos da minha vida que simplesmente deixaram passar e disseram: 'Ela está na América agora, vai ficar tudo bem.'>
Bem... vai mesmo ficar tudo bem?">
Outra mulher, que pediu anonimato por medo de atrair a atenção das autoridades, foi adotada por um casal americano vindo do Irã em 1973, quando tinha dois anos de idade.>
Crescendo no meio-oeste dos Estados Unidos, ela enfrentou alguns episódios de racismo, mas, em geral, teve uma infância feliz.>
"Sempre entendi que eu era cidadã americana. Foi o que me disseram. E ainda acredito nisso hoje", conta.>
Mas tudo mudou quando, aos 38 anos, ela tentou tirar um passaporte e descobriu que as autoridades de imigração haviam perdido documentos essenciais que comprovavam sua cidadania.>
Isso aprofundou ainda mais seu conflito com a própria identidade.>
"Pessoalmente, não me classifico como imigrante. Eu não vim para cá como uma imigrante, com uma segunda língua, uma cultura diferente, familiares, laços com o país onde nasci… minha cultura foi apagada", diz.>
"Disseram que eu tinha todos esses direitos como americana — de votar e participar da democracia, de trabalhar, estudar, criar uma família, ter liberdades — todas essas coisas que os americanos têm.">
"E, de repente, começaram a nos empurrar para a categoria de imigrantes, simplesmente porque nos deixaram de fora da legislação. Deveríamos todos ter direito à cidadania, igualmente, porque isso foi prometido nas políticas de adoção.">
Durante décadas, adoções internacionais aprovadas por tribunais e agências governamentais não garantiam automaticamente a cidadania americana. Os pais adotivos às vezes não conseguiam assegurar o status legal ou a naturalização de seus filhos.>
O Child Citizenship Act de 2000 trouxe algum avanço, concedendo cidadania automática a adotados internacionais. >
Mas a lei só valia para futuras adoções ou para aqueles nascidos após fevereiro de 1983. Quem chegou antes dessa data não recebeu cidadania, deixando dezenas de milhares em situação de limbo.>
Defensores têm pressionado o Congresso a remover o limite de idade, mas esses projetos de lei não avançaram na Câmara.>
Algumas pessoas, como Debbie Principe, cujos dois filhos adotivos têm necessidades especiais, passaram décadas tentando garantir a cidadania de seus dependentes. Ela adotou duas crianças de um orfanato na Romênia na década de 1990, depois de vê-las no documentário Shame of a Nation (Vergonha de uma Nação, na tradução livre) — sobre o abandono de crianças em orfanatos após a Revolução Romena de 1989, que chocou o mundo ao ser exibido.>
O mais recente pedido de cidadania de Debbie foi negado em maio, seguido de um aviso de que, se a decisão não fosse contestada em 30 dias, ela teria que entregar a filha às autoridades de imigração, contou ela.>
"Teremos sorte se elas não forem detidas e deportadas para outro país que nem é o país de origem delas", disse Principe.>
Esses receios para os adotados e suas famílias aumentaram ainda mais desde que o presidente Donald Trump voltou à Casa Branca, com a promessa de remover "prontamente todos os estrangeiros que entrem ou permaneçam em violação da lei federal".>
No mês passado, a administração Trump afirmou que "dois milhões de estrangeiros ilegais deixaram os Estados Unidos em menos de 250 dias, incluindo cerca de 1,6 milhão que se auto-deportaram voluntariamente e mais de 400 mil deportações".>
Enquanto muitos americanos apoiam a deportação de imigrantes ilegais, alguns casos geraram grande polêmica.>
Em um deles, 238 venezuelanos foram deportados pelos EUA para uma prisão de segurança máxima em El Salvador. Eles foram acusados de pertencer à gangue Tren de Aragua, embora a maioria não tivesse antecedentes criminais.>
No mês passado, autoridades americanas detiveram 475 pessoas — mais de 300 delas cidadãos sul-coreanos — que, segundo o governo, trabalhavam ilegalmente na fábrica de baterias da Hyundai, um dos maiores projetos de investimento estrangeiro na Geórgia. Os trabalhadores foram levados algemados e acorrentados, provocando indignação em seu país de origem.>
Grupos de defesa dos direitos de adotados dizem ter sido inundados com pedidos de ajuda desde o retorno de Trump, e alguns adotados entraram em esconderijo.>
"Quando os resultados da eleição saíram, começou a realmente se multiplicar o número de pedidos de ajuda", disse Greg Luce, advogado e fundador do Adoptee Rights Law Center (Centro Legal de Direito dos Adotados), acrescentando que já recebeu mais de 275 solicitações.>
A adotada do Irã, que chegou nos anos 1970, disse que passou a evitar certas áreas, como seu supermercado iraniano local, e compartilha um aplicativo com suas amigas para que elas sempre saibam onde ela está, caso seja "capturada".>
"No fim das contas, eles não se importam com sua história. Não se importam que você está legalmente aqui e que se trata apenas de um erro de documentação. Sempre digo às pessoas que esse único pedaço de papel basicamente arruinou minha vida", afirmou.>
"Do meu ponto de vista agora, me sinto apátrida.">
O Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security) não respondeu a um pedido de comentário.>
Apesar de os adotados terem sido deixados em limbo por décadas, Emily Howe, advogada de direitos civis e humanos que trabalhou com adotados em todo os EUA, acredita que se trata apenas de uma questão de vontade política, capaz de unir pessoas de todo o espectro político.>
"Deveria ser uma solução simples: crianças adotadas deveriam ter os mesmos direitos que seus irmãos biológicos cujos pais eram cidadãos americanos na época do nascimento", disse Howe.>
"Os requerentes têm dois, três ou quatro pais cidadãos americanos e agora estão na casa dos 40, 50 ou 60 anos. Estamos falando de bebês e crianças pequenas que foram enviados para o exterior sem culpa própria e legalmente admitidos sob a política dos EUA", acrescentou.>
"São pessoas que literalmente tiveram a promessa de que seriam americanos quando tinham dois anos de idade.">
Shirley gostaria de poder levar o presidente americano a uma sala para que ela e outros como ela pudessem contar suas histórias.>
"Eu pediria que ele tivesse compaixão. Não somos estrangeiros ilegais", disse.>
"Fomos colocados em aviões quando éramos bebês minúsculos. Apenas ouçam nossa história e, por favor, cumpram a promessa que a América deu a cada um desses bebês que embarcaram nesses aviões: a cidadania americana.">
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta