Publicado em 7 de abril de 2025 às 08:39
Eles querem conhecê-los, protegê-los, mas sem falar com eles, nem olhá-los nos olhos. Eles estão na Amazônia, e entrar em contato com eles não é uma opção.>
Diante deste desafio, especialistas usaram armadilhas fotográficas — câmeras que são ativadas pelo movimento — para obter uma imagem de um povo indígena que vive no Estado de Rondônia, perto da fronteira com a Bolívia.>
Eles são chamados de Massaco, mas os pesquisadores não sabem como eles se identificam. O nome Massaco vem do rio que atravessa suas terras.>
"A Terra Indígena Massaco foi o primeiro território indígena demarcado exclusivamente para povos isolados", explicou Janete Carvalho, diretora de Proteção Territorial da Fundação Nacional do Índio (Funai), à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.>
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A Funai trabalha há décadas para proteger estas terras, e impedir que seus habitantes sejam contatados.>
Altair Algayer, coordenador da Funai nesta região, se dedica há 30 anos a esta missão.>
"Agora, com fotografias detalhadas, é possível perceber a semelhança com o povo Sirionó, que vive na margem oposta do Rio Guaporé, na Bolívia", observou Algayer em uma reportagem publicada no jornal britânico The Guardian.>
"Mas ainda não conseguimos determinar quem eles são. Há muita coisa que continua sendo um mistério", ele acrescentou.>
A Funai compartilhou com a BBC News Mundo as imagens capturadas em fevereiro de 2024, além de outras registradas quando os Massaco já haviam abandonado completamente os assentamentos temporários.>
Para obter estas fotos, os especialistas usaram não apenas o conhecimento adquirido sobre os movimentos sazonais da comunidade, mas também imagens de satélite.>
A reportagem do Guardian, intitulada Photographs reveal first glimpse of uncontacted Amazon community ("Fotografias revelam a primeira visão de uma comunidade amazônica isolada, em tradução livre), foi escrita por John Reid, coautor do livro Ever Green: Saving Big Forests to Save the Planet ("Sempre verde: Salvando as grandes florestas para salvar o planeta", em tradução livre), e Daniel Biasetto, editor do jornal O Globo.>
Ambos escreveram outra reportagem, também publicada em dezembro, no jornal britânico: New images show Brazil's uncontacted people are thriving – but with success comes a new threat ("Novas imagens mostram que os povos isolados do Brasil estão prosperando – mas com o sucesso vem uma nova ameaça", em tradução livre).>
Nela, eles explicam que, em 1987, especialistas da Funai chegaram a uma conclusão devastadora: "As doenças e a miséria resultantes do contato pacífico eram catastróficas para os povos isolados, e estabeleceram a atual política de não contato da instituição".>
Os Massaco são um dos 28 povos isolados do Brasil dos quais há confirmação.>
Janete Carvalho conta à BBC News Mundo que a fundação soube da existência desta comunidade em outubro de 1988, quando uma de suas equipes encontrou os primeiros vestígios da presença dela: pegadas, trilhas, pontos de coleta de alimentos e atividades de caça.>
"Não temos dados demográficos exatos sobre este povo, mas observando os vestígios deixados por eles, o tamanho e o número de habitações, chegamos a uma estimativa aproximada de 220 a 270 pessoas.">
Algayer havia calculado, no início da década de 1990, uma população de 100 a 200 pessoas.>
De acordo com Carvalho, os membros da comunidade ocupam todo o território da Terra Indígena Massaco, que tem cerca de 421 mil hectares.>
"Eles até estendem a ocupação para uma parte (1/4 da área) da Terra Indígena Rio Branco que faz fronteira com a Terra Indígena Massaco.">
Como a política da Funai é não estabelecer contato com os membros desta comunidade, eles decidiram instalar armadilhas fotográficas em locais estratégicos.>
E assim, em 2019, eles colocaram um destes dispositivos "mais para o centro da área", depois de realizar uma expedição de monitoramento, com o objetivo de obter algo que não tinham: uma imagem deste povo, e conseguiram.>
Mas este não era o único objetivo; eles também queriam entender o comportamento dos membros daquele grupo após sua passagem por aquela área.>
As novas imagens, de 2024, foram capturadas com uma câmera que estava instalada na região desde janeiro de 2021, conta Carvalho.>
Os indígenas se aproximaram e pegaram alguns machados e facões que a equipe da Funai havia deixado em uma trilha em 2021.>
"O equipamento fotográfico estava à vista de todos e, mesmo assim, permaneceu intacto. Os indígenas não se aproximaram nem sequer por curiosidade", informou a Funai em comunicado.>
O dispositivo registrou um grupo de nove indígenas, todos homens, com idade estimada entre 20 e 40 anos. A maioria deles era jovem.>
"Apesar das condições climáticas que comprometeram a nitidez das imagens, o registro foi essencial para documentar características físicas, comportamento, postura, entre outros aspectos.">
Antes de deixar a área, os indígenas deixaram para trás algumas "armadilhas cortantes", lascas de madeira com uma extremidade pontiaguda como esta:>
Os pesquisadores as identificaram como uma espécie de abrolho (estrepe) que é fincado no solo com a ponta voltada para fora.>
De acordo com a antropóloga, eles colocam as armadilhas em trilhas e em locais estratégicos, como atrás de um tronco, uma raiz ou um barranco.>
"São locais onde necessariamente se apoia ou se coloca o peso do corpo sobre os pés. Alguns são camuflados com folhas ou gramíneas", explica a especialista.>
"Um ferimento perfurante no pé se torna inevitável, mesmo se a pessoa estiver de sapato, e pode causar lesões graves.">
A especialista conta que as décadas de 1980 e 1990 foram uma época em que havia movimentação de pessoas e carros dentro da reserva.>
"As estrepes, as armadilhas indígenas, furavam os pneus das caminhonetes, inclusive da Funai, do Ibama e da Polícia Federal, assim como de caminhões e até tratores de madeireiros.">
Em 2024, após colocar as armadilhas, o grupo se retirou imediatamente daquela área, e entrou na reserva.>
Algayer acredita que a incursão indígena naquela área foi "uma abordagem planejada e organizada".>
Carvalho ressalta que as habitações são típicas de povos caçadores-coletores.>
"A maioria dos movimentos de seus membros está associada às mudanças sazonais da região — seca e chuva — e às variações na vegetação: entre campos, cerrado e selva densa.">
"Desta forma, eles desenvolvem uma gestão dos recursos naturais, delimitando seu território de ocupação dentro de um sistema nômade.">
O comprimento das flechas que os pesquisadores encontraram, em acampamentos abandonados, é de mais de 3 metros — e há algo que os intriga.>
"O tamanho da flecha e do arco não é realmente um mistério, outros povos também os utilizam, como os Sirionó da Bolívia, que têm arcos semelhantes.>
Mas há uma questão que "nunca desaparece", diz a antropóloga: "Como eles manejam os longos arcos e flechas no meio da selva e do cerrado?">
"Sabemos que eles matam muitos animais: macacos, queixadas, antas, veados, entre outros, que não são fáceis de matar de outra maneira.">
Algayer observou, na reportagem do Guardian, que "não tinha ideia" de como eles disparavam as flechas.>
"Outros povos indígenas também tentam entender, eles riem e dizem que é impossível. Talvez deitados, eles dizem, mas até hoje não temos resposta para esse mistério".>
"A Terra Indígena Massaco foi o primeiro território indígena demarcado exclusivamente para povos isolados", observa Carvalho.>
"Mas, ao mesmo tempo, outros povos desfrutaram da sua proteção e, posteriormente, foram demarcados territórios para eles.">
"O desafio de demarcar o território para esses povos é entender todo o contexto histórico e a dinâmica de ocupação dos povos, sem poder conversar com eles. Inúmeras atividades de expedição são realizadas na floresta para coletar vestígios e informações de terceiros no entorno, a fim de delimitar o território".>
É fundamental "garantir a autodeterminação e a autonomia dos povos isolados sem a necessidade de promover o contato e sem qualquer interferência em seus modos de vida", diz a Funai.>
Segundo a especialista, atualmente não há "nenhuma ameaça latente no território" onde está localizada a comunidade de Massaco, "como exploração madeireira e outras atividades ilegais".>
"A equipe da Funai, que está permanentemente no território, tem condições de garantir a proteção do território até mesmo na fronteira.">
A organização conta com Bases de Proteção Etnoambiental localizadas em pontos estratégicos, que visam, entre outras coisas, a proteção física e social dos povos isolados.>
Mas também a proteção ambiental, uma vez que "garantir a proteção integral dos recursos naturais deste território é fundamental para a sobrevivência destes povos", ressalta Algayer no comunicado da Funai.>
O objetivo de deixar ferramentas de metal, como facões e machados, é facilitar as atividades de caça e coleta de alimentos, para que comunidades como esta, não precisem deixar seu território em busca de objetos semelhantes.>
Pergunto a Carvalho se esta prática surtiu algum efeito.>
"Surtiu o efeito de dar às pessoas mais acesso a essas ferramentas, mas ainda não sabemos se isso funciona para todos os indivíduos. Sabemos, no entanto, que isso não impede que os membros deste povo alcancem ou ultrapassem a fronteira. Pode haver outros motivos para isso.">
Reid e Biasetto explicam que "estes presentes, antes usados para atrair as pessoas para o contato, agora são usados para evitá-lo".>
"Esta prática, usada em outros territórios indígenas, dissuade povos isolados de irem às fazendas ou acampamentos de madeireiros para adquirir ferramentas", escreveram.>
As imagens mais recentes, somadas às informações coletadas ao longo dos anos, permitem que os especialistas continuem aprendendo sobre como esta comunidade indígena vive e se desenvolve, sem comprometer seu isolamento.>
Você está otimista de que esta comunidade vai permanecer como está: sem estabelecer contato?, pergunto à antropóloga.>
"Me sinto um pouco mais otimista enquanto o governo brasileiro puder garantir a proteção dos recursos deste território, dos quais estas pessoas dependem para sobreviver", ela responde.>
"Mas as opiniões mudam de geração para geração, e em algum momento estas pessoas podem querer estabelecer contato.">
"Devemos estar preparados para isso.">
*Com a colaboração dos jornalistas Adriano Brito, Vitor Tavares e João Fellet, da BBC News Brasil.>
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