Publicado em 16 de agosto de 2025 às 08:25
O encontro realizado nesta sexta-feira (15/8) no Alasca entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder russo, Vladimir Putin, foi anunciado como um passo fundamental rumo à paz na guerra na Ucrânia.>
Mas, sem anúncio de acordo de cessar-fogo ou um consenso em relação a todos os itens que estavam na pauta, a reunião de quase três horas terminou com mais perguntas do que respostas.>
Na manhã deste sábado (16/8), Trump participou de ligações com aliados dos EUA da Europa e o ucraniano Volodymyr Zelensky, que confirmou um encontro com o presidente americano em Washington na segunda-feira.>
Após os telefonemas, o republicano afirmou nas redes sociais que a melhor maneira de acabar com a guerra entre Rússia e Ucrânia "é ir diretamente para um acordo de paz" em vez de um cessar-fogo temporário "que muitas vezes não se mantém".>
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Entenda, a seguir, qual foi o saldo da cúpula para Trump, Putin e Zelensky em 6 pontos.>
Quando Vladimir Putin desembarcou no Alasca na sexta-feira, o céu estava nublado. Esperando com um tapete vermelho estendido sobre a pista da Base Conjunta Elmendorf-Richardson estava o presidente dos EUA, Donald Trump.>
Quando Putin se aproximou, Trump aplaudiu. Os dois líderes apertaram as mãos calorosamente e sorriram.>
Foi um momento marcante para Putin – um líder que a maioria das nações ocidentais tem evitado desde que Moscou lançou sua invasão em larga escala à Ucrânia em 2022. >
Desde então, o presidente russo tem limitado suas viagens internacionais a países amigos da Federação Russa, como Coreia do Norte e Bielorrússia. >
Putin é alvo de pedido de prisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) por supostos crimes de guerra durante o conflito na Ucrânia — algo que o Kremlin nega — e pode ser preso em países signatários do Estatuto de Roma, que criou o tribunal em 2002.>
O simples fato da cúpula do Alasca ter acontecido já foi uma vitória para Putin. Mas a recepção dada ao líder russo teria superado até os sonhos mais loucos do Kremlin. >
Em apenas seis meses, Putin deixou de ser um pária aos olhos do Ocidente para ser recebido em solo americano como um parceiro e amigo.>
Para completar, em um momento aparentemente improvisado, Putin decidiu aceitar uma carona até a base aérea na limusine blindada de Trump, em vez de dirigir seu próprio carro presidencial com placa de Moscou.>
Quando o veículo se afastou, as câmeras focalizaram Putin, sentado no banco de trás, rindo.>
O encontro no Alasca foi anunciado em 8 de agosto, na data em que se esgotou o prazo estabelecido por Donald Trump para que o líder russo aceitasse um cessar-fogo imediato ou enfrentasse sanções mais duras dos EUA. >
E apesar da reunião ter terminado sem uma conclusão, oficialmente não foram mencionadas novas sanções ou prazos para uma resolução. >
Trump foi questionado sobre o tema em uma entrevista à Fox News antes de retornar a Washington e afirmou que poderia considerar novas medidas "talvez em duas ou três semanas". >
Mas, considerando que o presidente prometeu "consequências severas" se a Rússia não avançasse em direção a um cessar-fogo, uma resposta tão imprecisa pode suscitar mais perguntas do que respostas, avalia o correspondente para América do Norte da BBC, Anthony Zucker, que acompanhou o encontro em Anchorage.>
Em seus 25 anos como presidente, Putin conquistou controle total sobre a mídia, esmagando as liberdades jornalísticas e substituindo informação por propaganda. Na Rússia, ele raramente – ou nunca – se depara com repórteres hostis.>
No entanto, poucos minutos após o desembarque no Alasca, um jornalista gritou em sua direção: "Você vai parar de matar civis?". Se a pergunta o incomodou, ele não demonstrou, parecendo dar de ombros e desviar o olhar.>
Durante uma breve e um tanto caótica sessão de fotos, mais perguntas foram feitas, incluindo uma em russo sobre se Putin estaria pronto para se encontrar com o presidente Volodymyr Zelensky para uma cúpula trilateral. Novamente, não houve nenhuma reação óbvia do presidente russo além de um sorriso enigmático.>
Apesar de ter enfrentado questionamentos da imprensa de uma maneira com a qual não está acostumada, analistas também enxergaram a participação do presidente russo na cúpula como uma "vitória clara". >
A imprensa mundial reunida no Alasca esperava que uma coletiva de imprensa fosse realizada após a reunião, mas Putin e Trump apenas deram declarações e não responderam a perguntas dos repórteres.>
Excepcionalmente, Putin foi o primeiro a falar. Ele elogiou a "atmosfera construtiva de respeito mútuo" das negociações de "vizinhança" e, em seguida, se dedicou a falar sobre o passado do Alasca como território russo.>
Enquanto Putin falava, Trump permaneceu em silêncio. Para Anthony Zucker, correspondente para América do Norte da BBC, a cena foi totalmente diferente do que costuma acontecer em encontros com outros líderes na Casa Branca, quando o presidente dos EUA costuma ser cortejado enquanto seu homólogo estrangeiro observa sem fazer comentários.>
"Embora o Alasca seja território americano, Putin parecia mais à vontade", diz Zucker. >
Passaram-se vários minutos de discurso até que o presidente russo mencionasse o que chamou de "situação na Ucrânia". Quando o fez, foi para afirmar que, embora um "acordo" não especificado tivesse sido alcançado, as "causas profundas" do conflito precisavam ser eliminadas antes que a paz pudesse ser alcançada.>
A frase deve ter disparado o alarme em Kiev e além. Desde o início da guerra, tornou-se uma espécie de código para uma série de demandas intratáveis e maximalistas que, segundo Putin, impedem um cessar-fogo.>
Entre as demandas está o reconhecimento da soberania russa sobre as regiões ucranianas da Crimeia, Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhya e Kherson, bem como a concordância da Ucrânia com a desmilitarização, a neutralidade, a não participação militar estrangeira e a realização de novas eleições. >
Essencialmente, equivalem a uma rendição – inaceitável para Kiev – mesmo após três anos e meio de conflito sangrento –, mas primordial para Moscou.>
Com isso, ficou claro que não houve acordo.>
O presidente também usou sua declaração ao lado de Trump para alertar os países da Europa a não interferirem em seus laços com os Estados Unidos.>
Segundo Tom Bateman, repórter da BBC News no Alasca, foi mais uma tentativa de Putin de ampliar as divisões entre a Casa Branca e seus tradicionais aliados europeus dos — algo que ele vem fazendo repetidamente sob o governo Trump.>
"Como arquiteto da guerra, Putin recebeu um abraço americano eficaz, uma recepção com tapete vermelho e aplausos presidenciais. Trump, em troca, não recebeu nada para apresentar como uma conquista tangível. A cúpula, portanto, representa uma vitória clara para Putin", avalia Bateman. >
Extraordinariamente – dado o contexto e a premissa da cúpula – quando chegou a vez de Trump falar, ele não mencionou a Ucrânia nem a possibilidade de um cessar-fogo. >
O mais próximo que o presidente americano chegou de se referir ao conflito foi dizer que "cinco, seis, sete mil pessoas por semana" são mortas e observar que Putin também queria ver o fim do derramamento de sangue.>
O geralmente loquaz Trump parecia ter menos a dizer do que Putin. Sua declaração foi notável por sua relativa e incomum brevidade – mas principalmente por sua imprecisão. "Houve muitos, muitos pontos em que concordamos", disse Trump, acrescentando que "grande progresso" havia sido feito em uma "reunião extremamente produtiva".>
Mas ele não compartilhou nenhum detalhe e não parece ter tomado nenhuma medida concreta para uma resolução do conflito ucraniano.>
E – para alívio de Moscou – não houve menção a quaisquer "consequências graves" que Trump ameaçou que ocorreriam se um cessar-fogo não fosse alcançado.>
"Não chegamos lá", admitiu Trump.>
Então, com otimismo, embora vago, acrescentou: "Mas temos uma chance muito boa de chegar lá.">
Já neste sábado, após conversas com líderes europeus e representantes ucranianos, Donald Trump afirmou que "foi decidido por todos que a melhor maneira de encerrar a terrível guerra entre a Rússia e a Ucrânia é chegar diretamente a um Acordo de Paz".>
Em uma postagem em sua plataforma Truth Social, Trump afirma que isso encerraria a guerra e seria mais substancial do que "um mero Acordo de Cessar-Fogo".>
O presidente dos EUA também acrescentou que teve "um dia ótimo e muito bem-sucedido no Alasca".>
A cúpula pode não ter produzido nenhum progresso tangível rumo à paz na Ucrânia, mas consolidou a reaproximação entre a Rússia e os EUA.>
Imagens dos dois presidentes apertando as mãos repetidamente e sorrindo circularam amplamente nas redes sociais – assim como imagens de militares americanos ajoelhados enquanto estendiam o tapete vermelho aos pés do avião de Putin.>
Antes de concluir sua declaração, Putin fez referência a um dos pontos frequentes do presidente americano: que o conflito na Ucrânia nunca teria começado se Trump estivesse no poder.>
Apesar da afirmação de Trump de "grande progresso", nada de substancial foi revelado na cúpula do Alasca – ainda assim, os dois líderes deixaram a porta aberta para outro encontro, desta vez em solo russo. "Provavelmente os verei novamente em breve", disse Trump.>
Concluindo uma declaração conjunta na qual não teve que fazer promessas ou concessões, Putin pode ter se sentido à vontade o suficiente para falar em inglês – uma ocorrência rara. Rindo, ele olhou para Trump e disse: "Da próxima vez em Moscou.">
"Ah, essa é interessante", disse Trump. "Vou ser um pouco criticado por isso, mas eu... eu consigo ver que isso pode acontecer.">
Após o encontro, na manhã desta segunda-feira (16), Trump participou de conversas por telefone com o ucraniano Volodymyr Zelensky e representantes da Europa. >
Após a ligação, um grupo de líderes europeus publicou uma declaração conjunta dizendo que "o próximo passo agora deve ser novas conversas, incluindo o presidente Zelensky".>
Segundo o comunicado, assinado por França, Itália, Alemanha, Reino Unido, Finlândia, Polônia e representantes da União Europeia, a Europa estaria pronta "para trabalhar com o Presidente Trump e o Presidente Zelensky rumo a uma cúpula trilateral com apoio europeu".>
"Estamos prontos para manter a pressão sobre a Rússia", afirma o comunicado, acrescentando que "a Ucrânia pode contar com nossa solidariedade inabalável enquanto trabalhamos por uma paz que salvaguarde os interesses vitais de segurança da Ucrânia e da Europa".>
Já Volodymyr Zelensky afirmou ter dito a Trump que as sanções contra a Rússia deveriam ser reforçadas "se não houver uma reunião trilateral ou se a Rússia tentar evitar um fim honesto para a guerra".>
"As sanções são uma ferramenta eficaz", disse o presidente ucraniano em um comunicado, reiterando também que "todas as questões importantes para a Ucrânia devem ser discutidas com a participação da Ucrânia, e nenhuma questão, particularmente as territoriais, pode ser decidida sem a Ucrânia".>
Após as conversas com Trump e líderes europeus, Zelensky também pediu o fim da matança, um cessar-fogo em terra e no ar, a libertação de prisioneiros de guerra ucranianos e a manutenção da pressão sobre a Rússia enquanto os combates continuam.>
"A segurança deve ser garantida de forma confiável e a longo prazo, com o envolvimento da Europa e dos EUA", disse. >
O presidente ucraniano também confirmou que irá se reunir com Donald Trump em Washington na segunda-feira (18/8). >
Para James Waterhouse, correspondente da BBC News na Ucrânia, o resultado da cúpula no Alasca, sem um anúncio de um cessar-fogo, foi um golpe para a Europa e para Kiev, que haviam pressionado Donald Trump intensamente antes da reunião para que chegasse a esse objetivo. >
"A busca por um acordo de paz duradouro levará tempo, e parece que os combates continuarão até que esse momento chegue. Isso convém à Rússia e não à Ucrânia", avalia Waterhouse. >
Neste sábado, as forças militares russas continuaram a avançar na Ucrânia. Segundo o Ministério da Defesa de Vladimir Putin, suas tropas tomaram duas aldeias no leste da Ucrânia: Kolodyazi, na região de Donetsk, e Vorone, na região de Dnipropetrovsk.>
Desde o início da invasão em larga escala, há três anos, as forças russas expandiram lentamente o território que controlam. Nos últimos meses, elas vêm conquistando avanços incrementais no leste da Ucrânia.>
As forças russas estão avançando a uma média de 15 a 16 km² por dia em território ucraniano, segundo o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW).>
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