Publicado em 26 de março de 2026 às 08:34
A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) votou na quarta-feira (25/3) para reconhecer a escravidão de africanos durante o tráfico transatlântico como "o crime mais grave contra a humanidade", medida que defensores esperam abrir caminho para reparação e justiça.>
A resolução, proposta por Gana, pediu esse reconhecimento e também insistiu que os Estados-membros da ONU considerassem pedir desculpas pelo tráfico de escravizados e contribuir para um fundo de reparações. O texto não menciona um valor específico.>
A proposta foi aprovada com 123 votos a favor e três contrários: Estados Unidos, Israel e Argentina.>
Cinquenta e dois países se abstiveram, incluindo o Reino Unido e Estados-membros da União Europeia.>
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Lugares como o Reino Unido há muito tempo rejeitam pedidos de reparações, argumentando que as instituições atuais não podem ser responsabilizadas por erros do passado.>
Diferentemente das resoluções do Conselho de Segurança da ONU, as da Assembleia Geral não são juridicamente vinculativas, embora tenham o peso da opinião global.>
"Que fique registrado que, quando a história nos convocou, fizemos o que era certo em memória dos milhões que sofreram a indignidade do tráfico de escravizados e daqueles que continuam a sofrer discriminação racial", disse o presidente de Gana, John Mahama, à assembleia antes da votação.>
"A adoção desta resolução serve como uma proteção contra o esquecimento. Também desafia as cicatrizes persistentes da escravidão", afirmou.>
Mais cedo, seu ministro das Relações Exteriores, Samuel Okudzeto Ablakwa, disse ao programa Newsday, da BBC: "Estamos exigindo compensação, e sejamos claros: os líderes africanos não estão pedindo dinheiro para si próprios".>
"Queremos justiça para as vítimas e apoio a iniciativas, como fundos educacionais e patrimoniais, além de programas de treinamento profissional.">
A campanha por reparações ganhou força significativa nos últimos anos, a "justiça reparatória" foi o tema oficial da União Africana para 2025, e os líderes da Commonwealth pediram conjuntamente diálogo sobre o tema.>
Ablakwa também afirmou que, com a resolução, Gana não estava colocando sua dor acima da de ninguém, mas apenas registrando um fato histórico.>
Entre 1500 e 1800, cerca de 12 a 15 milhões de pessoas foram capturadas na África e levadas para as Américas, onde foram forçadas a trabalhar como escravizados. Estima-se que mais de 2 milhões tenham morrido durante a travessia.>
Em nenhum outro país, contudo, a escravidão teve a dimensão brasileira. Enquanto estima-se que 389 mil africanos desembarcaram nos Estados Unidos, no Brasil foram 4,9 milhões (no caminho, cerca de 670 mil morreram).>
A resolução, apoiada pela União Africana e pela Comunidade do Caribe, afirma que as consequências da escravidão persistem na forma de desigualdades raciais e subdesenvolvimento, "afetando africanos e pessoas de ascendência africana em todas as partes do mundo".>
Ablakwa disse à BBC: "Muitas gerações continuam a sofrer exclusão e racismo por causa do tráfico transatlântico de escravizados, que deixou milhões separados do continente e empobrecidos".>
Antes da votação, um orador após o outro expressou posições semelhantes.>
O Reino Unido, uma das principais potências envolvidas no tráfico transatlântico de escravizados, afirmou reconhecer os danos e o sofrimento e a miséria incalculáveis causados a milhões de pessoas ao longo de décadas.>
Mas seu embaixador na ONU, James Kariuki, disse à assembleia, em discurso, que a resolução é problemática em termos de redação e de direito internacional.>
"Nenhum conjunto de atrocidades deve ser considerado mais ou menos significativo do que outro", afirmou.>
O embaixador dos Estados Unidos na ONU fez observações semelhantes durante o seu discurso, afirmando que seu país "não reconhece um direito legal a reparações por injustiças históricas que não eram ilegais segundo o direito internacional à época em que ocorreram".>
Além disso, Dan Negrea afirmou que os EUA se opõem ao "uso cínico de injustiças históricas como instrumento para redistribuir recursos atuais a pessoas e nações que têm relação distante com as vítimas históricas".>
Gana, um dos principais pontos de partida do tráfico transatlântico de escravizados, há muito é um dos principais defensores das reparações.>
Fortes onde dezenas de milhares de africanos escravizados foram mantidos em condições desumanas ainda permanecem ao longo da costa do país da África Ocidental.>
Além dos "problemas jurídicos" em torno das reparações, o embaixador dos EUA afirmou que a resolução não é clara "sobre quem seriam os destinatários da 'justiça reparatória'".>
Negrea também respondeu às críticas anteriores de Mahama à administração de Donald Trump por "normalizar o apagamento da história negra".>
Desde que voltou ao poder, o presidente dos Estados Unidos tem direcionado ações contra instituições culturais e históricas do país por promoverem o que chama de "ideologia antiamericana".>
As ordens de Trump levaram a medidas como a restauração de estátuas e memoriais em homenagem a líderes dos Estados confederados — que lutaram na Guerra da Secessão para poder manter a escravidão — e uma tentativa de desmontar uma exposição sobre escravidão na cidade de Filadélfia.>
"Essas políticas estão se tornando um modelo para outros governos, bem como para algumas instituições privadas", havia dito Mahama na terça-feira (24/3).>
Mas Negrea afirmou que o presidente Trump fez "mais pelos americanos negros do que qualquer outro presidente".>
"Ele está trabalhando sem parar para entregar resultados e tornar nosso país maior do que nunca", disse.>
A resolução também pede que artefatos culturais saqueados durante a era colonial sejam devolvidos a seus países de origem.>
"Queremos a devolução de todos esses artefatos saqueados, que representam nosso patrimônio, nossa cultura e nosso significado espiritual", afirmou Ablakwa.>
"Todos esses artefatos saqueados ao longo de muitos séculos, inclusive durante a era colonial, devem ser devolvidos.">
*Reportagem adicional de Amanda Rossi e Juliana Gragnani>
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